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por Fernando Gueiros
Trip #242

Manobras que mais parecem vôos sobre as ondas tem raízes no skate e é um dos principais trunfos da nova geração de brasileiros

Na praia de La Gravière, em Hossegor, na França, em outubro de 2011, o mar estava frio e o tempo fechado. As ondas quebravam na casa de 1,5 metro e Gabriel Medina, então com 17 anos, disputava sua segunda etapa na elite do surf. O brasileiro surpreendeu o mundo e chegou à final, enfrentando o australiano Julian Wilson. Medina dropou uma onda da série, desceu até a base, fez o bottom turn visando o impulso e decolou. No ar, girou com precisão e aterrissou completando a linha da onda. A praia foi ao delírio. Nota 10, título histórico e um apelido: Medina Airlines.

Em março deste ano, na primeira etapa do circuito mundial, em Snapper Rocks, na Austrália, quem esteve diante de Julian Wilson na final foi outro brasileiro, Filipe Toledo, o Filipinho, de 19 anos. Pouco antes de a bateria acabar, o ubatubense pegou uma onda sólida, acertou uma rasgada forte, ganhou velocidade e decolou para acertar um air reverse impecável. O veterano Peter Mel, repórter da World Surf League (antiga ASP), gritou ao microfone: “Inacreditável! Inacreditável! Se a gente está falando sobre atingir um novo patamar, este é o novo patamar!”. Filipe tirou nota 10 e pela nona vez em quatro anos o Brasil levou o título de uma etapa do mundial para casa.

A era do surf progressivo é brasileira.

Os aéreos, que desde os anos 2000 podem decidir etapas do circuito, custaram a ser digeridos. As primeiras aparições foram em ondas pequenas, em movimentos inspirados nos skatistas do final dos anos 1970. A velha guarda resistiu, mas quando a respeitada revista Surfing publicou a manobra na capa de dezembro de 1975 as coisas mudaram. O surfista era o californiano Kevin Reed, que decolava na foto sobre uma prancha monoquilha grande e pesada.

No final dos anos 1980, Christian Fletcher, um californiano tatuado e rebelde, incorporou definitivamente os movimentos do skate ao surf, segurando na borda da prancha enquanto voava, acertando voos cada vez mais altos e longos. No Brasil vimos estilo semelhante em Dadá Figueiredo, que marcou época com suas manobras novas e potentes, pranchas de cores chocantes e estilo radical. 

Fletcher introduziu ao “dialeto surfístico” nomes mastigados por skatistas, como mute air, slob air e stalefish. Ele também foi o responsável por puxar os limites da “geração Momentum”, formada em seguida por surfistas como Rob Machado, Kelly Slater e Shane Dorian, nos anos 1990. Foi aí que o aéreo começou a fazer parte do jogo.

VOO E PROGRESSO

“As manobras aéreas têm sido uma grande arma para os especialistas”, analisa Filipinho. “Elas podem entrar para somar em momentos decisivos”. O movimento foi combustível para os brasileiros ganharem notoriedade nos últimos anos. Australianos e havaianos não têm dúvidas: brasileiros são bons nos aéreos, que só podem ser aplicados com qualidade em ondas pequenas, de até 2 metros – o que não tira os méritos de sua execução difícil e rebuscada.

“Para realizar um aéreo bem dado o mais importante é a leitura da onda. Mas o que manda é a velocidade e o impulso que você dá na prancha”, diz o surfista de Ubatuba. “Sem isso é muito difícil sair algo legal. Para dar certo precisa afundar o pé na rabeta quando está subindo e puxar a prancha para a rotação.”

As pranchas de Filipinho e Medina são bem diferentes das usadas por Kevin Reed no final da década de 1970. Johnny Cabianca, shaper de Medina, diz que uma prancha do atual campeão mundial feita para competição, completa, com quilhas, parafina e deck molhado, pesa aproximadamente 2,6 quilos. “As pranchas para um competidor são mais descartáveis”, explica. “O Gabriel cresceu, está com 80 quilos, então a prancha está com mais carne, mais poliuretano, mais volume do que nos anos anteriores. Ela pode mudar um pouco, com uma litragem diferente dependendo do lugar que ele vai surfar. Uma prancha para Teahupoo [no Taiti] não tem o mesmo peso que uma prancha para Snapper [na Austrália]. Para Teahupoo a prancha pode ter 2,8 quilos ou 2,9 quilos. O peso é maior em ondas com mais pressão. Em ondas menores e com mais performance, como Snapper, costuma ser mais sensível e leve.”

Filipinho, com seus 67 quilos, não vê muita interferência do peso do atleta na hora de voar sobre as ondas. “É bom ser leve, mas não acho um grande diferencial. Basta ver o Jordy Smith [atleta sul-africano de 86 quilos], que é pesado e acerta altos aéreos.”

Do ponto de vista científico, peso não é fator determinante para um aéreo alto e longo. Quanto maior o peso, maior é a força que a prancha aplica sobre a onda. Porém, o alcance do salto, a altura e o tempo de voo dependem apenas da velocidade e do ângulo de lançamento do surfista, explica o físico Claudio Furukawa, do Instituto de Física da USP.  

O mecanismo que possibilita ao surfista atingir boa velocidade e bom ângulo de lançamento é baseado nas leis de Isaac Newton. Segundo Furukawa, um peso maior aumenta a pressão da prancha sobre a água, mas pode ser compensado com uma prancha proporcionalmente maior. 

Por outro lado, quanto maior o peso do surfista, maior será a força necessária para que ele mude a velocidade ou a direção do movimento. A segunda lei de Newton, o princípio fundamental da dinâmica, determina a força aplicada sobre a massa do conjunto surfista-prancha, para que ele possa mudar o movimento e salte. Após o lançamento, a lei da inércia explica a prancha “colada” aos pés. “Quando surfista e prancha são lançados, ambos estão com o mesmo estado de movimento, com as mesmas velocidades e trajetórias”, diz Furukawa.

Depois vem o princípio da ação e reação, que é o que Filipinho descreve na prática: o momento em que o surfista afunda o pé na parte traseira da prancha e é empurrado de volta pela onda – como um pulo. “Se os pés aplicam uma força sobre a prancha, ela aplica uma força de ação sobre a água. Simultaneamente, a água reage e empurra a prancha com uma força de reação de mesma intensidade, mas em sentido contrário”, explica o físico.

Na hora do voo, desprezando as forças de atrito com o ar, o surfista sai do mundo dinâmico e entra no universo da cinemática, que estuda o movimento sem se importar com suas causas. Ou seja: o momento em que o atleta está solto no ar, apenas com a força da gravidade agindo no corpo.

PREPARO FÍSICO

“Um atleta em competição geralmente está contente com a prancha que tem sob os pés”, diz Johnny Cabianca. “E a prancha tem que ser a extensão de seu corpo. Ele precisa estar confortável a ponto de botar a velocidade que quiser. O próprio Charles [padrasto e treinador de Gabriel Medina] me fala: ‘Johnny, ele surfa muito bem com essa prancha, mas não volta em aéreos’. Aí você vê uma outra prancha igual e o Charles fala: ‘Essa daqui ele volta bem’. Qual é o motivo? É o lance do timing, aquele miligrama a mais ou a menos que o pêndulo do corpo dele não aceita, que está desequilibrado para aquele momento.”

As melhores notas dadas a manobras aéreas consideram os voos mais altos, rápidos e com boa projeção. A aterrissagem também é fundamental: o surfista precisa pousar no ponto em que é possível seguir surfando e fazendo outras manobras. Assim é quase certo um high-score – a nota acima de 8. 

Para ter sucesso nos aéreos, o preparo físico se torna cada vez mais importante. “Se você pega um atleta como o Filipinho, de cerca de 65 quilos, e um como o Gabriel, com cerca de 80, os dois voam igual”, diz Cabianca. “Agora, o Gabriel, há uns quatro anos, teve uma lesão no pé quando aterrissou errado numa onda, na Califórnia. Quando você tem 17 anos, o corpo em desenvolvimento, a parte física assimila melhor. Com o crescimento e o aumento de peso, alguma coisa vai dar problema. Vamos ver que surfistas passam dos 80 quilos e se mantêm inteiros dando aéreos.”

Assim como Medina ficou afastado por lesão, o havaiano John John Florence, exímio aerialista, ficou quatro etapas fora do circuito por uma aterrissagem errada. Tudo por causa do peso mal colocado. No mundo do surf progressivo, Newton cobra caro.

*Fernando Gueiros é editor do Red Bulletin, a revista global da Red Bull


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