O que não dá para deletar

por Nathalia Zaccaro

A violência digital pode ser tão destruidora quanto a física. Com Débora Falabella e Mariana Nunes, a série ”Vítimas digitais” reflete sobre os caminhos para lidar com esse drama contemporâneo

Somos o que comemos, o que pensamos, o que compramos, o que fazemos, o que sentimos. E também o que postamos. Somos carne, sangue, sentimento. E dados. O impacto de nossas ações – e das ações de outras pessoas em relação a nós – no ambiente digital é cada vez mais profundo.

“Nós já somos personas digitais. Não existe separação entre violência física e on-line, todas são violências e podem destruir uma pessoa. A agressão que viola os dados, a privacidade e a integridade digital de alguém pode ser bombástica”, diz Lia Bock, coordenadora de pesquisa da série Vítimas digitais, que estreia hoje (4/11), no GNT e conta sete histórias de diferentes crimes que aconteceram na internet. 

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Em cada episódio, uma história real é ficcionada é entrecortada por depoimentos de especialistas – em tecnologia, em direito digital, em violência contra a mulher e em outras áreas – que ajudam a ampliar a visão sobre o assunto. Estão no elenco nomes como  Débora Falabella, Mariana Nunes e Marcos Veras. “A gente começou pesquisando relacionamentos e redes sociais, Tinder, aplicativos, histórias positivas. Mas aí vimos que os casos de assédio e violência estão muito mais presentes no nosso universo do que a gente imaginava”, diz João Jardim, diretor da série.

“A internet é um novo espaço público e, como em todos os espaços, a mulher sofre violência”, explica Gabriela Manssur,  promotora de Justiça do Estado de São Paulo especializada em violência contra a mulher. “Quando o agressor é um ex-marido ou o ex-namorado que não se conforma com o fim de uma relação, é comum que venha o pacote completo: a invasão digital, a desmoralização, as ameaças, e também a agressão física”, completa Lia.

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No primeiro episódio da série, a personagem vivida por Débora Falabella enfrenta exatamente essa situação. Ela apanha de seu namorado e, depois de terminar o relacionamento, passa a ser vítima do chamado revenge porn – ou seja, começa a ser ameaçada com imagens em que aparece nua. “Por conta dessas violências, ela perde a identidade. Eu sabia que isso existia, mas não tinha a dimensão de como estamos tão sujeitas a isso. Em um mundo tão ligado à tecnologia, ela também pode ser usada para o mal”, comenta a atriz. 

Vida real

A estudante Sofia*, 18, precisou lidar com suas fotos íntimas vazadas quando ainda estava na escola, aos 14 anos. “Meus pais estavam se separando e minha autoestima estava um lixo. Eu sempre tive peitos grandes e nessa época percebi que isso agradava os homens. Mandei fotos sem sutiã pra um garoto de quem eu gostava. Em 3 semanas, fiquei sabendo que ele tinha mandado as imagens pros meninos, que mostraram pra todo mundo”, conta. Sofia precisou lidar com os olhares pelos corredores, a reação assustada dos pais e, pior de tudo, com a sensação de que a culpa era dela.  “Sou traumatizada até hoje. É muito difícil para mim confiar em alguém, me relacionar com homens, até mesmo fazer amizade. Passei mais de um ano só conversando com meninas.”

A culpabilização da vítima é um dos pontos centrais da discussão sobre esse tipo de crime. Em uma pesquisa com 470 estudantes do primeiro ano de uma universidade privada do sul dos Estados Unidos, realizada entre agosto e dezembro de 2015, um terço das pessoas que tiveram suas nudes compartilhadas sem autorização se sentiram bravas consigo mesmas por terem inicialmente enviado a foto. Esse é um dos motivos que fazem com o crime seja subnotificado. 

“A subnotificação ocorre por vários motivos. As consequências do vazamento são gravíssimas para as vítimas. Mais da metade das respondentes da nossa pesquisa indicaram terem sofrido isolamento social e depressão. Além disso, cerca de um terço dessas vítimas relatou ter se automutilado ou ter cogitado suicídio”, explica Leandro Ayres França, professor de direito penal e coordenador do Projeto Vazou, pesquisa sobre vazamento não consentido de imagens íntimas no Brasil, desenvolvida e realizada pelo Grupo de Estudos em Criminologias Contemporânea, de Porto Alegre. 

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Foi só em 2018 que o Brasil avançou um pouco quanto à legislação que versa sobre esse tipo de crime. A nova lei tornou criminosa a publicação e o compartilhamento de fotografia ou vídeo, sem autorização, de cena de sexo, nudez ou pornografia de terceiros.  A pena é de 1 a 5 anos de reclusão. Apesar de muitas vezes (na maioria delas) esse crime ainda continuar impune no país, a criação desse tipo de lei é um avanço importante para a solução do problema. 

Mas a verdade é que o revenge porn é apenas um dos tipos de crimes digitais que são cometidos contra mulheres no Brasil. “Vejo acontecer muito a perseguição on-line, os stalkings. Eles têm os mesmos efeitos da perseguição física: isolamento, tolhimento da liberdade. E ainda não temos a legislação específica para esse crime. Estamos trabalhando para que seja aprovada no Congresso Nacional uma lei sobre stalking com penas maiores, prevendo punição independentemente da vontade da vítima e da contração de advogados. Se aprovada, o Ministério Público terá a obrigação de fazer a denúncia formal e dar início ao processo criminal, já que muitas vezes a vítima tem medo ou vergonha e não consegue tomar essa decisão”, explica Gabriela.

Terra de ninguém

A série do GNT explora essa enorme gama de crimes que podem acontecer na internet. A personagem da atriz Mariana Nunes – escalada também para Carcereiros e Segunda chamada, da Globo – vê sua vida se transformar em um inferno depois que decide expor em suas redes sociais um estupro que sofreu. Em vez de ser recebido com acolhimento, o desabafo da personagem é causa de mais agressões. “Ela recebe ameaças, começa a viver uma paranoia, até que decide sair das redes sociais e deixar de lado a própria vida. É um suicídio simbólico, pois, de alguma forma, ela para de existir. Ela é uma atriz, uma pessoa pública, assim como eu. Preciso das redes para trabalhar. Me imagino no lugar dela e a dificuldade que seria lidar com essa questão. Há pouco tempo, alguém hackeou minha conta do Instagram. Eu consegui recuperar, mas por um tempo pensei em como seria perder essa vida construída ali dentro, é uma trajetória”, explica Mariana.

Os especialistas que participam da série chamam atenção para a importância de aprofundarmos a discussão sobre ética na internet. Uma pesquisa promovida pelo  Tinder revelou que as pessoas que mais se comportam mal na plataforma são homens mais velhos, o que leva a um raciocínio de que quem não é nativo digital tem ainda a sensação de que a internet é um lugar de anonimato para fazer coisas erradas.  “Os jovens já entendem que são o corpo físico e também os dados digitais, já têm essa simbiose. Precisamos ensinar responsabilidade digital pras crianças e adultos. Não adianta só falar sobre o que acontece depois do crime, temos que falar sobre o que acontece antes”, diz Lia.

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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