por Fernando Gueiros
Trip #247

Wavegarden: a tecnologia já permite a criação de piscinas de ondas com custo viável e boa qualidade. Utopia dos surfistas ou o fim da magia do esporte?

Madrugada. Despertador. Barulho do mar. Medo. Prazer. Expectativa. Assim começa a peregrinação de um surfista, muito antes de a onda se formar. O ritual é parte dessa utopia. Equipamento. Amigos. Previsão. Incerteza. Estar diante de elementos alheios ao controle do homem é o que alimenta o surfista.

Numa região selvagem, distante do mar, com rios, lagos e florestas, está o parque nacional de Snowdonia, no País de Gales. Ao pé das montanhas, a mais de mil metros de altitude, jovens de wetsuits caminham descalços com pranchas debaixo do braço. Eles estão indo em direção a uma lagoa de 300 por 113 metros, a mais nova atração do parque, chamada Surf Snowdonia. Vão passar dois dias hospedados no parque, em casinhas que recebem até quatro pessoas – é preciso levar travesseiro e saco de dormir. Desde julho esse é o novo destino para surftrips na Europa.

A lagoa conta com o mecanismo desenvolvido pela empresa Wavegarden, especializada em ondas artificiais, e é capaz de formar 120 ondas por hora com até 2 metros cada uma. Uma placa de metal sob a lagoa, chamada wavefoil, desloca massas de água para gerar as ondas e controlar sua altura e velocidade.
A tecnologia foi desenvolvida no País Basco por um grupo liderado pelo engenheiro industrial espanhol Josema Odriozola. Levou dez anos de estudos e testes até a construção da primeira lagoa, em 2010, no vilarejo de Aizarnazábal, a 30 quilômetros de San Sebastián. Diferentemente de Snowdonia, a lagoa basca não é aberta ao público – apenas para convidados e eventos especiais.

“Quando fui registrar a tecnologia fiquei impressionado com a quantidade de patentes que já existiam”, conta Odriozola. “A infinita grandeza do oceano nunca poderá ser reproduzida, mas boas ondas, até um certo tamanho, é outra história.”

Embora as patentes existam, nenhuma ainda resultou num plano de negócio sustentável. Nos Emirados Árabes, por exemplo, o sistema do parque Wadi Adventure – construído pelo filho do sultão em Abu Dhabi – foi desativado no início de 2015 após três anos de operação por causa do alto custo de manutenção. No Japão, a Myiazaki Ocean Dome também fechou as portas por igual motivo. Outros projetos, como o desenvolvido pela Kelly Slater Wave Company, que anunciou em 2012 a criação de uma piscina de ondas em Queensland, Austrália, nem sequer saíram do papel.

Vejo as piscinas de ondas como um impulso para o esporte ganhar força em termos de massa. Vai atrair mais público.

“O custo e a qualidade das ondas estão ligados”, diz o engenheiro industrial. “O nosso objetivo é projetar e construir lagoas que encontrem um equilíbrio entre diversão e negócio rentável. Ondas grandes, além do fato de muitas pessoas não conseguirem surfar, significam mais energia e custo. Também são sinônimos de espaço maior, mais água em movimento e mais tempo de espera entre as ondas. Ou seja, são menos surfistas por hora e uma brecha para o negócio não durar”, explica.

O Wavegarden consome pouca energia em relação às patentes concorrentes. A construção custou cerca de 8 milhões de euros (aproximadamente R$ 31 milhões) e, no caso de Snowdonia, levou um ano para ficar pronta. Cada onda dura cerca de 18 segundos e é possível reunir até 70 pessoas ao mesmo tempo, dependendo do nível – quanto mais avançado, menos pessoas cabem. A hora de diversão custa de 40 a 45 libras (entre R$ 220 e R$ 245). Para quem aguarda sua vez, o espaço tem café e restaurante.
A oferta de ondas ininterruptas e 90% iguais entre si atraiu até atletas da elite do esporte, como os campeões mundiais Mick Fanning e Gabriel Medina e o atual número 1 do ranking, Adriano de Souza, o Mineirinho. Os três já surfaram em wave pools.

“Existe um grande potencial para essas ondas em lugares onde o acesso ao mar não é fácil. É uma nova dimensão no esporte”, acredita Mineirinho, que já surfou tanto no Wavegarden quanto em Abu Dhabi. “A sensação é boa. Achei divertido e sem preocupações como a variação de marés. Gostei mais de Abu Dhabi porque a água era mais quente [risos], mas ainda está longe de ser uma onda dos sonhos. Com a minha mentalidade de surfista profissional não consigo imaginar isso indo muito além. O maior desejo é desafiar ondas perigosas e sair ileso. Isso nunca vai acontecer numa lagoa artificial.”

Em 18 de setembro, Surf Snowdonia receberá seu primeiro desafio: um campeonato que pode abrir novos precedentes para o esporte. “Não tem espera por ondas, não tem calmaria, nem desculpas para o fator sorte”, diz Odriozola. “A disputa é focada na performance dos surfistas.”

Um modelo padronizado de competição de surf em ondas artificiais pode vir a ser uma categoria de surf no futuro. Já é especulada até a criação de um estádio de surf para as Olimpíadas de Tóquio, em 2020 – com direito a ilustrações que viralizaram na internet. Mas o passo dado de fato nesse sentido foi rumo ao mar: o esporte estará nos Jogos Pan-americanos do Peru, em 2019, e acontecerá nas praias de Punta Hermosa. “Acho que no mar é mais interessante porque sem as intempéries do oceano a coisa perde um pouco do desafio”, defende Adriano de Souza. “Imagine uma regata em ambiente de vento controlado pelo homem. Não é o mesmo feeling.”

Odriozola, que teve a ideia por causa do excesso de crowd em sua cidade, San Sebastián, garante que o objetivo de sistemas como o Wavegarden não é melhorar nem recriar a experiência do surf no oceano em lagoa. “Mas se você vive muito longe do mar, em algum lugar onde os dias são muito curtos no inverno, com clima ruim, ondas mexidas e tempestades, onde o outside é superlotado ou sem ondas, uma lagoa de surf como a nossa pode ser uma grande experiência”, sustenta.

Nesta segunda década do século 21 é inevitável o aumento do número de praticantes, da exposição internacional do surf e de avanços em sua tecnologia. Hoje, você pode comprar sua passagem e hospedagem para um surfcamp em Snowdonia e passar alguns dias surfando num ambiente totalmente diferente do oceano. Sem horizonte, mas com montanhas. E esperando a sua hora de cair no mar. “Vejo as piscinas de ondas como um impulso forte para o esporte ganhar força em termos de massa”, diz Mineirinho. “Com certeza, vai atrair mais público.”

Será essa inovação uma promessa, um mal necessário, uma ilusão ou uma grande saída para a massificação do esporte? O dilema está longe da cabeça dos jovens de prancha e wetsuit que respiram o ar gelado de Snowdonia. O cheiro é de mato, o barulho é de corredeira, a água é doce. Eles caminham de pés descalços sobre o píer. A água se movimenta como num golpe e, ao oscilar para cima e para a frente, formando um triângulo, passa lambendo a plataforma de concreto. Hora de fazer o drop e surfar a onda que bate na altura dos ombros. Não há por que se preocupar com vento, maré ou corrente.
Em Snowdonia não há surpresa: amanhã vai ter onda. 

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