Diana Assennato
Natasha Madov

por Diana Assennato
Natasha Madov

Não é estranho maltratar uma ferramenta humanizada na voz de uma mulher com nome, personalidade e senso de humor? Por que não ensinar as crianças a dizer “por favor” e “obrigado” à Siri?

Quantas perguntas você já fez ao Google? Hoje, mais de 40 mil buscas são feitas por segundo na ferramenta, o que se traduz em 3,5 bilhões de perguntas por dia ou 1,2 trilhão ao ano. Algumas delas, com certeza, são suas, mas a gente aposta que nunca te ocorreu dizer “por favor” ou “obrigada” pelo link alcançado. Certo?

Então imagine nosso ataque de amor ao ouvir falar de May Ashworth, vovó inglesa de 86 anos que pergunta coisas ao Google como se estivesse conversando com pessoas, dizendo por favor" e "obrigada" a cada nova busca. Além de derreter nossos corações, May nos botou para pensar sobre como a tecnologia está começando a nublar a fronteira do que é certo ou errado fazer com uma máquina.

Vovó May tem netos, que talvez já tenham tirado um sarro da cara da Siri. "Siri, sua burra! Siri, você sabe mesmo contar?" Cansamos de ouvir frases assim de crianças, mas você não vê nenhuma mãe dizendo: "Meu filho, não foi assim que te criei!".

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É claro que nossos pais não agradeciam à lista telefônica por encontrar o número de um chaveiro, mas não é estranho maltratar uma ferramenta humanizada na voz de uma mulher – com nome, personalidade e senso de humor – de forma gratuita? Especialistas chamam isso de "gap de empatia", fenômeno que acontece quando nos deparamos com interfaces que se comunicam conosco. Surge então uma dificuldade de enxergar a perspectiva programática da máquina e conectar isso com os modos que a sociedade nos ensinou a ter.

Estudos já mostraram que, quanto mais humanizada for a tecnologia, mais empatia sentimos, ainda mais em situações de risco para a máquina. Um japonês maluco foi preso ano passado por chutar um Pepper, robô fofinho, até a "morte" durante um acesso de raiva. As pessoas o trataram como se ele tivesse cuspido em um filhote de panda albino.

Muitas vezes não entendemos como o sistema funciona, mas simpatizamos com a forma como ele nos trata. Isso não necessariamente nos conecta à máquina emocionalmente. Assistentes domésticos, como o Amazon Echo, têm tudo para ser uma escola de pequenos ditadores. Personificado na voz de Alexa, o sistema só entende comandos claros e diretos, criando padrões de comunicação autoritários nas crianças.

Siri empoderada
Cognitivamente, é difícil sacar como uma criança percebe a diferença entre ser educado com um humano e mal-educado com uma máquina, que também "conversa" com ela. Ao contrário dos gestos que tiveram que aprender para mexer em um iPad, crianças não precisam de uma nova linguagem para lidar com assistentes pessoais e robôs. É só imitar os seus pais no tom assertivo.

Quanto isso influenciará o desenvolvimento infantil ainda não sabemos, mas, por via das dúvidas, por que não dar um updatezinho no sistema, algo que nos obrigue a ser mais educados com as máquinas? Quem sabe uma Siri empoderada não ajude as crianças a lidar melhor com o futuro e fazer da gentileza da dona May a norma, e não a exceção.

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