As camisas de meu sobrinho

por Milly Lacombe
Tpm #104

Milly conta como ela, moribunda, se permitiu voltar à vida pelos pés de Marcelo

Marcelo me chama para ver sua coleção de camisas de times de futebol. Andando devagar, como andam os adultos naqueles dias em que a vida parece não fazer sentido, me apresento para a missão.

- Tem várias do São Paulo - me diz o garoto com a exclamação da criança que entende o sentido da vida em sua totalidade.

- Essas não preciso ver - digo para provocar, andando atrás dele em direção ao quarto. Se ele vai entrar nesse mundo da paixão futebolística, melhor já ir se acostumando com as espezinhações de uma corintiana.

- Mas eu vou mostrar mesmo assim - não há como ganhar debate de um determinado homenzinho de 5 anos.

Ao abrir a gaveta, metodicamente arrumada por minha irmã, o pequeno rapaz começa a sacar dali as peças de estimação. Em segundos, a gaveta vira um completo caos.

Ao constatar a bagunça e lembrar da braveza de minha irmã, digo: - Sua mãe vai te matar.

- Vou arrumar quando acabar de mostrar - responde ele enquanto vai abrindo, uma a uma, como um vendedor empolgado, as camisas sobre a cama.

- Vou dar uma linda do Corinthians para essa coleção - digo enquanto me permito deitar na cama miúda, quase em cima das camisas.

- Eu tô mesmo precisando de um tapetinho no banheiro - diz ele, deixando claro que já entrou com os dois pés no mundo da espezinhação futebolística.

Pela primeira vez no dia, mesmo levemente ofendida, sorrio.

Mal digerido

Enquanto vejo o menino empilhar animadamente as pequenas camisas sobre a cama, lembro que algumas horas antes minhas contas bancárias haviam sido bloqueadas judicialmente pela segunda vez. E, mais do que pelo dinheiro que levaram, bateu a tristeza pela falta de sentido da coisa.

Observando Marcelo exibir sua coleção, a história toda vai voltando, como um prato podre mal digerido.

Em 1994, fiz um favor para um chefe e passei cinco meses como sócia de suas empresas, acreditando, como ele disse na época, que se eu não assinasse aquela papelada o negócio teria que ser encerrado e estaríamos desempregados. Passei cinco meses como sócia, tendo uma cota.

Os anos voaram, pedi demissão, fui morar nos Estados Unidos, soube que ele acabou fechando a empresa e que muitos de meus colegas estavam entrando com processos trabalhistas contra ele. Queriam que eu também movesse uma ação, mas eu estava longe e desisti. Nunca imaginei que, quase 20 anos depois, todos esses processos poderiam cair nas minhas costas.

O tal empresário, sabendo das próprias falcatruas, fugiu e hoje mora em Miami, tendo à sua disposição barcos, noitadas e muito dinheiro no bolso. Mas, como bom cafajeste, nada que possa ser encontrado em seu nome, nem nos dos demais sócios, todos empresários amigos. O que faz com que processos de milhões de reais, fiscais e trabalhistas, continuem a atingir a única pessoa que tinha coisas em seu nome - eu.

Meu advogado explica que a solução seria gastar milhares de dólares em iniciativas de nome complicado, como cartas rogatórias, para encontrar bens no nome do cara fora daqui. Um caminho custoso, especialmente para quem não vive com sobra.

- Olha essa! É a 10. Do Hernanes! Do Hernanes! - diz o garoto, quase aos saltos, com a empolgação de costume e me tirando daquele estado de apoplexia.

Era a última. E, com o fim da exibição das peças, ele de fato começa a guardar tudo de volta na gaveta. Do seu jeito, naturalmente.

- É assim que você vai dobrar? - pergunto vendo que o conceito de dobrar dele era radicalmente diferente do de minha irmã.

- É assim que fica mais bonito - explica, já ensaiando a resposta para a bronca que ele certamente levará mais tarde quando eu, com a benção divina, já estiver na minha casa.

- Vamos descer para jogar bola? Vamos! Vamos! - diz ele fechando a gaveta e reiniciando a rotina de pequenos saltos pelo quarto.

Marcelo é possuído por toda a empolgação do universo. Não basta dizer as palavras, é preciso gritá-las e repeti-las. É a felicidade em forma de garoto.

Felicidade não se explica

Como explicar a ele que a vida é injusta e cruel? Como contar a ele que o ser humano é capaz das atitudes mais sórdidas e baixas? Como revelar a ele que a existência talvez não valha a pena e que não há justiça no mundo?

Digo então a única coisa adequada à ocasião:

- Vamos.

Juntos, descemos de elevador, ele com a bola debaixo de seus bracinhos e a camisa de seu time do coração, como muitas vezes eu desci de elevador durante a minha infância.

Na quadra do condomínio, começamos a chutar a bola de pé em pé e eu senti inveja de meu sobrinho, garoto soberano que estava ali completamente presente, sabedor da profunda beleza da vida que, naquele dia, eu não conseguia enxergar.

Em minutos iniciamos uma rotina de chutes a gol, revezando-nos na função de defender. Suando, não percebi exatamente quando parei de pensar nas contas bloqueadas e no empresário milionário para quem continuo pagando dívidas. Vendo Marcelo comemorar cada gol como se valesse títulos, me entreguei ao momento e, com meu sobrinho, brinquei e gargalhei e me lambuzei de infância.

- Como a senhora explicaria a um menino o que é felicidade? - perguntou o repórter à teóloga alemã Dorothee Sölle. "Não explicaria. Daria uma bola para que ele jogasse."

Naquela tarde de sexta-feira, eu, uma menina de 43 anos, resgatei minha felicidade dos pés de meu sobrinho que, sem saber, me devolveu à vida.

A carioca Milly Lacombe, 43 anos, é jornalista. Seu e-mail: millylacombe@gmail.com

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