por Thaís Gulin
Tpm #110

A cantora Thaís Gulin reflete sobre a descoberta da música e a criação do segundo disco

Quando eu era criança, tinha o Jackson do Pandeiro tocando no som lá de casa, por causa da minha mãe. Tinha a liberdade do Jackson do Pandeiro pairando, como algo possível. Era o mundo ali. A liberdade à mão, no rádio, e proibida na prática porque eu achava que tinha direito de me mandar para onde me viesse à cabeça e fazer o que fosse. Eu tinha toda a fome e não podia tocar o pandeiro. Não que não houvesse um pandeiro lá em casa. Havia. Mas ele tinha a pele rasgada, não dava pra tocar. E essa era a prisão maior. Ter o pandeiro. Ter o pandeiro ali, rasgado... Eu morria de vontade.

Tinha o Jackson, então eu sabia que aquela situação intensa existia, mas eu morava na rua Recife, 333, e não podia me mandar dali. De qualquer forma não aguentaria lidar com tanta liberdade, como poder ter um pandeiro inteiro, caso ousasse. Tinha também um disco do Vinicius de Moraes com o Tom, o Toquinho e a Miúcha num show ao vivo, no Maracanã! Só descobri que o show era no Canecão no ano passado, quando conheci a Miúcha, falei do disco, do show ao vivo no Maracanã... Ela teve que me dizer a verdade: o show tinha sido no Canecão. Mesmo tendo o veredicto diminuído o público do show em mais de 80 mil pessoas.

O mundo é meu
Essa desmesura é culpa da minha mãe. Passei a adolescência ouvindo Violent Femmes, Weezer, The Doors, Lenny Kravitz, Bad Religion, Bob Marley, Offspring, um monte de hip hop, um monte de música brasileira que tocava no rádio, na TV, mas nada me atraía tanto quanto a música brasileira do jeito que minha mãe me deu. Nada me fazia imaginar a imensidão como aquilo tudo que não podia ser meu. A época, enfim, era fora de mão. Não que pensasse tanto nisso, mas não poder fazer o que todo mundo que existia nos discos fazia me inundou a imaginação. Quando a gente passa um tempo sem poder ser qualquer coisa que quiser, uma liberdade à toa já nos faz flutuar. Minha época estava ali, alcançável, e não poder viver tudo o que queria me deixou, por anos, olhando o pandeiro rasgado. Até que, quando tinha 17 anos, estava na varanda do apartamento e vi minha vizinha, Elisa, chegando com um violão nas costas e agora que a vizinha podia eu também podia!

Aguentar a liberdade é difícil, mas deveria ser proibido parar nos pandeiros rasgados só porque a vida fica mais segura assim.

A liberdade aumenta o mundo, "o inventor aumenta o mundo" e acho que foi o Manoel de Barros quem falou esta última (será que alguém poderia conferir a informação?). Êxtase, exagero, surtos de fantasia, piração, alucinação, simplicidade, amor, coragem, tentação, viagem à Lua. Viagem à Lua! Voos, mergulhar-se... Adoro esta: "Povoar a alma de ilusões". Visão, afiguração, engenho. É tão bonito, tão livre. A música aumenta o mundo, junta o mundo. E te aprisiona.

Canto de amor
Meu segundo disco, ôÔÔôôÔôÔ, veio em algum momento de distração e amor. Algum amor de um tamanho que eu não conhecia. É como se o Rio tivesse mandado uma onda brava que veio e me deu um caixotão. Perdi o caminho de volta. Como nessa época não tinha um compromisso, além de existir, que requeresse máxima atenção e já estava mais que na hora de fazer o segundo disco resolvi ficar vagando meio afogada mesmo e experimentar esse jeito de começar a trabalhar.

Fui a Belém aprender um pouco da música de lá. Também fui a Buenos Aires e fiquei achando que Caminito e Lapa se esbarravam todo o tempo, alegrias exacerbadas, melancolias, o climinha dos fins de noite, os copos quase vazios. Então trouxe isso para dentro também. E quanto ao Rio, que é um mistério, embora afogada fico estrangeira, meio dentro, meio fora. Mas minha mãe nasceu na Vila Isabel.

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