José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo
Ambientalistas, assassinados no Pará
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A árvore mais bonita da Amazônia é a castanheira, me disseram José e Maria. Alta e elegante, longilínea, copa volumosa e redonda que se abre como um buquê. A casca tem ranhuras fundas e seu caule é um maciço que se levanta diretamente do chão. Foi ali, no pé da Majestade, um gigantesco exemplar da espécie que de tão imponente tem até nome, que José Cláudio e Maria encontraram o amor. Os dois ambientalistas, que chamavam um ao outro de companheiro e companheira, nutriam uma paixão intensa pela floresta e uma imensa admiração pela castanheira. “A gente vive cercado de floresta”, me disse uma vez Maria, na varanda de sua casa. José Cláudio gostava de ficar ao pé da Majestade, contemplando sua beleza: “Aqui eu venho pensar: como é linda a natureza”. Os dois passaram a infância na floresta, mas se conheceram em Marabá. Juntos, decidiram reencontrar um espaço para viver do extrativismo, como seus pais. Conseguiram criar o assentamento agroextrativista Praia Alta Piranheira e ajudaram outras famílias a viver da floresta, que defenderam até o fim da vida. Vida que acabou no dia 24 de maio de 2011, quando foram assassinados por dois pistoleiros. Ao mundo, ficou a mensagem de amor e inspiração: “Além da beleza, a castanheira me dá o fruto todo ano”, dizia José Cláudio. Nessa luta em defesa da floresta, José Cláudio e Maria arrumaram poderosos inimigos. Madeireiros locais passaram a serrar as castanheiras, achacando ou aliciando os assentados. No mercado local, cada imensa árvore dessas valia R$ 100 a R$ 200. Como é ilegal comercializar sua madeira, José Cláudio e Maria fizeram denúncias ao Ibama e ao Ministério Público Federal, que realizaram operações para fechar as serrarias e multar os donos. Foram jurados de morte. Em 2008, um relatório de um grupo de defesa dos direitos humanos incluiu José Cláudio em uma lista de ambientalistas da Amazônia ameaçados de morte. Não foi o bastante para evitar o pior. Mas a violência não beneficiou a ilegalidade. Após a morte do casal, 12 serrarias foram desmontadas em Nova Ipixuna. Suas licenças foram cassadas. Junto a elas estavam os carvoeiros, que destroem a floresta para produzir carvão vegetal, utilizado na produção do ferro-gusa pelas siderúrgicas do Polo Carajás. José Cláudio e Maria denunciavam essa ação ilegal, e o Ibama, em operações, destruía fornos e interceptava caminhões de carvão. Segundo a polícia civil do Pará, no entanto, foi o fazendeiro José Rodrigues Moreira o responsável pelo assassinato do casal. Ele teria comprado ilegalmente dois lotes do assentamento. José e Maria, como sempre fizeram, denunciaram tanto a compra ilegal quanto a violência utilizada para expulsar famílias de suas casas. Moreira, diz a polícia, teria ficado inconformado com a intromissão jurando o casal de morte, que foi consumada, segundo o inquérito, por seu irmão e um comparsa. O sonho de José e Maria terminou logo após uma ponte, dentro do assentamento, com tiros de escopeta. Deixam como legado para todos nós a visão de um mundo em que o homem aprecie a natureza, viva cercado por ela e admire a castanheira, viva, na floresta, não como uma bela tábua em sua casa.
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