por Bruna Bittencourt
Tpm #176

Denice Santiago não cogitava ser policial, mas a major abriu caminho para mulheres na PM baiana. Há três anos, está à frente da Ronda Maria da Penha, que acompanha 2 mil mulheres sob medida protetiva

A major Denice Santiago faz piada com as policiais no estacionamento da 5ª Delegacia Civil de Periperi, na periferia de Salvador. Elas usam batom, unhas vermelhas e carregam uma arma na cintura. Acompanhada de duas policiais, a major entra na viatura para visitar uma das 2,4 mil atendidas pela Ronda Maria da Penha, uma tropa da Polícia Militar da Bahia que acompanha, em 13 cidades do estado, mulheres vítimas de violência doméstica, sob medida protetiva e em situação de vulnerabilidade.

Perto da Igreja do Senhor do Bonfim, em uma casa espaçosa, visitam uma delas, que chegou a buscar com os filhos proteção contra o marido – que já foi preso duas vezes pela Ronda e hoje está foragido – em uma casa abrigo. “Havia coisas delicadas que só consegui contar com o tempo”, diz ela, que apelidou aquelas policiais de “salvadoras de Marias”. Cozinheira de mão-cheia, ela enche a mesa como uma forma de agradecimento ao trabalho das policiais.  “A gente sabe o nome dos filhos, os problemas que a mulher tem, se ela cozinha... Vamos criando um vínculo afetivo em que ela se sinta confortável para nos contar tudo”, diz Denice.

Desde 2015, visitas surpresas como essa já resultaram em mais de 120 prisões de agressores por conta do descumprimento de medidas protetivas. Para a major, significam também homicídios evitados.

Denice, 47 anos, é áries com escorpião, filha de Iansã – uma orixá guerreira e determinada –, mãe de um garoto de 17 anos (fruto de seu primeiro casamento) e “nega” para os mais próximos, apelido que ganhou por conta de uma música de Luiz Caldas. É formada em psicologia, com mestrado que investigou a discriminação racial na atividade policial militar no estado da Bahia. Branco correndo é atleta; preto correndo é ladrão é o título de sua dissertação.

A major chegou à corporação por acaso, em 1990, quando sua tia avisou a seu pai sobre o primeiro concurso da polícia baiana para mulheres, depois de 156 anos em que foi exclusiva aos homens. “Não escolhi a polícia militar, ela veio para mim.” Desde então, vem trabalhando para que as policiais baianas sejam vistas e tratadas da mesma maneira que seus colegas homens, mas para que questões como gravidez ou assédio moral não sejam ignoradas. Para isso, criou um centro de referência, o Maria Felipa. E foi a partir das queixas dessas policiais que entrou em contato com a violência doméstica.

A Ronda como remédio
Em quase 30 anos de polícia, Denice fez um pouco de tudo: cuidou da segurança da Arena Fonte Nova (Salvador), incentivou policiais a apresentar recitais, transformou meninos carentes em agentes educadores de trânsito. “Falo para o comandante que ele pode me colocar para trabalhar em qualquer lugar porque sempre vou fazer um barulho.”

E usa dessa mesma criatividade para combater a violência doméstica. Já criou um jogo de tabuleiro para que mulheres percebam violências que sofrem no dia a dia, o Espelho; levou a Ronda para comunidades quilombolas e assentamentos de reforma agrária; e fez com que policiais conversassem com homens em comunidades com alto índice de violência contra a mulher, num papo exclusivamente masculino. Por este projeto, ganhou em 2017 o selo de Práticas Inovadoras de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, entregue pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o que a levou a fazer um intercâmbio com a polícia de Londres no início deste ano.

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A Ronda também a salvou. Há três anos, Denice descobriu um câncer que lhe tirou o estômago (“Adoro falar que não tenho estômago para isso”, brinca) e credita ao projeto a força que precisava para se reerguer.

No debate de que participou na Casa Tpm, fez questão de vestir sua farda. “Eu me orgulho muito do que faço, do que sou e de onde estou.” E fica feliz em dar entrevistas como a que você lê a seguir para que mais mulheres reflitam sobre violência doméstica. “Eu aposto muito na prevenção”, conta. “A gente tem que trabalhar para a Ronda ser desnecessária.”

Tpm. Como foi a sua infância?
Denice Santiago. Eu sou a terceira de cinco filhos. Nasci em Salvador. Tive uma infância divertida. Meus pais nunca tiveram educação, minha mãe foi terminar o segundo grau depois que minha irmã caçula nasceu. Na minha casa, às vezes a comida era a mesma: bife e arroz, bife e arroz. Meus pais passavam o ano todo com a mesma roupa, mas pagavam livro, material escolar. Colocaram eu e meu irmão em uma escola particular da primeira à quarta série. A gente morava em um bairro que alagava quando chovia e a lembrança que tenho é de minha mãe carregando a gente pela rua alagada até o ponto de ônibus para irmos à escola. Andava na rua e sequer via policial. Parecia uma cidade do interior.

A polícia era ausente? Não sei. Passei a minha infância e adolescência sem ter a necessidade da polícia militar. Nem sabia como entrava na polícia, que tinha concurso. Naquela época, acho que só entendia o que era delegacia porque as pessoas falavam que precisavam ir lá. Tirei a carteira de identidade onde? Na delegacia.

O que seu pai fazia? Trabalhava na Petrobras, era bombeador. Ele ia para aquelas plataformas no mar, ficava cinco dias. Fui conhecer meu pai, a figura paterna, em 1989, quando ele se aposentou. Começamos a ouvi-lo, a respeitá-lo, a brincar, a sair com ele. Meu pai é um homem muito íntegro. Minha mãe era só em casa. Lembro que quando tinha uns 5 anos, quebrei o braço. Ela me levou para um pronto atendimento, mas não deixaram ela entrar. Quando o cara pegou o meu braço para tirar o raio X, dei um grito. Ela deu um chute na porta, que se espatifou: “Vocês estão fazendo o que com minha filha?”. A minha mãe era minha heroína. Foi a primeira feminista que conheci. Ela diz até hoje: “Mulher não pode depender de homem. Vai estudar, ter sua casa, seu dinheiro, seu emprego, porque, se ele não prestar, você manda embora”. Acho que ela nem sabia o que isso significava: feminismo. Acho que até hoje não sabe.

Como você entrou para a corporação? Tinha os desenhos animados Pokémon e Digimon. Minhas irmãs diziam que eu era a “Mandanomon”, que tudo manda. Toda vez que tem algum problema, tomo a frente, desde sempre. Sou a terceira mais velha, mas essa sempre foi a minha postura, de coordenar, de mandar, de ter que ser como eu quero. Em 1989, abriu o primeiro concurso da polícia militar para mulheres. Minha tia falou para painho. Ele confia muito em concurso público, o descanso dele é a estabilidade dos filhos. Me inscrevi no concurso de soldado e passei. O de sargento não preencheu o número de vagas e abriu de novo. Meu pai me deu o dinheiro e disse: “Minha filha, então se inscreva que sargento deve ser melhor”. Eu não sabia o que era sargento nem soldado. Falei: “Vou torrar esse dinheiro e não vou me inscrever”. Eram R$ 50 na época. Uma colega que estava fazendo concurso comigo falou: “Não faz isso, não”. Me inscrevi de novo e passei. Então, já entrei como aluno sargento, em 1990. Me apaixonei pela polícia, adorava todos os hinos. Não via como um lugar de repressão. É um lugar de acolhimento. Não vou prender uma pessoa, vou proteger a outra. E se para protegê-la eu precisar lhe prender, vou lhe prender.

Como era seu trabalho naquela época? A gente trabalhava na Companhia da Polícia Militar Feminina, o único espaço da corporação que tinha mulher era lá. No começo de 1991, fazíamos policiamento em escolas, em praças turísticas. A mulher ia trabalhar com jovens, crianças, mulheres e idosos. Só faltou dizer: lavar, passar e cozinhar. A Constituição de 1988 dizia que precisava ter mulheres fazendo esse papel, mas não significava que elas só iriam trabalhar com isso. Nós somos policiais como qualquer outro. Isso já me incomodava, porque queria entrar na viatura, queria abordar, como meus colegas homens faziam. A gente desfilou pela primeira vez em 7 de setembro, foi uma emoção maravilhosa. Nós éramos um pouco aquela música de Gilberto Gil, “A novidade” – alguns veem “o busto de uma deusa maia” e outros veem “um rabo de baleia”. Olhavam com um olhar de fascínio, mas também cético. Você olha para uma médica e não duvida de que ela saiba usar um bisturi. Mas quando eles olhavam para uma policial era “será que ela sabe mesmo usar uma arma?”.

Como foram esses primeiros 15 anos de serviço? Formei sargento em 1990. De 1990 a 1991, trabalhei na Companhia de Polícia Militar Feminina e, em 1992, entrei na Academia de Polícia Militar, um curso de quatro anos. A academia nunca tinha tido uma sala mista com homens e mulheres, a gente não tinha alojamento. Fomos criando tudo isso: bota ducha, não bota ducha, “ai, meu deus, ela está menstruada” – homem não pode ouvir essa palavra. No quarto ano, a escolha de batalhão era por classificação. Queria muito trabalhar no sétimo, que é responsável pela [Arena] Fonte Nova; sou apaixonada por futebol, torço para o Vitória. Só tinha uma vaga nesse batalhão. Aí o primeiro foi escolhendo o batalhão que queria, o segundo, também... Eu era a décima. Quando chegou minha vez, falei: “Sétimo batalhão!”. Pensa em uma felicidade. No primeiro jogo, fiquei parada, o estádio estava lotado, chegava a balançar, chorava de emoção.

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Estádios costumam ser ambientes bem machistas. Também trabalhei no gramado com a tropa especial. Eu estava no lugar de comando. E quando você chega, tem que se impor. A gente tem que ser, mas em muitas situações você tem que parecer ser. Não permito que ninguém duvide da minha capacidade profissional porque sei o que faço. Como os homens na minha corporação foram criados para proteger a mãe, a avó, a mulher, a filha, eles chegam querendo proteger as policiais mulheres. A gente não quer proteção, aprendemos a mesma coisa que eles. E digo mais: na minha turma de oficiais, a gente foi desescalar um edifício alto, todas as meninas desceram, mas alguns colegas homens não. Depois de um tempo, quando veem nosso desempenho, eles entendem que não precisamos de proteção, mas de apoio, como eles também precisam.

E esses dez anos foram na rua? Nesse primeiro ano pós-formada, fui para a rua. Meu comandante foi chefiar a Academia, que forma os oficiais, responsável pelos líderes da corporação. Naquele ano, receberam 18 mulheres. Já que sou da primeira turma, ele me chamou. A academia é a guarda bandeira nos desfiles, tem seis alunos que compõem essa turma. Historicamente, ela é formada por homens, porque não existiam mulheres ali. Falei: “Vou colocar duas mulheres”. Foi a primeira vez [na Bahia] que a guarda bandeira era feminina. Aí as meninas queriam colocar no alojamento os indicativos do feminino que elas gostavam – um bichinho de pelúcia em cima da cama. Os outros oficiais viraram um bicho, falavam que eu queria acabar com a polícia militar. Disse: “Não, estou lhe dizendo que nesta corporação tem mulher agora, acostume ou corra. Você vai ter que aprender a conviver com isso”. Passei quatro anos na academia e formei uma turma massa, são mulheres oficiais que me enchem de orgulho, me chamam de mãe até hoje. Quis ensinar para elas que a gente pode ser qualquer coisa, como minha mãe me ensinou.

Como foi sua gravidez trabalhando como policial? Trabalhei na academia durante esses anos e, em seguida, fui chamada para ir para o Detran [Denice criou um projeto que transformou meninos que ficavam nos faróis em Salvador em agentes de educação de trânsito, que recebiam uma bolsa e eram obrigados a ir à escola]. Trabalhei lá durante toda a gravidez, então foi mais fácil. Gravidez não é doença, mas exige cuidados diferenciados. Em 2005, fui para o departamento de qualidade e estava completando 15 anos de mulher na polícia baiana. Quando reencontrei – algumas não via há 15 anos –, vi o sofrimento no rosto das meninas. Comecei então a olhar para a mulher na polícia militar. Nesse mesmo ano, São Paulo estava completando 50 anos de ingresso da mulher na polícia. Por causa desse movimento que fiz, o meu comandante me pediu para participar de um congresso em São Paulo. Teve uma dinâmica em que as mulheres começaram a falar de depressão, de filhos que se suicidaram, de separações. Elas falavam da vida pessoal, mas creditando tudo isso ao trabalho. Uma dizia, por exemplo, que a polícia militar fez com que ela não tivesse tanto com o filho por causa das escalas de serviço; outra falava que adoeceu porque sofria assédio moral. Um monte de questões. Disse: “Isso vai acontecer na Bahia daqui a pouquinho”. Nós criamos, então, um centro para servir de referência para mulher na polícia.

Em algum momento você pensou que isso poderia reforçar um estereótipo de fragilidade da mulher? Não, muito pelo contrário. Se não existisse um espaço desses, acredito que as mulheres estariam hoje nos espaços administrativos da corporação. A referência que existia do feminino na polícia era a da sociedade, machista: da dona de casa, que vai saber administrar uma casa, mas não combater, proteger. Em 1997, havia poucas mulheres nas viaturas porque, quando a Companhia da Polícia Feminina acabou naquele ano, elas foram pulverizadas. E onde foram absorvidas? No setor de pessoal, na recepção, no almoxarifado.

E como nasceu o centro? A gente falou com o comandante, o coronel Santana, um visionário nas questões sociais. Em 2006, viramos o centro Maria Felipa – o nome é em homenagem a uma mulher que reuniu outras para lutar pela independência da Bahia [no século 19]. Começamos a conversar com as mulheres e muitas reclamavam de assédio moral. A gente intermediava com o comandante a transferência delas. Começamos a ver a questão da gestante, porque um achava que a mulher tinha que ficar guardadinha – aparecia grávida, já tirava da rua. E outro falava que gravidez não era doença, que, com oito meses, a mulher vomitando, sem conseguir entrar na viatura, podia trabalhar. Depois de dois anos, conseguimos assinar essa portaria que tira a mulher da rua no dia em que ela se determina grávida. Parece bobagem, mas isso é um avanço enorme. Essas mulheres chegavam com essas inquietudes, muitas eram vítimas de violência doméstica.

Existe um perfil da mulher vítima de violência doméstica ou isso é preconceito nosso? É preconceito. Protejo tanto mulheres que moram nos bairros mais caros de Salvador como mulheres que não têm nem onde morar. Tem a ver com a cultura, com o machismo mesmo, com esse condicionamento que o ambiente deu a todas nós, de submissão, de pertencimento, de que precisamos de uma figura masculina. Os contos de fadas estão aí para nos dizer isso todos os dias. Imagine que todos os meus vizinhos sabem que sou policial, um símbolo de força, de poder, de lei, e que sou vítima de violência doméstica. Como é que saio de casa? Como conto para as minhas colegas, para o meu comandante, que não faço nada para evitar isso? Então essas mulheres sofrem muito mais. Comecei a ouvir esses casos e a provocar a polícia a dialogar. Nós também somos machistas, também acreditamos que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher. A lei Maria da Penha só tem 12 anos, imagine na época que tinha acabado de sair. Estou falando de violência física, mas e essas que adoecem a mulher? Tem uma atendida minha que diz que o marido nunca bateu nela, mas quando ele abre a porta de casa, ela já começa a tremer. Os seis anos que fiquei no Maria Felipa passei tentando fazer essa ressignificação na cabeça das policiais e dos policiais militares.

E como nasceu a Ronda? Um amigo meu perguntou se eu já tinha ouvido falar da Patrulha Maria da Penha, do Rio Grande do Sul. Disse que combinava comigo. Fui para lá e aprendi como era. Voltei com a ideia, reunimos um grupo com as mulheres da SPM [Secretaria de Políticas para Mulheres], e fizemos um trabalho durante 2014 pela construção da Ronda. A gente tinha que tecer um termo de cooperação técnica entre a polícia militar e órgãos como o Tribunal de Justiça, o Ministério Público, a Polícia Civil... Briga daqui, briga dali. Um queria que a Ronda atendesse a todas as ocorrências relacionadas à violência doméstica. Mas, graças a Deus, um engenheiro do sistema de telecomunicações da Secretaria de Segurança Pública avisou que não dava para fazer isso. Senão, teriam que ser 14 atendentes para a Ronda e uma para os outros crimes, porque tem dias em Salvador que 70% das ligações para o 190 são relacionadas à violência doméstica. Eu ia adorar ter 70% do efetivo da polícia, mas precisou de um filtro, que foram as medidas protetivas. Mas muitas mulheres ainda não têm a força de procurar a justiça, né?

E como solucionar isso? Gasto mais da minha energia com a prevenção. Gosto muito quando a gente pode aparecer na mídia, porque várias mulheres vão ler, mais delas vão se proteger. Quero que a Ronda não seja necessária. Mas como faço isso? Eu tenho que mudar a mentalidade dos homens e das mulheres. Se eu vou conseguir fazer isso? Não sei, mas estou fazendo. Estava em uma palestra, aí recebi um bilhete em que uma moça falava que eu tinha salvado a vida dela. Veio me contar que estava em uma outra palestra minha, eu falei algo e ela começou a se perceber em um relacionamento abusivo, o que deu coragem para ela romper. Ela me chama de dinda. Ali já valeu, uma pessoazinha que você mudou o posicionamento.

Você tem um trabalho específico durante o Carnaval. É um momento em que a gente deixa de ser especializado na prevenção da violência doméstica e trabalha na violência contra a mulher de uma forma geral. Fico com a minha tropa circulando e conversando com todos os policiais militares que entram em serviço, explicando que é “meu corpo, minhas regras”. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Lembro que trabalhando como tenente, uma menina chegou de top e shortinhos no Carnaval e falou que um cara a estava apalpando. O sargento disse para ela: “Você veio assim, queria o quê?”. Falei: “Sargento, vá lá e traga ele, não é você que tem que julgar”. E o Carnaval em Salvador, minha gente, fica 50 graus lá em baixo. A mulher tem que vestir o quê? Burca? Por que é ela que provoca? Já estou no terceiro ano e neste a gente teve uma devolutiva muito bacana: cinco ocorrências de policiais que disseram que lembraram do que falei e por isso prenderam a pessoa. Não tinha nenhuma antes, isso já é fascinante. Não foram cinco, foram muito mais porque quando você prende um homem que cometeu um ato de violência contra a mulher, você está ensinando aos que estão no entorno que se fizerem também, vão ser presos. A Ronda Maria da Penha tem uma viatura padronizada, com uma faixa lilás. Quando ela passa nos bairros, não está só protegendo aquela mulher, está mandando uma mensagem a todos os outros homens que lá estão de que eles podem ser presos. Existe um simbolismo importante.

Como você descobriu que tinha câncer? Em dezembro de 2014, falei para um médico: “Passe todos os exames que tem aí, vou fazer um check-up, não me poupe, não”. Tinha que fazer e queria gastar o plano de saúde, só isso – olha o caminho que Deus às vezes faz para a gente. No dia 19 de fevereiro de 2015, abro o resultado da biópsia. Aparece um adenocarcinoma de células pouco difusas, bem no meio do meu estômago. Quando joguei no Google, fiquei parada uma eternidade.

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Você tinha algum problema no estômago? Nada. Marquei o médico, o cirurgião, entrei na justiça para conseguir a liminar para poder fazer a cirurgia, porque o plano... No dia 19 de fevereiro, meu tumor tinha 0,7 centímetro; quando fiz a cirurgia em abril, ele já estava com o dobro do tamanho e tinha furado meu estômago. Tirei todo, não tenho estômago. Adoro falar que “eu não tenho estômago para isso”. Acho que se tivesse demorado mais, não estava aqui para contar essa história. O momento mais difícil da minha vida foi contar para o meu filho, lembro como se fosse hoje [Denice se emociona]. Por isso que falo que tudo que faço é para retribuir. A Ronda foi lançada em março e eu não pude ir, estava no processo [de tratamento]. Isso me doeu muito mais, é como você passar nove meses gestando uma criança e ela ser retirada de seus braços.

E como você vive sem estômago? É normal, eu tenho que mastigar mais, como só comida de casa. O médico explicou que com o tempo o intestino faz uma bolsa, que não precisa de estômago. Aí eu tenho que tomar injeção de três em três meses e de mês em mês agora, porque fui relapsa. Morro de medo de injeção, odeio. Tenho que repor ferro, coisas que vão ser para a vida toda. Em 3 de junho de 2015, comecei a quimioterapia. Perdi cabelo, estava muito magra, não comia nada. Sou meio Poliana, acho que a gente tem que fazer o jogo do contente, senão sucumbe. Lembra que te contei que era mandona? Nesse momento, desde o dia que contei para minha irmã, tive que deixar as pessoas cuidarem de mim. Ela diz que o pior dia da vida dela foi quando eu mandei um e-mail com as minhas senhas. Falei: “Cuide de João [filho de Denice], se algo acontecer, a gente não sabe, cirurgia é imprevisível”.

Você acha que esse foi seu grande aprendizado, deixar os outros cuidarem de você? Eu tenho isso como legado, de permitir ser cuidada. Tive a ratificação de que quando você faz o bem, recebe o bem. E também conhecer meus limites. Até 19 de fevereiro de 2015, achava que era eterna, tinha planos e projetos para uma vida sem limites. E Deus falava para mim: “A vida é um sopro, é hoje, é agora”.

Seu marido como reagiu? Curioso, eu estou no terceiro marido. Eu ainda não estava com ele nesse processo de adoecimento, ele ficava o tempo todo me assediando. E aí, quando terminou, ele falou: “E aí? Que dia você vai sair comigo?”. “Não vou sair com você, porque eu estou passando por isso. Estou começando agora o processo quimioterápico, não sei como vou ficar. Então, por favor, pare de me encher o saco.” Ele falou: “Eu cuido de você”. Tinha ido a um centro espírita e falei para ele que ia ligar tal dia, tal hora. Quando ouvi a voz dele, senti tanta força, parecia que já conhecia ele, como um reencontro. Aí a gente começou a namorar. Quando começou o processo de quimioterapia, ele me carregava, limpava meu vômito. Falou que cuidaria de mim, cuidou mesmo, e até hoje cuida. Ele é muito corretinho. Foi mais um anjo que Deus colocou nesse processo. Deixei de ser mandona nessa hora.

Quando você voltou para a Ronda? Estava no segundo ciclo da quimioterapia. A Ronda estava subordinada ao coronel Lázaro e ele me perguntou como estava meu tratamento. Contei que estava começando, de 15 em 15 dias. Em junho de 2015, ele perguntou se eu queria assumir a Ronda e vou lhe dizer que isso salvou a minha vida. Não ficava mais em casa pensando, sofrendo porque não comia, porque meu cabelo caía. Comecei a pegar a força que tinha e ajudar as mulheres. A gente criou muitos projetos nesse período, a Ronda para Homens, o Espelho [jogo de tabuleiro para que mulheres percebam violências que sofrem no dia a dia], consegui nossa sede. Ela foi me ajudando a esquecer e a me reerguer. O corpo pode estar com defeito, mas se você acreditar que isso que vai lhe vitimar, vai acontecer.

Muita gente tem uma imagem negativa da polícia. O que você diria a elas? Falaria que elas têm razão, não vou convencer  ninguém de que, durante o tempo de criação da minha corporação, nós não atuamos de forma misógina, racista e discriminatória. Os números estão aí. Preciso convencer as pessoas é de que a polícia tem olhado para isso e criado ferramentas para tentar alterar essa realidade. Negros e mulheres eram vistos como seres menos importantes. Fiz um mestrado em que discuti a seleção de suspeito, que filtragem racial é essa. O que quero provocar é uma alteração no processo de formação e de capacitação desses policiais para que isso seja técnico, e não um marco cultural. A polícia aprendeu que ela deveria combater, rotular essas pessoas como criminosos potenciais. Então, a gente precisa começar a ter mais dados estatísticos, mais indicadores de atuação.

Como isso funciona? Quando estava pesquisando, pelas ocorrências a que tive acesso, verifiquei, por exemplo, que a grande maioria dos assaltantes a ônibus era branca. A gente precisa ter outros indicadores que levem a filtrar um suspeito, não apenas a questão da pele. Não vou negar para você que durante um momento da minha vida, quando via um jovem negro vindo em minha direção, segurava a minha bolsa com mais força, que isso já me contagiou, que fui condicionada. Sou mãe de um adolescente negro e tenho medo quando ele sai de perto de mim. Não sei como a sociedade e as forças de polícia vão olhar para ele. Então, preciso construir uma corporação que modifique isso, porque eu temo a partir de meu filho, de mim, dos meus.

O que um contingente maior de mulheres na polícia pode agregar? Se você vê um casal de policiais trabalhando, um homem e uma mulher, e precisa de uma informação, vai se dirigir a quem? À mulher, porque vai se sentir mais confortável, mais acolhido. A mulher trouxe isso, suavidade e firmeza. As pessoas olham para a polícia e veem força, não veem inteligência, astúcia, planejamento, técnica. E isso é lugar de mulher, às vezes mais do que homem. Nós dialogamos, conversamos, planejamos, avaliamos as situações, somos mais precavidas. Torço para viver um dia em que não tenhamos limite de acesso da mulher à corporação [na Bahia, apenas 10% das vagas dos concursos anuais são destinados às mulheres]. Para que as pessoas mais capacitadas, aptas e hábeis à profissão entrem, independentemente de gênero. Se as mulheres estão nesse lugar, que elas entrem. Um comandante um dia falou para mim: “Por que você não convence as suas meninas a saírem do administrativo e irem trabalhar na rua?”. Falei: “Por que o senhor não convence os seus meninos a tirarem elas do administrativo e colocarem elas na rua?”. Porque policial militar nenhuma decide que vai trabalhar administrativamente, é o comandante quem a coloca. Quando a mulher está na blitz, fica como selecionadora e não vai fazer a abordagem. E a mulher é muito mais criteriosa nisso, vai olhar o carro com mais atenção, fazer a busca com mais atenção. Então, a coloque na viatura, deixe-a ir trabalhar, e aí você vai ver se ela é capaz ou não. Ano passado, nós conseguimos ter a primeira mulher no curso de Patamo [Companhia de Patrulhamento Tático Móvel], para ações especiais, aqui na Bahia. Ela disse às outras: “A gente pode”. Tenho um orgulho danado.

Você pensa em aposentadoria? Eu tenho 28 anos de serviço, já posso me aposentar, se quiser. Ainda não cogito, mas já tenho um plano. Quero construir uma escola em que as meninas fiquem em período integral, da primeira série até o quinto ano. Acredito que esse momento do desenvolvimento humano é fundamental. Operações básicas de matemática, entendimento básico de português. De dia estuda e à tarde faz outras atividades – dança, capoeira, artesanato, tudo que desenvolva essa criança para um potencial maior. Estou querendo comprar um terreno. Quero ajudar e vou te dizer 0 por quê: a gente tem que retribuir o que o universo nos dá.

Créditos

Imagem principal: Pablo Saborido

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