por Redação

Veja o que rolou no segundo dia de Casa Tpm

O domingo na Casa Tpm começou em grande estilo com um trecho da peça A alma imoral, de Nilton Bonder, interpretada pela atriz Clarice Niskier.

"Existem certezas anteriores à razão e é delas que vamos falar", disse Clarice no início de sua apresentação, que seguiu com uma reflexão sobre a relação entre corpo, alma e moral. O texto é uma adaptação teatral do livro homônimo de Nilton Bonder e aproxima temas como religião e biologia, pensando sobre os conceitos de certo, errado, tradição e transgressão. A mortalidade humana vem representada pela nudez da atriz durante o espetáculo.

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No fim da apresentação, Clarice falou um pouco sobre como tradição, ruptura e desobediência são forças necessárias em nossas vidas e abriu espaço para perguntas da plateia. "A maneira como você canaliza seus opostos e impulsos é o que vai dizer como vai seguir sua vida", respondeu sobre as conclusões que tirou do trabalho.

Em cartaz há 11 anos e assistida por mais de 230 mil pessoas, A alma imoral pode ser vista até 24 de setembro no Teatro Eva Herz, em São Paulo, aos sábados e domingos.

O FUTURO É FEMININO

A apresentadora do dia, Sarah Oliveira, perguntou: o que será esse futuro feminino? Para ajudar na reflexão, ela convidou ao palco a jornalista Milly Lacombe, a geneticista Lygia da Veiga Pereira, a criadora do Plano de Menina Viviane Duarte e a atriz Bianca Comparato. "Olhando para a evolução humana, percebemos que existem diferenças importantes entre homens e mulheres — não somos iguais.

O que precisamos, portanto, é deixar de classificar como inferiores as características femininas", explicou Lygia. Bianca concordou com a geneticista e disse que deseja um futuro em que o que chamamos de feminino seja mais valorizado. "Associamos a delicadeza à fraqueza, por exemplo. Para mim, o que é forte é delicado", completou a atriz.

Pensando sobre como nosso modelo de sociedade também oprime homens, Milly ouviu as risadas da plateia quando disse que o machismo é democrático, fode com todo mundo. Viviane Duarte arrematou: "Os caras precisam estar presentes na discussão, não queremos ajuda para nada, mas queremos construir juntos um futuro que não sobrecarregue nem homens nem mulheres".

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UMA IDÉIA EM CINCO MINUTOS: GABRIELA CARNEIRO

Gabriela Carneiro Duarte, pilota e comandante da Gol Linhas Aéreas Inteligentes, contou um pouco sobre os obstáculos que enfrentou ao longo de sua carreira."Hoje, somos sete comandantes em um universo de 1.500 aviadores. Quando comecei, as mulheres eram menos de 1% da tripulação, hoje, somos quase 2%. Mas ainda é pouco", afirma.

Gabriela explicou que logo que entrou no universo da aviação teve vontade de negar suas particularidades femininas: "Eu achava que, se usasse um vestido no trabalho, não seria respeitada, além do medo do assédio. Eu buscava um jeito masculino de vencer". Hoje, ela encara a situação de outra maneira. "Vejo meninas chegando para pilotar com uma baita unha vermelha e acho lindo, estou buscando incluir minha feminilidade na maneira como desenvolvo meu trabalho", disse.

O JEITO FEMININO DE RESOLVER CONFLITOS

A advogada Carla Boin e a especialista em comunicação não violenta Mônica Azzaritti conversaram com Marcelo Carnevale, da Trip Editora, sobre o feminino na resolução de conflitos.

Mônica trabalha diretamente com policiais militares do Rio de Janeiro e disse que usa sua capacidade de acolhimento para desenvolver nos policias a capacidade de dialogar em ambientes conflituosos. "Me despir dos meus preconceitos e mostrar que eu respeito aqueles homens é um caminho para que eles entendam que é preciso respeitar a população seja onde for", disse ela.

Carla, por sua vez, apresentou alguns conceitos da justiça restaurativa, que trabalha para "dar espaço para a existência e legitimação das pessoas", como explicou, e falou sobre a importância de nos responsabilizarmos por nossas falas e opiniões. "É comum agirmos de forma reativa em algumas situações e transferirmos a potência para os outros".

PRECISAMOS FALAR DE EDUCAÇÃO:
TADEU JUNGLE ENTREVISTA DIVA GUIMARÃES

Revelação da Flip 2017, a professora Diva Guimarães conquistou o carinho da plateia logo na chegada quando disse: "Não esperem muito de mim, não sei fazer palestra, sou simplesmente uma professora loucamente com vontade de educar". Em conversa com o artista multimídia e cineasta Tadeu Jungle, ela se emocionou ao lembrar o período em que viveu com freiras que a levaram de casa, no Paraná, para estudar. "A primeira coisa que fizeram comigo foi raspar minha cabeça porque, como eles falam, negro tem cabelo pixaco e podia ter piolho", contou.

Apesar do preconceito e sofrimento que enfrentou na época, ela disse que a possibilidade de aprender e se alfabetizar foi a coisa mais sensacional que aconteceu em sua vida. "Não tenho como agradecer por tudo que minha mãe guerreira fez para que eu estudasse. Só vai acontecer alguma modificação de atitude se a educação estiver em primeiro plano. Negro não é burro. Ninguém é burro. Mas que oportunidade nos oferecem?", questiona. Em seguida, ela defendeu o sistema de cotas para negros em universidades e disse que quer morrer lutando. "A única coisa que pode salvar qualquer país é a educação. O ódio não leva a lugar nenhum".

No fim do papo, com todo mundo já apaixonado por ela, Diva se levantou para falar do homem que começou a transformar o mundo: Nelson Mandela. Inspirada pela história dele, ela finalizou dizendo: "Negros, índios, não deixem de estudar, não abaixem a cabeça, não acreditem se te disserem que vocês não podem aprender". A plateia aplaudiu de pé. Mas não tinha terminado ainda. Ela ainda mandou: "Quem carrega esse mundo são as mulheres".

POTÊNCIA FEMININA

Mediadas pela jornalista da TV Globo Juliana Moraes, a pilota de automobilismo Bia Figueiredo e a técnica da seleção brasileira de futebol feminino Emily Lima conversaram sobre a potência feminina no esporte. "Sou a primeira mulher a estar na CBF como treinadora. Foi uma quebra de paradigma e espero que abra portas para outras mulheres", disse Emily. Ela contou que em um passado bastante recente, há 30 anos, mulheres eram proibidas de jogar futebol. "O país é muito machista, mas estamos mudando essa história".

Bia, por sua vez, conta que precisou exigir respeito nas pistas de automobilismo no início da carreira. "Eu treinei meu psicológico para não chorar, andava só de cara amarrada", relembra. Ela revelou também que tem vontade de ser mãe e não sabe como essa decisão pode impactar sua profissão."Tenho esse sonho, mas vou ter que descobrir sozinha como vai ser, não tenho referência. Vou tentar adiar ao máximo" , contou.

MULHERES NA MÚSICA

Apresentadora da rádio Eldorado e da TV Cultura, Roberta Martinelli conduziu um papo entre as vocalistas da banda As Bahias e a Cozinha Mineira, Assucena Assucena e Raquel Virgínia, e a cantora Ana Cañas. Raquel reforçou a importancia da inclusão de mulheres negras e trans no espaços de poder dentro da indústria cultural. "Já ouvi de homens que eu precisava me colocar no meu lugar quando tentei saber quais eram as cartas que estavam na mesa", disse. Ela defendeu uma posição combativa para transformar a situação: "Vamos ter que incomodar".

A maneira racista como a música é registrada também foi lembrada por Raquel. "Nossa memória é tão racista que eu tenho medo que a próxima geração não saiba que eu existi", contou. "Os espaços de decisão são ocupados pelos homens e não interessa a eles dividir isso com ninguém", disse Ana Cañas, concordando com Raquel.

Ana contou que se sente desconfortável estando sempre cercada por homens no meio músical, especialmente nas funções mais técnicas. "Com 16 anos fui assediada e isso me fudeu completamente, andar de cabeça erguida na rua foi um grande sacrifício. Eu agredia outros seres humanos por conta dessa dor que carregava, 20 anos depois resolvi encontrar esse cara pra dar meu perdão pra ele porque não queria mais carregar aquilo comigo e isso me libertou", ela revelou.

A CONSTRUÇÃO DO FUTURO FEMININO

Para finalizar o ciclo de debates, a filósofa Djamila Ribeiro lotou a plateia para uma reflexão sobre a construção do futuro feminino. "Ser feminista é pensar um projeto de sociedade, significa que juntas vamos encontrar maneiras de enfrentar as opressões estruturais." O conceito de empoderamento foi outro tópico da fala da filósofa. "Ser empoderada não é ter os privilégios dos homens brancos. É triste ver um conceito tão bonito como esse sendo esvaziado, muitas mulheres acham que ser empoderada é ser CEO de uma empresa, mesmo quando estão oprimindo outras pessoas", disse.

Djamila defendeu também a participação de homens na discussão sobre feminismo. "É preciso ouvir o que as mulheres estão falando. Os caras tem que nos entender como sujeitos e tornar nossas vidas menos difíceis. Se eles acham chato me escutar, imagina viver na minha pele o que eu passo", disse. Ela declarou que mulheres querem existir, mas não querem existir dessa forma violenta que nega o direito a humanidade. "O incômodo é uma ferramenta importantíssima, e espero que as pessoas tenham se incomodado com o que eu falei aqui, e a partir daí vamos refletir", falou.

É SHOW!

Amar e mudar as coisas nos interessa mais! Uma homenagem a Belchior encerra a Casa Tpm 2017 com Ana Cañas, Karina Buhr e Taciana Barros interpretando os clássicos do cantor.

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Imagem principal: Mariana Pekin

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