Cidades inclusivas

por Mayara Rozário

Arquiteta especializada em administração pública, Lais Leão criou uma rede que projeta rotas mais seguras para mulheres

Quando Laís Leão estava fazendo seu trabalho de conclusão de curso (TCC) do curso de Arquitetura e Urbanismo, talvez ela não imaginasse que seu projeto tomaria a proporção que tomou. Foi graças a esse trabalho que, hoje, ela é reconhecida pela União Europeia como uma das jovens mais influentes do mundo na área de igualdade de gênero.

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Isso porque o projeto se dedicou a estudar algo pouco discutido: a diferença entre a forma que homens e mulheres usam a cidade, sob o recorte da percepção de segurança e apropriação do espaço público, e por quais motivações isso acontece. Em 2018, a curitibana desembarcou em Bruxelas, na Bélgica, representando o Brasil no European Development Days (EDD), um congresso que apresenta propostas para diminuir o impacto negativo de diversas questões que afetam o planeta.

Hoje, aos 26 anos, Laís afirma que lembrar de tal experiência ainda parece surreal, já que foi muito questionada pela escolha de seu tema. Alguns diziam que seria trabalhoso demais, enquanto outros achavam o assunto pouco relevante para sustentar uma pesquisa. A paranaense, então, resolveu levar a própria vivência em consideração. Lembrou de como deixava de ocupar sua própria cidade por medo e de como seus trajetos ganhavam minutos extras por receio de passar em certos lugares, como as ruas próximas a Universidade Tecnológica Federal do Paraná, onde se formou, em 2016.

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“Eu morava muito perto da universidade, coisa de 10 a 15 minutos andando, mas acabava indo de ônibus, de carro ou de carona por medo de passar pelos terrenos vazios que tinham por ali. No início, fui várias vezes a pé, mas passava muito medo e cheguei a viver situações constrangedoras e ameaçadoras no caminho”, conta. “Por estar envolvida com o feminismo, eu já conseguia enxergar o tanto que nós mulheres somos questionadas. Nossas ideias demoram para serem ouvidas, somos constantemente interrompidas, nossas experiências são subestimadas. Então, eu imaginava que, também por ser um tema novo, haveria questionamentos. E eu estava preparada para eles. Estar em Bruxelas por causa desse trabalho foi único e enriquecedor. Falo sempre e sem sombra de dúvidas que foram os 10 dias que mais mudaram a minha vida”.

Aprendizado foi como a arquiteta, que antes pensava em seguir carreira na área da saúde por conta do avô e da mãe dentistas, descreveu os dias no congresso. A troca de experiências e as histórias ouvidas foram tão inspiradoras que a motivaram a continuar construindo uma carreira ativista. Lá, Lais percebeu que podia desenvolver projetos transformadores, pois, além de empenho, ela teria apoio para criar.

inCities: a rede que constrói cidades seguras

Lais voltou para casa com aquele sentimento de que poderia fazer ainda mais pela segurança urbana de gênero. E os diversos pedidos de ajuda para a realização de projetos e para trocas de ideia sobre urbanismo a fizeram entender o tipo de iniciativa que deveria fundar. Foi assim que nasceu a inCities, uma rede que busca articular pessoas e projetos em prol de cidades mais seguras e inclusivas, não só para as mulheres, mas para todos.

“Acho que naturalizamos o medo por uma questão cultural. Nós somos ensinadas desde muito crianças a sentir medo, a estar sempre atentas. Isso porque, de fato, estamos vulneráveis o tempo todo. E a violência urbana é muito traiçoeira, pois apesar de atingir absolutamente todas as mulheres do país, ela era tida como se não fosse um problema. Quando voltei, percebi a complexidade disso e pude entender que  um projeto único não seria capaz de proporcionar o impacto esperado. Acho que nós, mulheres, precisamos ocupar cada vez mais a cidade – sempre prezando pela segurança. Quanto mais nós estiver em lugares públicos, mais mulheres vão se sentir seguras para saírem às ruas e estarem nas praças, parques e estádios também”.

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Falando mais a fundo sobre a falta de segurança e do sistema que deixa as mulheres em estado de alerta em tempo integral, Lais amplia o debate para discutir o vínculo entre a violência urbana e a privada. “Uma mulher que tem segurança para ocupar sua cidade, que tem apoio comunitário, que faz parte de um coletivo urbano está muito mais forte para sair de um espaço privado de violência”, diz. 

Apesar de recente, a rede ultrapassou as metas esperadas e alcançou mais de 20 mil pessoas em campanhas online e 1,5 mil engajadas em projetos. Para facilitar essa conexão, a inCities foi divida em quatro áreas: Atenção/Educação, Ação, Pesquisa e Política. A ideia inicial era atuar em todas na mesma proporção, mas o plano foi alterado ao passo em que a equipe percebeu que a insegurança urbana de gênero ainda não é tratada como um problema estrutural, o que deu prioridade a área de Atenção e Educação. 

Ao longo de 2019, a inCities também organizou eventos e palestras, principalmente no Paraná, que culminaram na Semana Curitiba Inclusiva,  que, em sua primeira edição, discutiu sobre inclusão urbana, mobilidade e meio ambiente.

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“Com as informações coletadas no evento, vamos produzir um documento sobre inclusão urbana para ser apresentado às candidatas e aos candidatos à Prefeitura e à Câmara de Vereadores. Nossa ideia é que possamos replicar o modelo para outras cidades Brasil afora. Ficamos extremamente felizes porque, para essa iniciativa, contamos com o apoio institucional da ONU Habitat”, destaca. 

Laís, que agora integra a lista Forbes Under 30 e é considerada uma das jovens mais promissoras na categoria Terceiro Setor e Empreendedorismo Social, começou o ano cheia de ideias e está se dedicando ao projeto Sua Rota + Segura, ainda em fase piloto. A intenção é desenvolver parcerias com estabelecimentos comerciais para criar trajetos de segurança para mulheres. Até o momento, a iniciativa possui mais de 130 voluntários em 36 cidades brasileiras, e será  ativado de acordo com as demandas por ações. 

Um dos segredos para desenvolver esse tipo de trabalho, tão focado na colaboração e no bem estar de uma parcela grande da população, é a extensa rede de contatos que Lais tem. Ela conta que o trabalho como voluntária e coordenadora de diagnóstico e avaliação da TETO, organização sem fins lucrativos que busca diminuir a desigualdade por meio de trabalhos de moradia e infraestrutura, a ajudou muito nesse sentido. Como era responsável pela coleta de dados das comunidades que a OSC atuava no Paraná, teve contato direto com famílias e estatísticas. Desse modo, aprendeu sobre a relação das mulheres com a cidade tanto num contexto quantitativo, a partir dos dados, quanto qualitativo, pois pode conhecer realidades diferentes da sua. 

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“Na chamada 'cidade informal', que tem muita vida, mas não sob a caixinha do Estado, o senso de colaboração é mais desenvolvido. E, nesse contexto, mulheres florescem como lideranças naturais. Muitas delas são mães-solo e preocupam-se com a saúde, educação e bem estar dos filhos, delas e da comunidade. Essa preocupação e responsabilidade com a família, imposta ou não, acaba se estendendo e fazendo com que a comunidade em si vire uma extensão da casa delas”, explica, ressaltando as experiências que viveu quando atuou nas favelas de Curitiba. 

Para alcançar cidades mais seguras, Laís bate na tecla de que é necessário fortalecer os conceitos de comunidade e colaboração, uma vez que são eles que geram a segurança. Pensar em ações individuais e em representatividade também são fatores centrais para reconstruir áreas urbanas. 

“A cidade ideal para mim é pautada nas pessoas. As cidades brasileiras só vão representar os cidadãos de verdade quando eles estiverem representados nas mesas de decisão. Quem desenha o espaço e constrói a cidade precisa ser quem a usa. Acredito que é possível criarmos cidades que sejam de fato seguras e inclusivas. Como falei, sou muito otimista. Acho que estamos andando para esse caminho, com alguns obstáculos no percurso, mas conseguindo melhorar as rotas”, conclui.

Créditos

Imagem principal: Arquivo pessoal

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