por Milly Lacombe

Amar é aceitar o mistério. Aceitar o horror. Aceitar que a beleza é justamente essa: a de que estamos aqui e agora

Francisco tinha 6 anos quando, estando sob a guarda de minha mãe para que os pais pudessem jantar fora, decretou que não iria para a cama. “Não quero, nonna”, disse educadamente. Meu sobrinho e afilhado é um rapaz bastante determinado e, vendo o olhar descontente da avó, seguiu, virando o rosto para ela antes de mudar o canal da TV: “Eu não quero mesmo dormir agora, tá?”. Minha mãe, que depois que virou avó decidiu começar a explicar pacientemente as ordens em vez de sair gritando e estapeando quem a confrontasse, explicou: “Francisco, meu amor, se você não for para a cama agora, amanhã vai ficar cansado na escola”.

Foi o que bastou para ele, que, largando o controle no chão, achou por bem elucidar alguns pontos para aquele ser humano que parecia não entender o óbvio. “Nonna, olha, eu vou te contar uma coisa. O amanhã não existe. O que existe é agora, e agora-agora eu não quero ir para a cama, tá?”

Não lembro o que houve depois disso, mas fica bastante difícil rebater um argumento tão sólido.

Ter a consciência de que vamos morrer, essa racionalidade que nos separa dos demais seres vivos, é a maior de todas as crueldades. Porque ela nos faz acreditar na existência do tempo, acreditar na suposição de que o tempo passa e, portanto, no amanhã. Com essa lógica, vem a devastadora noção de que estamos acabando, que é o que nos angustia e o que nos prende ao passado e ao futuro, sem que percebamos que o passado é saudade e o futuro é preocupação. Entregues a esses dois universos imaginários, deixamos de ocupar tudo o que temos: o presente, esse minuto, esse segundo, essa respiração. Esse agora é um momento tão poderoso que, ao não conseguirmos suportá-lo, recorremos aos mais variados escapes.

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Vida louca

Desesperados para entender o grande mistério da vida – sedentos por respostas que nos garantam que não vamos, afinal, acabar –, deixamos de perceber que, como contam os mitos, estar aqui agora é o maior dos mistérios, mistério que a consciência não consegue entender. O paradoxo é que tendemos a aceitar apenas aquilo que entendemos, e nesse caso é justamente o que nos devasta: não entender o mistério impede que o aceitemos. Aceitar o enigma, aceitar o agora e nada além dele, reconciliar a si mesmo com esse grande mistério que é existir.

A vida, se analisada cartesianamente, é apenas monstruosa. Se houve um grande criador, ele provavelmente estava banhado em sadismo quando decidiu fazer com que as coisas fossem como são, e depois resolveu nos mostrar como exatamente elas são: nos deu olhos e consciência para que entendêssemos que a vida depende de matar e comer outras vidas.  Viver é isso: matar e comer outras vidas. Diante do entendimento desse absurdo, “sempre haverá um senso de horror”, explicou o mitologista Joseph Campbell.

Parece pavoroso pensar assim, mas talvez seja, pelo contrário, libertador. Aceitar o horror e o mistério, aceitar que nada além desse segundo existe, pode nos livrar do medo, esse componente tão útil à dominação de uns seres humanos sobre outros, à manutenção de sistemas de poder que nos escravizam, oprimem, reprimem. Onde existe medo não existe amor porque eles se anulam. Amor é, por princípio, o avesso do medo já que o medo nos confina e o amor liberta.

Amar é aceitar o mistério. Aceitar o horror. Aceitar que a beleza é justamente essa: a de que estamos aqui e agora. Fechar os olhos, desligar a TV, desconectar celulares e computadores e buscar essa verdade dentro de você não é fácil, mas é a única ponte para nos tirar de uma terra devastada erguida sobre pilares de angústias e ansiedades, essa terra que nos prende ao passado, e, portanto, à saudade, e ao futuro, e, portanto, à preocupação.

Era isso o que deveria ser ensinado às crianças nas escolas. Porque educação não é sobre quanto vamos ganhar para o resto da vida, é sobre saber quem somos, o que nos move, quais os nossos valores, propósitos e paixões. Sobre se investigar. Crescer assim nos pouparia muitos sofrimentos, traumas e isolamentos.

Mas a quem interessa nos conduzir para esse lugar de paz? Não há lucro na paz. O que gera lucro é o medo. Medo de ficar doente. De ser assaltado. De engordar. De envelhecer. De ser deixado. De ser rejeitado. De morrer. De viver.

É pra já

Encontrar essas verdades requer destruir sonhos, ideias, esperanças, crenças. Não é fácil, muito pelo contrário: é um caminho penoso e escuro, que exige disciplina e atenção. A pergunta que precisamos fazer é: estamos dispostos e dispostas a ser o combustível de um incêndio sem fim? Quando conseguirmos dizer “sim” a essa pergunta é porque fomos capazes de ligar todos os dispositivos que nos conectam a alguma coisa maior e talvez nessa hora possamos começar a ocupar esse espaço tão poderoso que é o agora e, nele, encontrar a única coisa que realmente importa, a única que pode nos unir, a única que pode nos reconciliar com a verdade e, assim, nos libertar: o amor. Porque, se o divino existe, ele vive no presente, e em mais lugar algum.

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