Hermano Vianna
Antropólogo, criador do site Overmundo
Por Redação
em 4 de dezembro de 2015
O antropólogo Hermano Vianna é criador e coordenador do site colaborativo Overmundo, que serve de canal de expressão para tornar visível a produção cultural de brasileiros em toda sua diversidade. Sempre com o objetivo de promover as mais diferentes manifestações culturais, Hermano participou da realização de programas de TV como Programa legal, African pop, Além-mar, Brasil legal, Central da periferia e Música do Brasil, pelo qual levou uma indicação ao Emmy. Irmão do músico Herbert Vianna, já foi curador do Carlton Artes, do Percpan e do Tim Festival. Além de ser colaborador da Folha de S.Paulo e da Rede Globo, é autor dos livros Mistério do samba e O mundo do funk carioca.
“Tem gente que acha que para promover a diversidade é preciso manter as tradições separadas e “puras”, pois os contatos e as trocas entre as culturas só poderiam descaracterizá-las. Esse tipo de discurso corre o risco de se tornar oficial no Brasil… É como se a verdade sobre cada cultura já estivesse definida, e assim qualquer mudança seria uma ameça de morte. Por exemplo: colocar sintetizador no samba seria acabar com o samba… Eu penso bem diferente dessa gente: para mim não existe cultura pura ou pureza imutável. Todas as culturas estão em constante transformação, suas verdades estão sempre sendo redefinidas. Bide inventou o surdo das escolas de samba brincando com tonéis de manteiga. Virou tradição. Hélio Oiticica levou Mondrian para a favela e de lá saiu com os parangolés. É preciso então colocar tudo em contato, em rede, abrindo espaço para mais e melhores misturas/mestiçagens. Não há perigo: o Brasil não vai ficar homogêneo. Novas diversidades surgem o tempo todo e onde menos se espera. O Mangue Bit [grafia original do movimento, que depois ficou conhecido como mangue beat], com seu amor pelo hip hop e pelo rock, foi fundamental para fortalecimento dos maracatus rurais considerados de raiz. É assim que tem que ser, o tempo todo, para surpresa geral.
Meu relativismo tem limite. Tenho preconceito contra gente preconceituosa. Por exemplo: gente que ataca o funk carioca sem nunca ter pisado num baile, querendo impor para o mundo um lugar-comum qualquer propagandeado como ‘música de qualidade’. Ou gente que macaqueia a última modinha internacional, se achando superior, achando que o Brasil é o fim e não tem jeito. Ou gente nacionalista que acha que o Brasil deve se isolar do mundo, num reino de raiz faz-de-conta. Ou gente que querendo parecer inteligente fala burrices como “não gosto de televisão”. Tenho nítida e assumida preferência por quem inventa novas possibilidades de alegria no mundo, fazendo o que quer fazer contra todos os preconceitos. Contraditório, eu? Pois é…”
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