por Lola Benvenutti

’Que possamos ter mais orgasmos, com quem quisermos, sem sermos julgadas na eterna dicotomia de putas ou santas’

Ser puta mudou a minha vida. Pra melhor.

A prostituição fez com eu me conhecesse emocionalmente, fez com que eu aprendesse a dizer não, tornou aquela menina caipira do interior uma mulher e essa mulher compreendeu, enfim, a dor e a delícia de sua própria mãe, que sofria tanto com as escolhas da filha.

Aprendi que é muito difícil tornar-se quem realmente somos. Parimos a nós mesmos, nossa identidade tão fragmentada e cheia de opiniões alheias. Já dizia Riobaldo, do Grande Sertão Veredas, que viver é muito perigoso. Mas é preciso arriscar, é preciso lutar contra essa força que nos obriga a seguir carreiras, ter relacionamentos, dizer sempre sim. É preciso poder escolher.

Eu lutei muito contra a dor que sentia em frustrar meus pais, mas eu precisava viver, eu precisava me encontrar e a prostituição me possibilitou essa vivência, profundamente, e significou, mais do que transar com muitas pessoas, a possibilidade de ser dona do meu corpo e prová-lo como eu quisesse.

Dada essa travessia, esse rito de passagem que foi a prostituição em minha vida, eu considero minha jornada cumprida e parto agora em busca de novas aventuras e novas descobertas, rumo ao mestrado, novo livro, filme e porque não, um grande amor? Afinal, as putas também podem ser amadas.

Hoje, espero, com toda a efusão que minha história causou, que as pessoas e principalmente nós, mulheres, possamos experimentar mais, lançar-nos ao desconhecido, sem ter que seguir padrões pré estabelecidos por quem quer que seja e que possamos ter mais orgasmos, com quem quisermos, sem sermos julgadas na eterna dicotomia de putas ou santas.

*Lola Benvenutti, puta e escritora

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