por Ariane Abdallah
Tpm #103

Dona da Ford Models, Denise Céspedes fala sobre a ditadura da beleza, anorexia e drogas

Dona de uma das principais agências de modelos do Brasil, a Ford Models, Denise Céspedes, 45, fala sobre ditadura da beleza, mercado plus size, anorexia, drogas, prostituição e como ser modelo sem perder a medida

Denise foi modelo num tempo em que não existia Fashion Week nem o eixo da moda Nova York-Paris-Milão. Foi clicada pela primeira vez aos 17 anos, porque queria sair na capa de uma revista só para mostrar à mãe e às amigas. Não imaginava ganhar dinheiro, ser fotografada pelos maiores nomes do Brasil – como J. R. Duran, Bob Wolfenson e Luis Crispino – nem conhecer Alemanha, Estados Unidos, Japão, França, Suíça... Hoje, ao lado do marido, o ex-modelo Decio Ribeiro, ela é dona da Ford Models Brasil, uma das maiores agências de modelos do país. De lá, saíram Isabella Fiorentino, Luciana Curtis, Adriana Lima e Mariana Weickert. Há 15 anos no cargo de vice-presidente, é Denise quem toca o Supermodel Brazil, etapa nacional do maior concurso da área, o Supermodel of the world. Além disso, sua agência recebe, só na unidade de São Paulo, entre 50 e 100 meninas toda semana, interessadas em engrossar o time dos cerca de 500 modelos espalhadas pelas seis filiais da Ford pelo país. Mesmo assim, Denise garante nunca ter visto um caso de anorexia, bulimia ou prostituição entre modelos se desdobrar à sua frente.

Mas não nega que muitas das garotas que procuram sua empresa estão fora do padrão de magreza exigido pelo mundo da moda. Por isso, ela criou o Ford+, voltado para quem veste manequim a partir de 40. Mas meninas absolutamente normais, que poderiam inclusive estar no editorial de moda desta revista, precisam de um departamento “+” só por não vestirem 36? Na cabeça de Denise, sim. Apesar disso, ela admite que algumas garotas são estimuladas pela indústria da moda a passar dos limites: “Tem meninas [modelos de passarela] que estão OK, mas outras estão muito magras, passam a impressão de estarem doentes”, observa a própria Denise. A empresária segue uma tendência mundial: em Nova York, o segmento plus size tem sua própria semana de moda desde 2009, e São Paulo recebeu a primeira edição do Fashion Weekend Plus Size em janeiro deste ano.

Photoshop?

Apesar de contar orgulhosa que foi dormir tarde no último mês porque ficava até de madrugada na frente do computador – finalizava as apostilas do workshop que criou para mostrar às pessoas “sem biotipo de modelo” que é possível trabalhar em outras áreas da moda –, Denise garante que abriria mão de qualquer trabalho pelos filhos: Gabriel, 13, Giovanna, 9, e Rafael, 5. Depois que eles foram para a escola, numa sexta-feira à tarde, ela recebeu a reportagem da Tpm em sua casa, no Morumbi (bairro nobre de São Paulo), entre almofadas coloridas e esculturas de Buda com terços no pescoço. Denise tem 1,74 metro e está com os cabelos molhados. Não usa secador. Nem maquiagem para esconder marcas que atestam os 45 anos.

Mas, quando vê a foto que escolhemos para abrir esta entrevista, Denise tem um acesso de sou-uma-mulher-normal. Bateu certa insegurança em ver, tais quais são, as sardas e as marcas de expressão ali impressas. Sutilmente, ela sugere que a equipe da Ford dê uma tratadinha nas imagens. Mas nós, da Tpm, explicamos que a mulher que gostamos de retratar é assim, de verdade. E Denise, então, sai na foto e na entrevista que você lê a seguir sem retoques.

Tpm. Você lida com modelos há 15 anos. Como vê o padrão de beleza exigido hoje?
Denise Céspedes. Tem meninas que estão OK, mas outras estão exageradas, muito magras. Oitenta e cinco de quadril, se não for o biotipo da pessoa, é surreal. Uma criança. Algumas passam a impressão de estarem doentes. Não acho bonito. Trinta e oito para uma mulher de 1,80 metro é um manequim OK. E o manequim era feito em cima do 38 antes. Mas hoje toda modelagem é em cima do 36.

Usar manequim 40, então, virou sinônimo de ser cheinha?
As meninas que participam do Ford+, por exemplo, são meninas absolutamente normais. Estou investindo em um mercado para pessoas normais mesmo, que vestem 40, 42, não só plus size. Para que as pessoas comuns possam se identificar em editoriais de revistas. Não sou hipócrita de dizer que a menina tamanho 46 possa fazer um desfile, porque a roupa realmente fica mais elegante em uma menina que veste 38. Todo mundo fala da ditadura da beleza, da magreza, mas não somos nós, da agência, que ditamos isso. São os clientes.

Mas qual é a origem dessa exigência?
Os estilistas lá de fora começaram a fazer toda a modelagem da coleção em cima do manequim 36 e isso fez com que as modelos que estavam fora do padrão tivessem que emagrecer. Hoje em dia tanto os estilistas como os stylists estão antenados e já mostram sinais de mudança no mundo da moda. Tudo isso que eu falo é baseado na carreira internacional do mercado fashion.

Como você avalia todo esse “movimento plus size” que está acontecendo nos Estados Unidos?
Lá as modelos plus size já existem há mais de dez anos, só agora é que elas estão tendo projeção na mídia, pois estão fotografando editoriais de revistas e campanhas de grandes estilistas que antes eram apenas as modelos magras que fotografavam [marcas como Chanel e Jean Paul Gaultier já fizeram campanhas plus size]. A tendência é mostrar que existe moda para todos os padrões e penso que é nossa responsabilidade não fazer com que aquela adolescente da escola se sinta excluída da sociedade apenas porque está fora do que as revistas de moda publicam.

“Já ouvi falar do ‘book 2’ [supostamente com modelos que fazem programa], o book cor-de-rosa”

Essas mulheres conseguem trabalhar ou isso é mais um maneira de fazer marketing?
Nos Estados Unidos as modelos plus size trabalham muito, e recentemente trouxemos a Tara Lynn para fotografar uma campanha no Brasil com o Bob Wolfenson.

Por que as pessoas têm resistência em ver alguém gordo?
Não tenho nenhuma resistência, mas acho que às vezes as pessoas associam a obesidade com algumas doenças.

É comum pedir para um modelo homem perder peso, tanto quanto para mulheres?
Sim. Mas nunca usamos a palavra “peso” e sim “medidas”. Às vezes a modelo está com as medidas corretas e pesa mais que outra modelo que está com as medidas maiores que o padrão exigido. Às vezes pedimos para alguns homens perderem um pouco de medidas, pois estão musculosos demais.

E as doenças ligadas à imagem, como anorexia e bulimia, que, vira e mexe, vemos casos em modelos?
Desde quando eu era modelo, nunca vi uma pessoa com anorexia.

Nunca?
Nunca. Pode ser que nos Estados Unidos existam mais, porque aqui a gente fica muito atenta. Tanto que as meninas que estão fora de medida, que poderiam cometer loucuras para emagrecer, encaminhamos para uma nutricionista. Uma vez vieram comentar que uma menina acabava de comer e ia para o banheiro. Pedi para falar com ela, a menina começou a chorar, não quis falar. Ela não tinha bulimia, mas era diabética e comia doce, o que pode desencadear algo pior.

Que loucuras você já viu as modelos cometerem para ficarem magras?
Para você ter ideia, sou contra cirurgia plástica. As meninas são muito novas para fazer isso.

Na Ford você deve lidar com meninas que tomam remédio para emagrecer, se envolvem com drogas...
Não é assim como pintam. Só se eu for muito tapada ou inocente, mas não vejo essa coisa de drogas. Pode ter, mas como em qualquer profissão. Modelo tem que ser saudável, bonita, não dá para ser drogada.

E você, já tomou bola? Como era sua relação e a das modelos da sua época com drogas lícitas e ilícitas?
Nunca experimentei drogas. Nem lança-perfume, no Carnaval. Não gosto nem de beber. No máximo, tomo um copo de vinho. Cigarro, nunca fumei. No meu mundo essas coisas nunca existiram. As pessoas sabiam como eu era, então, se eu estava em um trabalho e alguém ia fumar alguma coisa, eu já saía de perto. Ia para a academia, ia correr. Todo mundo falava: “Você é careta”. E sempre tive esse cabelo cacheado, sardas, sou de Santos, vivia na praia, então todo mundo achava que eu era doidona.

Toda cidade tem tanto o pessoal geração saúde quanto o pessoal mais rock’n’roll. Qual era sua turma?
Eu sempre fiz ginástica, andava de bicicleta, tinha uma vida saudável. Até passava pelo Canal 3 e via o pessoal sentado ali. O Bom Ar de Santos é o cheiro de maconha. Mas eu frequentava o Canal 5, estudei em escola católica. Meu pai sempre incentivou a fazer esportes.

Como virou modelo? Morei em Santos até a adolescência. Quando tinha 17 anos, participei de um concurso da revista Capricho. Como toda adolescente, eu queria ser modelo. Mas não pensava em seguir carreira. Só queria aparecer numa foto, mostrar para minha mãe e para as amigas. Fui selecionada entre dez meninas, o Luis Crispino fez minha primeira foto. Mas não venci o concurso, fui para o banheiro, chorei e falei: “Nunca mais vou ser modelo, era minha chance”. Até que, no dia do meu aniversário de 18 anos, 23 de junho, a produtora da Capricho ligou na minha casa, me chamando para fazer um comercial em Itaparica. Eu não acreditava. Era sem noção, nem perguntei quem era o fotógrafo, não tinha agência. Nunca tinha pegado avião. Quando cheguei lá, o fotógrafo era o Bob Wolfenson. Queriam que eu ficasse de biquíni, mas eu falei: “Nem pensar, meu pai me mata”. Aí fotografei de maiô.

Você continuou trabalhando sem agência?
Quando estava no aeroporto, voltando, encontro um dono de agência. Ele me perguntou de que agência eu era, e eu disse: “Nenhuma”. Então ele deu o cartão para minha mãe. Depois de um mês, fomos visitar. Ele queria me levar para um editorial de moda em Salvador, para a Claudia Moda, que na época era produzida pela Costanza Pascolato. Mas minha mãe disse: “Imagina! Você mal chegou”. Então falei: “Não posso”. Depois peguei uma campanha com o Duran e, aí sim, comecei a trabalhar.

Na sua opinião, o que mais atrapalha a carreira de uma modelo?
As baladas, por exemplo. Detesto os promoters. É um problema no mundo inteiro. Muitas vezes, as meninas estão em outro país, aquilo é um deslumbre. Eles fazem amizade com elas, dizem: “Eu falo com sua mãe, pego você no apartamento”. Aí chegam na casa noturna, deixam elas na ala VIP, colocam bebida. E dali começa. A menina sai do foco. Só que, por trás disso, o cara está agradando a dona da discoteca, levando meninas lindas... As meninas têm que ser espertas. Porque engordam, perdem trabalho. Se você começar a ir pra balada, não acorda no dia seguinte. Se começa a beber, fica com a cara inchada. Quando você está engrenando, para queimar o filme são dois minutos. Tem muita oferta.

 

“Detesto os promoters. Chegam na casa noturna, deixam elas na ala VIP, colocam bebida. E dali começa”

Qual a melhor e a pior lembrança que você tem do seu tempo de modelo?
A melhor não é apenas uma, mas muitas. A primeira capa de revista, as viagens, o primeiro apartamento que consegui comprar com o meu dinheiro. A pior lembrança... acho que não existe a pior lembrança, mas coisas que te deixam chateada, como ser excluída de um paredão para desfile e ficar longe dos familiares nas viagens internacionais.

Quantos anos têm as modelos mais jovens da agência?
Em geral 14. Às vezes começam com 13, porque pego durante a seleção do Supermodel [etapa nacional do maior concurso de moda do mundo, o Supermodel of the world], mas só vão começar a trabalhar mais tarde. Até lá, aprendem inglês, a andar na passarela, cuidam da pele. Porque com 16 precisa estar pronta para desfilar no Fashion Week.

Como você enxerga a realidade de crianças que participam de concursos de misses, como aparece em programas como Pequenas Misses, veiculados pelo Discovery Home and Health?
Acho que criança tem que ser criança, não gosto de ver crianças vestidas, maquiadas e penteadas como adulto. E o pior é elas se sentirem rejeitadas quando não vencem o concurso. As crianças não precisam disso para serem felizes.

Como você faz para cuidar da cabeça de uma menina que veio do interior, que nunca viu, por exemplo, um caixa eletrônico, e vai parar em São Paulo?
Durante o Supermodel eu converso com elas, conheço cada uma, pergunto por que quer ser modelo, o que espera. Assim, já sei se a menina vai me dar dor de cabeça. Quando são contratadas e vêm para São Paulo, temos dois apartamentos no mesmo prédio. Em um deles, ficam as menores de idade e uma funcionária minha que mora lá. Fico sabendo de tudo o que acontece. Tem regras, não pode sair à noite nem entrar homem. Mas, quando elas ficam maiores de idade, não tenho mais esse poder.

O que é “dar dor de cabeça”?
Se a menina não se dá bem com a mãe, por exemplo, eu já aviso que, se não der certo, ela vai voltar pra casa. Algumas tentam sair escondido, à noite. Às vezes chegam a sair, mas fico sabendo. Mando chamar elas, converso, ligo para a mãe e, se for o caso, mando de volta. Não vou perder o sono por causa dessas coisas.

 

 

De que maneira as mães podem atrapalhar a cabeça e a estrutura psicológica dessas meninas?
Eu prefiro quando os pais estão do nosso lado. Mas tem alguns que cobram, querem que a filha ganhe R$ 1 milhão em um ano. E não é assim. Tem menina que demora para deslanchar. A Luciana Curtis, por exemplo, demorou dois anos para estourar. Mas está trabalhando até hoje. Outro dia tinha uma menina de 16 chorando porque o pai falou que ela tinha que comprar um apartamento. Eu falei: “Espera aí! Quantos anos tem seu pai?”. Ela falou que uns 40 e poucos. Eu perguntei: “E ele ainda não comprou um apartamento?”. “Não.” “Você acha mesmo que, com 16, tem que comprar?”

Fizemos uma reportagem (na Tpm # 99) sobre garotas de programa de luxo. Elas disseram que a maioria das modelos new face faz programa. Isso procede?
Quando tem alguma modelo que entrou... ou que a gente acha... mandamos embora. Agora, já ouvi falar “n” coisas. De agência famosa que tem o “book 2”, falam que é book cor-de-rosa. Eu adoraria ver esse book, ver quem está nele. As pessoas falam, comentam que existe, que rola. Falam de pessoas globais às vezes. Mas é como falar que tal bonitão é gay.

Nunca soube do caso de fotógrafos que trocam book por sexo?
Nunca vi. Então não posso falar.

Como foram suas experiências fora do Brasil?
Aos 20 anos, começaram a surgir propostas para viajar, mas eu não queria. Queria estudar, tinha namorado, minha família estava em Santos [Denise tem um irmão mais velho, Ricardo, e duas irmãs mais novas, Ise e Deise]. Na primeira vez, eu menti que tinha quebrado a perna para não ir. Pensava: “Não quero, tenho medo”. Imagina, com 20 anos eu tinha esse medo. Hoje as meninas vão com 14. Nessa época, parei de trabalhar. Montei uma confecção e levei meu pai, que estava aposentado, e minha mãe, que sempre foi do lar, para trabalharem comigo. E entrei na faculdade de educação física.

Quem era seu namorado na época?
Ele era de Santos, estava comigo desde que eu tinha 16 anos. Levei dois meses para dar um beijo no coitado do menino. Eu falava: “Gente, não sei beijar!”. Depois fiz enxoval, tinha aquele sonho de casar. Ele era meu sócio na confecção. Mas aí conheci o Decio e terminamos. Passei minha parte da sociedade para a frente e montei uma loja de roupa para os meus pais.

Como conheceu o Decio?
Voltei a modelar aos 23 anos, num evento em São Paulo, em que encontrei de novo aquele dono de agência que tinha conhecido no aeroporto. Ele disse: “Por que você parou?”. Na época, eu estava com o corpo ainda mais definido, porque fazia educação física, andava de bicicleta. De novo, ele mandou fotos minhas para o Luis Crispino e peguei um editorial da Claudia Moda. No mesmo ano embarquei para o Japão. E quem cuidava do departamento internacional da Class, que depois virou Ford, era o Decio. Eu achava ele antipático, porque é mais sério, sempre foi tímido.

O que fez você mudar de ideia?
Uma vez, era aniversário de uma menina da agência e fomos num restaurante. Sempre convidei meu namorado na época pra ir comigo nos jantares, mas ele nunca queria. Enfim, acabou o jantar, peguei o carro e fui embora. Até que vejo o Decio vindo atrás, de moto. Parei na rampa da avenida, e ele me deu um beijo! No dia seguinte, fui para Santos e terminei o namoro.

Você continuou trabalhando como modelo?
Até os 28 anos. Eu trabalhava muito na Alemanha e em Miami. Na minha época não existia isso de Paris, Milão e Nova York serem o eixo da moda. Não existia Fashion Week nem a divisão entre modelo comercial e modelo fashion. Eu fazia um pouco de tudo. Lembro quando eu ia trabalhar no sul da França, via aquela estação de esqui maravilhosa e pensava: “O que estou fazendo aqui?”. Olhava aquele lugar onde o pessoal estava almoçando, cheio de crianças, e falava: “São muito mais felizes do que eu”. Não que eu estivesse triste, mas não é uma realização pessoal, você está trabalhando. Quando fui para o Japão, com 23 anos, fiquei dois meses. Não foi legal porque, para eles, minhas sardas eram um defeito.

Você e o Decio estão juntos há mais de 20 anos e são sócios há 15. Como é ter tanta convivência?
Como fomos modelos, sabemos bem como é, o que a modelo sente, o que a mãe da modelo sente. Outra coisa que é bacana é que somos amigos de todo mundo: Duran, Bob, Gui Paganini [fotógrafos]. Conhecemos as produtoras e agências. Mas nós dois somos cancerianos, muito família. Minha vida são meus filhos. Se eu tiver que abrir mão do trabalho ou de qualquer coisa por eles, vou fazer. E olha que vejo os amigos dele falando: “Aê, Decião, se deu bem!”, pelo fato de ele trabalhar com modelos. Eu quero matar! Mas tem homens lindos também [risos]. Não tenho ciúme porque trabalhamos pela mesma coisa.

Como é a dinâmica do dia a dia?
De manhã, faço ginástica, lição com as crianças, levo para a escola, almoço com elas e vou para a agência lá pelas 13h30. Fico até umas oito da noite. Tive que contratar um motorista para buscar elas na escola, porque não estava mais dando conta de ficar no trânsito, as crianças ficavam esperando. Até hoje não sou de sair à noite. Adoro chegar na minha casa e ficar com meus filhos. E, até uns cinco anos atrás, trazíamos muito trabalho para casa. Mas decidi: “Não se fala de trabalho em casa”. Senão, desgasta o relacionamento. Hoje, nem que a gente quisesse, não dá para fazer isso, porque tem três crianças, todas querendo falar.

Você se incomodaria se ele ganhasse mais que você?
Eu ia achar ótimo. Nunca tive essa coisa de “isso é meu, isso é seu”. Desde quando fui modelo, comprei meu carro, depois juntei dinheiro para comprar um apartamento em Santos. Não conseguiria ter que pedir dinheiro para fazer o pé e a mão.

Você gostaria que a sua filha fosse modelo?
Se for uma opção dela, vou dar todo apoio. Mas nenhum dos meus filhos gosta. Minha filha fala que quer ser estilista.

Você ainda é ligada à sua mãe?
Sim, falo com ela duas vezes por dia. Sempre fui ligada a ela e a meu pai, que faleceu em julho do ano passado. Foi a pior coisa da minha vida. Sabe quando você perde o chão? Era uma pessoa que andava na praia todo dia. Quando ele ficou doente, eu falei: “Traz para São Paulo”. Ele estava com insuficiência cardíaca. Morreu na minha frente, na UTI. [Pausa. Ela chora.] Ia para a agência e ficava mal, chorava. Achava que tudo o que me falavam era besteira. Mas não queria ficar falando da minha vida para ninguém. Ficava a noite inteira pensando numa maneira de mudar o fim da história, como quando eu era criança e pensava em como poderia mudar o fim do pesadelo. Sabe aquela sensação de você acordar e estar fazendo alguma coisa muito legal? Eu falava para o Decio: “Nunca mais vou sentir isso, de ser feliz”. O médico falou: “Você precisa tomar remédio”. Demorei um ano, nunca fiz terapia. Mas resolvi tomar [antidepressivo]. Pelas crianças também, que ficavam mal me vendo daquele jeito. Agora posso falar no assunto, ver foto, acho que posso ser feliz.

Já parou de tomar remédio?
Não. O médico falou que devo tomar por seis meses.

Você tem ou já teve paranoias com o corpo?
Gosto de fazer ginástica, jogo handball e faço pilates. Mas não sou uma pessoa que fica se olhando no espelho, se tenho celulite, se estou gorda. Não me peso. Se as roupas estão legais, tudo bem. Não sou neurótica. Às vezes fico a semana inteira sem fazer a unha. Nunca fui de usar maquiagem. Comprei corretivo pela primeira vez agora em julho, olha que vergonha! Agora mudei a alimentação aqui em casa, está mais saudável. Minha filha estava com o colesterol um pouquinho alto. Então, preparamos arroz integral, tudo grelhado, estou introduzindo leite de soja e deixei de comprar doce.

Como foram os nascimentos dos seus filhos?
Foram três cesáreas. Eu queria parto normal, minha mãe e minhas irmãs tiveram normal, mas eu não pude. E essa cobrança de que tem que ter normal, não acho legal. Ótimo se você pode, mas se não posso não vou ficar de cabelo branco pensando que eu tenho que ter parto normal. Também não gosto quando as pessoas famosas falam: “Engordei só 6 quilos”. Você está grávida, se dá o direito de engordar 10, 12. Eu engordei 1 quilo a mais em cada gravidez, em relação à anterior.

Nunca fez plástica?
Nunca.

Sente medo de envelhecer?
Envelhecer faz parte. Lógico, ninguém quer ficar velho, acabado. Mas tenho 45 anos bem resolvidos. Se aparecer ruguinha aqui, não sou daquelas de ficar olhando. Comecei a usar óculos com 42 anos, para ler. Outro dia, o Decio e eu deitados na cama, lendo de óculos, e ele falou: “Estamos velhinhos”.

Teve crise dos 30, dos 40?
Quando entrei nos “enta”, o Rafael era um bebê. Estava tão feliz com a maternidade... Não me troco por quando eu tinha 20 anos. Agora tem os nossos filhos, a nossa vida. Convivo com mulheres lindas o dia inteiro. Se eu for ter inveja de uma menina de 16, 20 anos, me interna. Elas têm idade para ser minhas filhas!

 



MAQUIAGEM DAVID GODOY (ABÁ MGT)

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