por Marcus Preto
Tpm #134

Nem tudo é verdade - Esqueça a diva de cabelo esvoaçante e pose sexy da capa (falsa)

Abriu o papel-celofane que embrulhava a bandeja de isopor trazida do supermercado: 368 gramas de peito de peru defumado. Espetou o canudo na embalagem de água de coco. “Você se importa que eu coma enquanto a gente conversa? Estou de dieta. Fiz um trabalho na Argentina em que eu resolvi que tinha que estar mais gorda. E emendei com as férias. Olha que equação errada! Agora, tenho que voltar ao normal. Meu cabelo também era diferente, estava gigante. Mas cortei pra fazer a personagem de outro filme.”

Sem nenhuma maquiagem no rosto, Alice Braga parece a mulher mais comum do mundo. Uma amiga nossa da faculdade, do trabalho. Bonita, mas comum. Ela gosta de falar. Constrói rapidamente cada frase, sem pausas para pensar. Intercala o jorro verbal com fatias de peru e goladas de água de coco. “É importante ser vaidosa, claro. Na vida pessoal, faço esporte, ioga, tomo cuidado com o corpo. Mas, na hora da profissão, é preciso não se preocupar demais com a imagem. Ou você acaba mudando o que é a personagem baseada num julgamento seu. E daí você se perde. Os melhores atores não julgam o personagem. E não constroem nada pensando se vão aparecer bonitos ou feios para o público. Estão abertos inclusive para se enfear.”

Alice ficou mais gorda para viver, ao lado de Gael García Bernal, o papel central de El ardor, do diretor Pablo Fendrik. Coprodução entre Argentina e Brasil, o filme deve entrar em cartaz só no ano que vem. Antes disso, em 20 de setembro, Elysium estreia nas telas americanas. A ficção científica “com apelo político, que fala realmente da desigualdade social do mundo hoje”, foi dirigida por Neill Blomkamp (o mesmo de Distrito 9), tem Matt Damon e Jodie Foster como protagonistas e é o primeiro trabalho internacional de Wagner Moura.

Tapete vermelho

Única atriz brasileira contemporânea com uma carreira internacional sólida – o currículo inclui produções como Eu sou a lenda, com Will Smith, Cinturão vermelho, de David Mamet, Território restrito, com Harrison Ford, Repo Men, com Jude Law, O ritual, com Anthony Hopkins, entre outros –, Alice já aprendeu a lidar com as mentiras da grande indústria cinematográfica. Segundo ela, quando se chega mais perto de Hollywood, descobre-se que a máquina funciona da mesma maneira que em qualquer outro lugar do mundo. O tipo de relação das pessoas é o mesmo e a maneira como se desenvolvem os projetos, também. A diferença, ela diz, é que Hollywood é gigante. Os filmes correm o mundo inteiro, os atores viram estrelas e milhões de pessoas assistem não apenas aos filmes, mas também às festas, à noite do Oscar. Uma foto de uma atriz em um tapete vermelho gera muito dinheiro.

“Vejo os contratos que as mulheres fecham com marcas de cosméticos. E o vestido que elas usam vira referência. A indústria cria mitos, ‘vai ser a próxima pessoa’, ‘é o corpo ideal’, ‘é a pessoa mais incrível do momento’. A pessoa até pode ser incrível, mas são rótulos que os outros botam nela.” Tapete vermelho, ela diz, é uma loucura: as pessoas vão chiquérrimas pra passar num corredor e tirar a foto que vai ser vendida para o mundo. “Elas saem dali e vão botar jeans e camiseta, mas é a foto que fica. Quando faço tapete vermelho, estou exercendo meu ofício. É uma personagem, não uma garota indo a uma festa.”

A relação com a mídia também traz reflexões sobre a própria imagem. Ela se divertiu com a brincadeira proposta nesta edição, de produzir dois tipos de foto distintos: um no estilo “diva”, aquele que costuma ilustrar revistas mundo afora – maquiagem pesada, produção de moda, cabelo esvoaçante e muitos retoques (diminuir braços, pernas e cintura, alisar a pele, dar volume às madeixas, corrigir mãos e pés e fingir que o caimento da roupa é perfeito são praxe no mercado) – e outro mais natural, rindo de tudo isso, mais fiel à vida como ela é.

Para quem já estampou capas como a da Vanity Fair, pensar sobre o alcance da própria figura – pensar no próprio sucesso, afinal – é uma constante. Alice tem noção de que está mergulhada em uma indústria que vende sonhos, mas não perde o sono pensando se isso é fruto de sorte, estratégia, talento (provavelmente, é uma combinação de tudo isso). “É tudo meio surreal. O que tem de mim nisso é o foco para batalhar e enfrentar a solidão e a incerteza de não saber o próximo passo.” Solidão, ela explica, por ficar longe de casa, passar meses sem família. Sozinha mesmo. “Existe o lado incrível, que é aprender e trocar com alguém que tem outra vida. Mas dá uma solidão de saudade. Perdi quase todos os casamentos das minhas amigas, o nascimento das crianças delas. São perdas, mas também existem ganhos.” Tudo assunto de terapia, que ela faz desde 2009, às vezes por Skype: como está sempre longe de casa e não queria fazer terapia em outra língua, só vê a terapeuta pessoalmente quando está em São Paulo.

"A indústria cria mitos, 'vai ser a próxima pessoa', 'é o corpo ideal', 'é a pessoa mais incrível do mundo'"

De ônibus e metrô

Alice cursava a faculdade de comunicações e artes do corpo, na PUC, em São Paulo, quando os testes para filmes começaram – entre eles, Cidade de Deus, que mudaria sua vida. O filme de Fernando Meirelles a revelou em 2002 não só para o Brasil, mas para o mundo. Por isso, ela o considera um de seus padrinhos – talvez o maior deles. Um documentário, Cidade de Deus – 10 anos depois, está sendo produzido com o intuito de avaliar o legado desse filme na vida de quem participou dele. “Quando eu estava fazendo, sabia que era uma coisa especial, mas não tinha a dimensão do que ia virar. Dali veio tudo. Uma porta se abriu e fui entrando, outra porta se abriu e fui entrando... Fui me deixando levar pelas oportunidades. As portas vão se abrindo e eu vou me jogando.”

"Quando faço tapete vermelho, estou exercendo meu ofício. É uma personagem"

E ela se joga. Acaba de estrear como produtora executiva no projeto multimídia Latitudes, que une cinema, TV e internet. É a história de um casal, vivido por ela e Daniel de Oliveira, contada em oito episódios. As gravações aconteceram principalmente em hotéis no Uruguai, na Argentina, Inglaterra, França, Turquia, em Portugal e no Brasil, em apenas um mês de trabalho. No canal TNT, vão ao ar os episódios entremeados pelas leituras do texto nos ensaios. Na internet, entra a dramaturgia – um episódio por semana. E tudo pode virar um longa depois.

Projetos como esse são o máximo que Alice consegue fazer na televisão por ora. Ela até toparia participar de uma novela, mas as gravações teriam de caber em quatro, no máximo cinco meses. A exposição da TV seria uma revolução pessoal: hoje, Alice é conhecida no mundo todo, mas anda de ônibus e metrô em São Paulo, cidade onde nasceu e que chama de “minha base”, sem ser incomodada – nem sequer reconhecida. “Muito ator gostaria de ter essa liberdade, ir e vir. O Vlad [Vladimir Brichta] contou que, na época de Avenida Brasil, a Adriana Esteves [mulher do ator] não podia nem sair de casa. Nunca tive isso. O que tenho é gente me dizendo que tem orgulho de mim. Pode imaginar como é emocionante ouvir isso de alguém que você nem conhece?”

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