Com licença, eu vou à luta
O Golpe de 64, que hoje faz 50 anos, caiu como um pesadelo na vida do país e na vida dessas mulheres, que não baixaram a cabeça e seguiram lutando pela democracia
Créditos: Bruno Miranda
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Na década de 60, elas levavam uma vida normal, de jovens de classe média. Rose Nogueira iniciava sua carreira de jornalista e sonhava em ter filho. Maria Lucia Dahl via de perto o desbunde do Rio e começava sua carreira de atriz. Clara Charf, depois de ter trabalhado como aeromoça, era secretária e vivia com o amor de sua vida: Carlos Marighella, assassinado pela policia da ditadura. Dulce Maia andava pelo Teatro Oficina e era uma agitadora social e fã da nova musica brasileira. Eleonora Menicucci (hoje Ministra da Secretaria da Mulher) vivia por São Paulo entre política e discussões feministas. Sônia Lafoz era estudante de Psicologia na USP quando começou a participar do movimento estudantil e foi parar na luta armada.
O Golpe de 64, que hoje faz 50 anos, caiu como um pesadelo na vida do país e na vida dessas mulheres. A vida delas mudou para sempre. Só que elas não baixaram a cabeça. Muito pelo contrário. Foram para a rua, viveram na clandestinidade, se afastaram da família, algumas pegaram em armas. Muitas tiveram que aprender a atirar.
Elas não tiveram medo de ser presas, ficar longe dos filhos e sofrer as mais bárbaras torturas que você pode imaginar. Algumas delas chegaram a ser separadas dos filhos, que foram ameaçados (“levavam minha filha na cadeia para me ver estourada”, lembra Eleonora, mãe de Maria, na época, um bebê), penduradas em pau de arara. Mãe de um recém-nascido na época, Rose Nogueira, ao ser presa, tomou uma injeção para que o leite secasse (“Os torturadores achavam nojento”). Maria do Carmo Brito viu seu marido ser assassinado na sua frente no momento de sua prisão. Os cabelos de Dulce ficaram brancos da noite para o dia, depois de inúmeras torturas a que foi submetida. Ela não pensa em pintá-los (“Faz parte da minha história”).
Essas moças, ainda meninas, tiveram que mudar de país, perderam companheiros e amigos. Passaram anos na cadeia. Tudo porque acreditaram na democracia. São heroínas, sim. Com vocês, a história de algumas mulheres que foram para a guerra (literalmente) para que a gente possa viver na democracia que vivemos hoje. A elas, o nosso muito obrigada.
Eleonora Menicucci (hoje Ministra da Secretaria da Mulher)
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