por Marcela Morgado
Tpm #174

Mulheres hackers e o ativismo digital podem trazer mudanças relevantes para as questões femininas e modificar a internet como a conhecemos

Invadir sistemas, controlar câmeras e ter acesso a perfis e senhas de qualquer pessoa que esteja conectada. Dados como esses são facilmente acessados por uma hacker, e conseguir informação através de códigos é uma arma poderosíssima. Mas é o que se faz com os dados em mãos que realmente pode modificar profundamente a forma como utilizamos a internet. É nesse campo da transformação que se localiza o trabalho das hackers feministas, que, com o domínio da programação e a capacidade de ler e escrever códigos, fazem do ativismo digital um instrumento para buscar impactos para além do mundo virtual.

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Há muitas maneiras de agir na rede e o uso que cada hacker faz de seu conhecimento é o que a diferencia. O tipo que frequenta o imaginário leigo é o BlackHat, ou cracker, que usa suas habilidades em benefício próprio, normalmente invadindo sistemas para roubar algo ou simplesmente para infectá-lo, sempre a partir de técnicas ilícitas. Essas mesmas técnicas, no entanto, são usadas por quem se identifica como GreyHat.

Os meios iguais não se refletem nos fins, distintos. Uma hacker brasileira, que trabalha em uma multinacional de desenvolvimento de software e prefere não se identificar, invade computadores de homens que estão compartilhando nudes de alguma mulher e deleta todos os arquivos de computadores e de celulares dos abusadores. “As mulheres procuram a gente porque é mais fácil e eficiente do que recorrer à polícia. Apagar um nude que vazou pode salvar a vida de uma menina que estaria completamente taxada em seu ambiente de estudo ou de trabalho caso algo não fosse feito rapidamente. Já vi mulheres terem suas vidas destruídas por um nude que vazou”, explica a GreyHat do Rio Grande do Sul.

As GreyHats também levam sua atuação a sites com conteúdos machistas e até mesmo a crimes que usam a rede para se propagar. A missão passa por descobrir dados de perfis falsos de homens que praticam pedofilia e assédio sexual na rede. “Conseguimos identificar pedófilos e juntar material contra eles para entregar à polícia.” Elas também combatem o “ciber abuso”, situação em que hackers propagam discursos de ódio para praticar terror psicológico através de mensagens encriptadas, muitas vezes tentando atingir especificamente ciberativistas trans, feministas e negras. “Normalmente, o discurso de preconceito desses grupos é somente uma fachada para continuarem rodando seus negócios de pedofilia e tráfico de menores”, observa.

Elas querem uma internet diferente

O poder de quem codifica não se limita a interferir na internet, há a possibilidade de recriá-la. A capacidade das hackers de construir novas ferramentas, adaptar programas já existentes e desenhar maneiras diferentes de comunicação e difusão de informação criaram o ambiente perfeito para a inserção do feminismo no ativismo digital, o ciberfeminismo.

Reconhecendo que as redes sociais e sites foram criados por homens dentro de multinacionais, as redes de código fechado reproduzem o discurso machista e criam reações contrárias às desejadas pelas ciberfeministas. O objetivo é que as mulheres programem suas próprias regras e criem redes sociais seguras para discussão e troca de informação, que gerem conhecimento através de códigos. O lema é claro: “Hackeando o patriarcado”.

Essa maneira de atuar na internet ganhou mais destaque hoje, mas não é recente. Em 1994, a hacker Jude Milhon, conhecida como St. Jude, autodidata e uma das primeiras mulheres a trabalhar com tecnologia, escreveu Hacking the Wetware: the Nerd Girls Pillow-book.

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Na mesma década, outra mulher que marcou a história é Natasha Grigori, fundadora do Anti-Child Porn Organization, grupo que reúne hackers do mundo todo para seguir digitalmente distribuidores de conteú-do pornográfico e denunciá-los através de técnicas de hackeamento desenvolvidas pela própria Natasha. Agora, uma que começa a deixar sua marca nas linhas de código é Eva Galperin, diretora da Ciberseguridade, organização que luta por direitos de cidadania digital e protege pessoas vulneráveis na internet, ensinando-as a reforçar sua segurança e privacidade.

O empoderamento da mulher através da tecnologia está até mesmo em uma ação da ONU, no projeto The 17 Goals, conjunto de 17 transformações necessárias para termos um mundo melhor em 2030. A igualdade de gênero entra em quinto lugar de prioridade, depois de temas como fome e saúde, e, dentro deste módulo, uma das premissas é inserir a mulher na tecnologia.

Ela não quer estar sozinha

Mulheres que já superaram essa barreira exigem que suas equipes sejam mistas. “O pé na porta é a melhor tática. Em todos os meus projetos, exijo mulheres trabalhando. No último, a Operação Serenata de Amor, por exemplo, quando fui convidada a ser mentora pelo Felipe Cabral [um dos idealizadores do projeto], exigi a presença de mulheres em um post no Facebook, público. Daí veio a Ana Schwendler e depois a Jessica Temporal, que é uma desenvolvedora sensacional. Depois me tornei diretora do Serenata de Amor e, quando fechei a fusão entre o projeto e a Open Knowledge, fiz questão de tratar com a Natália Mazotte, que é a codiretora da OK”, conta Yasodara Córdova, 38, pesquisadora do centro de estudos de ciberespaços da universidade Harvard.

Formada em design gráfico, a programadora era conhecida nos fóruns hackers dos anos 2000 como Yaso (uma opção deliberada para esconder o gênero e, assim, ter mais respeito). Aprendeu a programar por curiosidade quando começou a trabalhar com seu pai e se tornou uma das pioneiras em projetos de estudos sociais desenvolvidos através de códigos no Brasil. “Pela paridade de gênero, sou do board da Coding Rights, já participei do guia para envio de nudes (que já está desatualizado) e dou pitaco nos projetos da organização, que é feita, em sua maioria, por mulheres”, conta.

Yaso trabalha com tecnologia desde 2006 e estuda código aberto e livre como forma de fazer democracia. Ela já percebe uma mudança na quantidade de mulheres, mas acredita que é preciso chegar a cargos altos de empresas de tecnologia para que o conteúdo gerado mude. “Faço questão de exigir mulheres nos lugares onde trabalho porque a visão do processo muda, os homens precisam se acostumar a ter chefes mulheres no mercado da informática.”

Para isso acontecer, é preciso que a distância entre a garota e a tecnologia seja diminuída desde cedo. “Conheço poucas mulheres que abriram um computador pra trocar a ventoinha, e isso é ruim porque você se distancia da tecnologia, gerando desinteresse e afastamento”, reflete Yaso.

Ela quer quebrar a internet

“A faculdade te dá uma base, mas é nas comunidades que você aprende como usá-la. Ninguém vira hacker com um diploma”, decreta Ingrid Spangler, 20, uma das oito garotas (são 40 alunos) de sua sala no curso de ciência da computação da Universidade Federal de Minas Gerais. A garota é conhecida por ganhar campeonatos de Capture the Flag (CTF) – jogo que simula problemas de programação reais e ganha quem conseguir hackear primeiro –, competindo em categorias mistas, tanto individualmente quanto com seu grupo, HexQueens, composto somente de mulheres.

Ingrid cogitou estudar arte, mas entendeu que gosta mesmo é de “quebrar as coisas”. “Quebrar é explorar algo que os desenvolvedores não queriam que fosse explorado, é descobrir falhas e modificar programas para que eles trabalhem de uma maneira diferente.” Ela diz que perdeu amigos ao dizer que era hacker, e que o problema está na visão errada que as pessoas ainda têm da atividade. “Um hacker é uma pessoa que quer pensar fora da caixinha, estamos interessados em entender como as coisas funcionam”, explica. “Gostaria que as pessoas começassem a fazer tudo com código aberto e por si mesmas. Assim, você poderia usar seu celular sem se preocupar com a venda de seus dados.”

A capacidade de Ingrid como hacker e a forma como ela fala com desenvoltura do que quer fazer começam a chamar atenção. “Já me ofereceram empregos full time e em outro estado e tive que recusar porque quero terminar a faculdade. Ainda me convidaram pra ser youtuber e gravar aulas de segurança da informação”, conta.

Elas têm mais força juntas

Além da ação individual, existem atualmente muitos grupos de mulheres hackers por todo o mundo, com atuações diversas e bastante espaço para experimentação.

O laboratório ativista Nossas desenvolveu o bot Beta, que conversa com usuárias através do chat do Facebook e informa sobre leis e projetos que estão ligados ao direito da mulher no Brasil. A vantagem de ser um robô é que ele pode monitorar em tempo real tudo o que acontece e avisa por mensagem no celular assim que algo entra em pauta no governo, difundindo a informação em segundos a todos os inscritos.

Mais de 56.700 pessoas já conversaram com o bot e o índice de compartilhamento é de 50%. Mariana Ribeiro, uma das idealizadoras, diz que em um dia de votação da PEC 181 chegaram a ser enviados 34 mil e-mails aos deputados. Tudo através da Beta. “O legal é que o chatbot foi desenvolvido pelo Facebook para fins comerciais e conseguimos direcionar a tecnologia para fazer política. Invertemos o papel da ferramenta.”

Outra iniciativa que tem se destacado é o PretaLab, voltado para estudos de tecnologia entre mulheres negras e indígenas. O laboratório vem realizando dois mapeamentos: um de negras que trabalham com tecnologia e outro de histórias e desafios enfrentados por elas. Hoje, são mais de 500 perfis. Elas também criaram o projeto Minas de Dados, que selecionou cinco mulheres negras (trans ou cis) para passar um mês elaborando projetos de tecnologia a partir de dados abertos por governos.

Para Silvana Bahia, 32 anos, uma das idealizadoras do coletivo, o maior trabalho do PretaLab é traduzir a informação que está disponível e torná-la acessível. “O Vale do Silício tem apenas 4% de mulheres negras. O que queremos saber é o que muda quando uma mulher negra pensa em um aplicativo.”

Elas não querem a informação como privilégio

Na Europa, a ideia que ganha cada vez mais força é compartilhar conhecimento e ampliar o impacto e a visibilidade do ciberfeminismo. O coletivo catalão Donnastech é referência na Espanha ao misturar tecnologia a diversas outras áreas de conhecimento, da realização de oficinas de programação a ações que misturam arte e ativismo digital. Elas também publicam sistematicamente projetos desenvolvidos por mulheres e perfis de hackers mulheres que fizeram a diferença no mundo.

No MediaLab, centro de pesquisa digital de Madri, na Espanha, surgiu o grupo Akelarre Ciberfeminista, fundado por meninas que não sabiam programar, mas tinham a curiosidade de entender o que a tecnologia poderia oferecer de diferente às causas que defendiam. Realizaram uma oficina com especialistas, que resultou em um kit de autodefesa ciberfeminista. O coletivo também tenta desenvolver um bot contra “maschitrolls”. “Nosso intuito é parar de fazer o trabalho mecânico. Deixar que o robô faça o trabalho enquanto pensamos nos próximos passos”, diz a fundadora Virginia Díez.

Existem também movimentos mundiais como as PyLadies, com mulheres que programam phyton e open source. A ideia é unir programadoras para trocar conhecimento e aumentar a rede de mulheres dentro de softwares livres. Estão em diversos países do mundo, incluindo o Brasil.

O ciberfeminismo é cada vez mais uma alternativa relevante dentro das batalhas diárias do feminismo, capaz de transformações na estrutura da sociedade atual a partir da sociedade digital. E não é mais quase impossível ser uma hacker, tampouco é uma atividade voltada para crimes. Os códigos estão aí, é preciso não estarmos alheias ao controle deles.

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