por Gabriela Borges

Principal premiação de histórias em quadrinhos do Brasil reforça que é preciso ser homem para ter espaço no setor em território nacional. Até quando?

 

O Troféu HQMIX, a principal premiação brasileira de histórias em quadrinhos, divulgou na semana passada os finalistas da edição deste ano e a quantidade esmagadora de homens indicados levantou, mais uma vez, a discussão sobre o espaço que as mulheres têm no mercado de HQs.

A cartunista Carolina Ito, autora da série Salsicha em Conserva, indicada na categoria "Web Quadrinhos", publicou uma tira que satiriza a lista e fez um levantamento de todos os trabalhos dos finalistas: apenas 13% é de produções feitas exclusivamente por mulheres, enquanto os homens representam 82%; o restante são obras feitas a partir de parcerias entre homens e mulheres ou que não foi possível identificar todos os autores envolvidos. Esse número não inclui também as categorias de trabalhos acadêmicos.

Isso significa, então, que quadrinhos ainda é coisa de homem? É o que parece, mas nem todo mundo concorda. Sonia Luyten, pesquisadora de HQ e cultura pop do Japão, e uma das organizadoras do HQMIX, minimiza a questão. Ela explica que a cada ano varia a porcentagem de mulheres indicadas ao prêmio e acredita que o mundo dos quadrinhos no Brasil sempre foi dos homens. "Talvez isso reflita o mercado nacional, onde há poucas mulheres desenhistas em relação aos homens. Mas elas estão presentes, sim, no mercado dos quadrinhos e humor gráfico. São editoras, letristas, coloristas, animadoras, designer gráficas, designer multimídia", diz. Para Arnaud Vin, diretor executivo da Nemo, uma das principais editoras de quadrinhos do país, a porcentagem de indicadas ao prêmio é diretamente proporcional à quantidade de publicações de artistas mulheres. "A falta de indicações femininas não reflete a falta de talento, mas sim a falta de espaço e de visibilidade da artista mulher. E reflete, também, um público de leitoras ainda em formação". Por outro lado, para Afonso Andrade, coordenador geral do FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, as editoras ainda são machistas. "O equilíbrio da representatividade está longe", diz.

E, de fato, quando o júri da premiação mais importante do país ainda seleciona pouco mais de um décimo de mulheres nas indicações, a questão não está na quantidade de produções femininas existentes hoje e, sim, na invisibilidade desses trabalhos. Para Mariamma Fonseca, criadora do Lady’s Comics, site que fala exclusivamente das mulheres nas HQs, essa gritante diferença não é só percebida nas premiações. "Ela é maior também nas publicações por meio de editoras e nos eventos do gênero. O que está faltando é reconhecer que há uma produção frenética de mulheres se expressando por meio dos quadrinhos na internet e nos zines, e enxergar que o publico de leitoras também aumentou", diz. Já João Varella, fundador da editora Lote 42, acredita que o autor de quadrinhos em si é marginalizado. "O gênero não é reconhecido como uma expressão artística, por mais que tenha um histórico consolidado, com clássicos, críticos e todo o aparato que as grandes áreas da arte têm".

Em tempos de internet, o que mede o sucesso de uma HQ? O número de livros publicados e vendidos? A quantidade de acessos em ou blog, de seguidores no Facebook? Syrlanney Nogueira, autora do livro "Magra de Ruim" e indicada na categoria "Publicação Independente de Autor", acredita que os artistas se tornaram mais livres. "Não preciso passar por nenhum jornal, nem por uma grande editora para ganhar o carimbo: aqui está uma quadrinista! Isso é algo meu, direto com o público. E aí não importa se sou homem, ou mulher ou não-binária; se sou nordestina, sulista, australiana; se tenho 15 ou 50 anos. Os quadrinhos vão ficar lá na nuvem de qualquer jeito".

 

O que se nota é que as mulheres estão produzindo seus trabalhos e alcançando mais facilmente o público interessado neles. Mesmo assim, o grande mercado parece ainda não valorizar tudo isso.

O 1º Encontro Lady’s Comics, por exemplo, que reuniu mais de 200 pessoas em Belo Horizonte no ano passado, ficou de fora do HQMIX. A cartunista Gabriela Masson comentou sobre o fato em um post no grupo "Mulheres em Quadrinhos", no Facebook: "O evento teve uma enorme importância histórica e política pro rolê dos quadrinhos autorais". Gabi, que assina como LoveLove6, é autora da websérie "Garota Siririca", em dois anos ganhou milhares de fãs e virou livro após uma campanha de financiamento coletivo de enorme sucesso no Catarse. E ela também não foi indicada. Assim como o Zine XXX ou a cartunista Fefê Torquato, autora do livro "Gata Garota". Para LoveLove6, existe uma sub-representação muito grande. As mulheres estão fazendo quadrinhos, produzindo eventos, mas "na hora do reconhecimento, dos prêmios, de serem convidadas para uma exposição, para uma palestra, mesa de debate ou entrevista se tornam invisíveis. É uma noção machista de que eles, apenas por serem homens, têm coisas mais relevantes para expressar", diz. Para Sonia Luyten, muitas vezes as cartunistas chocam o público masculino pois não retratam a "mulher" que os homens idealizam.

Outro exemplo de falta de incentivo é a extinção da coluna "Quadrinhas", da Folha de São Paulo. Durante dois anos, às segundas-feiras, cinco cartunistas brasileiras, Luli Penna, Pryscila Vieira, Cynthia B., Chiquinha e Alexandra Moraes, publicaram seus desenhos na página de tiras. Destinar um dia específico às mulheres em vez de publicar seus trabalho naturalmente junto com artistas homens talvez não seja a melhor opção. Mas, extinguir definitivamente um dos poucos espaços em um veículo de massa, que proporcionava alguma visibilidade às mulheres cartunistas, é pior ainda.

Para Carolina Ito, o mercado de HQs está passando por um processo de legitimação e o interesse por produções femininas vem aumentado. Mas, isso ainda está longe de ser sinônimo de reconhecimento no circuito tradicional de produção de quadrinhos no Brasil.

 

Um salve aos 13%

Conheça as mulheres indicadas ao 27º Troféu HQMIX – 2015. A entrega do prêmio será dia 12 de setembro

Sirlanney Nogueira, autora de "Magra de Ruim"

Studio Seasons, pela adaptação "Helena"

Cris Peter, colorista de "Uso das Cores"

Hayley Campbell, autora de "A Arte de Neil Gaiman"

Samanta Flôor, autora de "Click"

Bianca Pinheiro, autora de "Dora" e "Bear"

Revista "As Periquitas", de várias autoras

Germana Vianna, autora de "Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço"

Ana Recalde, autora de "Beladona"

Cátia Ana, autora de "O Diário de Virginia"

Carolina Ito, autora de "Salsicha em Conserva"

Fiona Staples, autora de "Saga"
 

Gabriela Borges é jornalista e mestre em antropologia, especializada em história em quadrinhos. Diretora de conteúdo na Agência Pulso

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