por Marcelo Rezende
Trip #168

Até que ponto a paranóia de segurança tornou-se maior que a própria violência

É muito raro você ter a chance de caminhar em meio a uma ideia. Mas seus olhos a percebem enquanto você observa a altura dos muros, o material das grades ou nomes que aparecem sobre o concreto, impressos em chapas de alumínio com cores neutras ou em tons esmaecidos, quase desaparecendo: PABX Intelbras, 4utech, Detronix, Simtrack, Multitel, Acloman, Novacell, Osastec, Projemax. Nomes que soam como títulos de videogames, mas são empresas no ramo da segurança, integrantes de um negócio que envolve tecnologia, dados estatísticos, paranoia, oportunidade, homens (são 600 mil vigilantes privados no Brasil, entre oficiais e clandestinos) e muito dinheiro: no ano passado, os lucros foram de R$ 15 bilhões. Mas essa não é a mais interessante peça da ideia. É apenas o sintoma, não a doença. A ideia está interessada em outra questão. O que significa viver, morar e se proteger sob essas circunstâncias de medo permanente? E, talvez a pergunta mais necessária, medo de quem ou do quê?

A ideia é do arquiteto e teórico alemão Nikolaus Hirsch: a arquitetura se tornou o “control freak” do campo da arte, preocupando-se de modo obsessivo apenas com controle, segurança ou autoridade. Um dos grandes pensadores do papel da arquitetura hoje, Hirsch acredita que os arquitetos devem voltar a ter ambição de artistas e parar de se dedicar à construção sem fim de fronteiras. “Quando se fala sobre fronteira, ela deve ser entendida como algo físico. Cada construção cria fronteiras específicas. Parede, chão e teto agem como limites materiais separando o sistema interno do ‘teatro’ do ambiente. São responsáveis pelo controle ambiental; isto é, proteger e guardar.” Uma casa impossível de ser vista na rua, um edifício cercado de fios de alta tensão, a altura de uma grade, a presença de uma câmera, essa é a paisagem dos grandes centros brasileiros, mas não só. É a personificação da ideia de Hirsch. Ou sua perversão. E é o cenário de qualquer local do mundo em que as coisas tiveram que piorar muito até começar a melhorar – ou que ainda esperam uma melhora notável.

Medievalização das cidades
Os conceitos “proteger” e “guardar” estão na base da ideia de morar, de se abrigar sob um teto. Essas palavras se tornaram uma espécie de lema, um mandamento quase militar sobre de que modo ocupar e se organizar em uma grande cidade nas três últimas décadas. Para arquitetos e urbanistas, a “arquitetura do medo” é um campo de estudo: trata-se de pesquisar de que maneira uma comunidade se comporta, que soluções encontra diante de situações extremadas de violência, tais como ocupações militares e guerras civis. Mas a expressão “arquitetura do medo” tem também sido usada para explicar certos movimentos nas cidades de alta densidade populacional. São Paulo e Rio de Janeiro, para os brasileiros, são os grandes exemplos.

A arquitetura do medo aparece tanto nas zonas mais ricas quanto nas mais pobres, está presente em moradias ou em imóveis comerciais. Vigilância constante e separação da rua são os mandamentos. Há muito de tecnologia e organização (as grades nas janelas com um floreio, um enfeite, se parecem com objetos de decoração), mas também a mais assumida gambiarra. Você pode comprar uma câmera de segurança vazia, sem nada dentro, apenas a casca, e instalar em sua casa. É mais barato, e os ladrões jamais saberão que se trata de uma maquete. Ou, se tudo isso estiver mesmo preocupando você e a intenção é investir, é possível construir um bunker em seu lar. Ele pode ser feito embaixo de casas e é equipado com comida e remédios, mantém uma família de quatro pessoas por 30 dias, deixando-as independentes do contato externo. No Brasil, 110 famílias já construíram bunkers em seus lares. São Paulo concentra a maioria dos casos. O preço vai de R$ 100 mil a R$ 2 milhões.

A arquitetura se tornou o “maníaco por controle” do campo da arte, preocupando-se de modo obsessivo apenas com a segurança

“Estamos em um contexto social deformado”, diz Sônia Ferraz, arquiteta e professora na Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. “Mas não se trata de um acontecimento nacional, e sim internacional. É interessante. No interior brasileiro, os muros altos, câmeras e arames farpados são símbolos de uma cidade grande, são símbolos de crescimento”, diz ela. Sônia tem feito da “arquitetura da violência” um tema de pesquisa desde o ano 2000. Ela e sua equipe fotografaram cerca de mil residências e edifícios em Ipanema, Lagoa, Jardim Botânico, Leblon e Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e em Moema, Jardins, Morumbi e Alto da Boa Vista, em São Paulo. Encontrou nessas imagens uma série de casos e um intenso processo de medievalização. A palavra se refere ao retorno de sistemas de proteção originados na Idade Média. Um período da história no qual o combate físico era uma experiência cotidiana. Sônia descobriu, disfarçadas ou evidentes, muralhas, torres de vigia, fossos, portões duplos, trincheiras e guaritas.

Quando começa a se expandir essa arquitetura do medo? Ela tem uma história?

Ela começa a ser percebida a partir da década de 90. Estudamos folhetos de propaganda de lançamentos imobiliários, e antes disso os sistemas de segurança não estavam incorporados aos projetos. Depois, tudo mudou. Assim surgem várias arquiteturas. Arquitetura de proteção, arquitetura da violência e arquitetura de mendigo – que é você planejar os obstáculos para que os mendigos não encontrem lugares para ficar nas estruturas das moradias ou perto delas.

Arquitetura do medo não significa apenas esses mecanismos evidentes de proteção citados por Sônia. Faz parte dele também o aumento de espaços fechados, centros comerciais isolados, climatizados e afastados do som, do aroma, do “teatro do ambiente”. O mexicano Ricardo Legorreta, um nome histórico para a arquitetura, ao visitar São Paulo e Rio no ano passado, vendo tantos shopping centers, perguntou se os brasileiros tinham medo do contato do sol e da chuva, do calor e do vento, dos elementos da natureza. Legorreta acertou pelo menos 50% da questão. Os brasileiros têm medo, isso é inegável.

Você pode comprar uma câmera de segurança vazia, só a casca, ou construir um bunker embaixo de casa por até R$ 2 milhões

Pavor dos números
Se existe o lado tão visível da arquitetura do medo, no extremo oposto há um outro e igualmente determinante elemento, mas sua particularidade está no fato de ser invisível, incontrolável e extremamente resistente, tão potente quanto a violência: o medo da violência. Segundo dados do Ministério da Justiça, os homicídios por arma de fogo têm diminuído no Brasil desde 2004. Naquele ano, foram 48.374 vítimas. Em 2006, 46.660. Essa redução parece mínima, os números são altos ainda. Mas, se olhados dentro do contexto, ganham um significado maior. De 1996 a 2003, os assassinatos foram de 38.888 para 51.043. A data do início desse processo é a mesma dada pela professora Sônia Ferraz, quando começa a ser percebido o aparecimento de sistemas de segurança como parte obrigatória dos condomínios em construção. Os fossos e as grades em forma de garfos gigantes não demoraram muito a chegar. Foram sete anos (como uma praga bíblica) em que brasileiros se acostumaram a ver todos os dias situações de descontrole, a TV sendo a janela dessa atmosfera. São Paulo e Rio ganharam o tom e o ritmo de cidades saídas de graphic novels, mas sem poder contar com um herói capaz de restabelecer a ordem. Agora, com os números recuando, é possível esperar por um desmonte das fortalezas para que o muro baixo e o portão de madeira – pintado de verde ou azul – possam ocupar o centro da vida urbana, certo? Completamente errado. Esse é um século todo novo, afinal, e cheio de surpresas.

Há o teto, e com ele existe a separação, o limite, a fronteira. E, se a coisa funciona assim em uma moradia sobre um terreno, pode operar do mesmo modo na paisagem mental do proprietário dessa mesma casa. Os dados podem indicar que o Brasil caminha para uma vida urbana no mínimo menos apocalíptica, mas a percepção dessa situação se mostra lenta, em alguns momentos parece ser mesmo uma invenção incapaz de convencer o público. Seria possível afirmar ser mais seguro andar nas ruas hoje do que há quatro anos? Tecnicamente, sim, mas o problema é que isso não faz alguém se sentir mais protegido. Nesse caso, a percepção é muito maior do que o fato.

“Você não reduz o medo da violência apenas com retração dos números, o quadro não é tão simples assim de ser lido”, diz Theo Dias. Advogado criminalista e professor da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, Dias estuda questões ligadas à segurança pública. “Tivemos uma degradação do espaço público, e esse medo da violência termina sendo o catalisador de outros medos. O medo do crime pode ser o indicativo de outras situações de insegurança, como o temor de mudanças sociais e econômicas. Por isso o medo do crime deve ser tão combatido quanto o próprio crime.” Um caso exemplar desse processo de catalisação dos medos é a situação dos países europeus, em que a sociedade reage contra a imigração e os imigrantes, pouco importa se os censos demonstrem não serem eles responsáveis pelo aumento do desemprego. Para os brasileiros, o fantasma é outro.

Na arquitetura da violência, a equação se torna ainda mais complicada porque ela não é baseada em uma fantasia, mas em números que evidenciam não ser a sociedade brasileira uma das mais calmas sobre a Terra. Seus problemas sociais cobram um preço, todos os elos da cadeia terminam pagando um. E isso gera um sentimento difuso, um pânico capaz de produzir uma resposta desproporcional ao ataque. Theo Dias acredita que se debruçar sobre os efeitos é tão importante quanto se voltar para as causas.

A arquitetura do medo aparece tanto nas zonas ricas quanto nas pobres, em moradias ou em comércios

 

De que maneira é possível combater o medo do crime tanto quanto o próprio crime?

É preciso reconstruir o imaginário da cidade, procurar descobrir o que esse sentimento pode estar querendo dizer, o que está representando. Se você sair nas ruas e perguntar para as pessoas se elas se sentem mais inseguras agora, elas dirão que sim, mesmo que os números da criminalidade tenham diminuído. O medo do crime não é menos grave do que o crime.

São os fenômenos de catalisação em pleno funcionamento, certo?

Sim, por isso o medo do crime deve ser assumido, e essa é uma tendência que vem crescendo entre aqueles que estudam o problema. Se as pessoas sentem esse medo, é porque alguma agressão está acontecendo, seja ela política, econômica, urbanística; e assim essa sensação de ameaça permanece.

Andar pelas ruas pode representar um extenso passeio por idéias, dados, teorias, práticas selvagens em ação. Mas é ainda a chance de encontrar alguns sinais de otimismo, mostrando ser possível manter a cabeça para fora de um mar de previsões catastróficas para a vida brasileira. Isso pode não fazer a sociedade mais segura (ou minimamente mais justa), mas deixa perceber uma pequena fresta, fazendo passar o ar e a luz onde antes havia um muro fechado, sem nenhuma abertura, e com vigilância 24 horas.

* Marcelo Rezende é autor do romance Arno Schmidt (Planeta, 2005) e do ensaio Ciência do sonho – A imaginação sem fim do diretor Michel Gondry (Alameda, 2005). Curador da exposição “Estado de exceção” (Paço das Artes, 2008) e co-curador do projeto Comunismo da forma (Galeria Vermelho, São Paulo, 2007) e da mostra “À la Chinoise” (Microwave International New Media Arts Festival, Hong Kong, 2007).


O medo vai ao museu

O relacionamento entre arquitetura e arte contemporânea tem se intensificado na última década. Diferentes artistas vêm fazendo da história e do pensamento arquitetônico uma ferramenta em seus trabalhos, enquanto arquitetos devolvem a gentileza exibindo obras em museus ou bienais. Nessa atmosfera, alguns criadores se voltaram exatamente para o medo que um ambiente é capaz de provocar naquele que o visita, enquanto outros fazem pesquisas sobre de que modo a imaginação se comporta diante da necessidade de segurança e vigilância.

No primeiro caso está o alemão Gregor Schneider, que constrói quartos, salas ou corredores que não parecem ter nada de absolutamente anormal. Mas são capazes de provocar uma sensação de que algo muito errado aconteceu ou acontecerá lá. Um de seus conhecidos trabalhos foi em Bondi Beach, na Austrália, no ano passado. Ele colocou sobre a areia de uma praia 21 celas, medindo 4 x 4 m, construídas como uma típica cerca australiana e contendo todos os objetos obrigatórios da cultura das praias. Outro caso é o do espanhol Santiago Sierra. Uma de suas ações foi o projeto “Os adultos”, uma instalação baseada nos serviços da empresa de segurança inglesa Compound Security, que instalou em shoppings equipamentos para gerar um incômodo ruído que pode ser ouvido apenas por pessoas abaixo dos 25 anos. É uma maneira de afastar gangues de jovens dos locais de consumo. Sierra usou equipamentos semelhantes em uma exposição no Chile, em 2007, querendo provocar o público com o tal barulho.

No Brasil, o paulistano Rodrigo Matheus criou uma empresa de segurança fictícia, a Centurium. Para ela, desenvolveu uma linguagem visual (propagandas nas fotos acima) e realizou uma instalação na qual o espaço do museu (no caso, o Museu da Pampulha, em Minas Gerais, em 2004) se convertia em um lugar de pleno controle, com câmeras e outros objetos de manutenção da ordem. Como em uma casa perto de você. Ou seu próprio lar. (MR)

Enquanto isso na periferia

Trip visitou os extremos geográficos de São Paulo para ver se a arquitetura do medo chegou a uma região que já teve ar de interior
Por Caio Ferretti Fotos João Wainer

Logo nos primeiros minutos circulando pelas ruas do Grajaú, na periferia da zona sul de São Paulo, ficou claro que um conceito antigo estava se alterando. Espremidos lado a lado, portões e janelas gradeados, aliados a lanças e arames farpados, redesenhavam o espaço urbano da região, colocando em xeque a teoria de que na periferia ainda existem pessoas vivendo com hábitos interioranos, desprotegidas de fortificações. As impressões de repórter e fotógrafo eram uma só: as grades dominaram todas as construções. Mas a paisagem metálica do Grajaú, bairro com maior concentração de pessoas vivendo em favelas na capital paulista, segundo o censo IBGE de 2000, é simplesmente o exemplo da nova organização da periferia de São Paulo. As portas estão fechadas.

“Acho que virou uma questão de hábito, um costume”, palpita a líder comunitária Maria Inês de Oliveira Santiago (foto na pág. ao lado), 45, moradora do Grajaú desde o início da década de 80. “Se você for a uma loja de material de construção, vai ver que as janelas já são fabricadas com grade. Já percebeu isso?” Uma cultura que não agrada em nada Maria Inês. Apesar de viver de aluguel em uma casa intensamente fechada, por diversas vezes ela diz que sonha morar em uma casa “igual às do Canadá”, sem portões de ferro, assim como as que vê nos livros. Mas acha que isso não é mais possível na periferia. “Não tem mais isso de tranqüilidade interiorana”, diz. “Antigamente, entre um vizinho e outro, os muros eram baixos. A gente tinha acesso um ao outro para bater um papo. Hoje, isso não existe, o pessoal se fechou.”

Há quem lucre com essa situação – e não são apenas as serralherias. Há 18 anos o caseiro Antônio Pinheiro de Souza faz bicos como pintor de casas na região do Grajaú. Mas o que realmente tem consumido seu tempo é uma nova modalidade de bico: a de manutenção e pintura das grades de ferro que fecham as casas. “É um bico criado pela violência, porque antes não tinha tanta grade. Aumentou o serviço e aumentou também o meu ganho”, diz ele enquanto termina de lixar um enorme portão, apressado para ir fazer o mesmo serviço em outra residência. “Há uns 15 anos dava a impressão de que a gente vivia no interior. Mas a criminalidade aumentou demais, e o povo se fechou em grades, como dá para o senhor notar”, completa Antônio, apontando para as outras casas da rua, entre elas a de Maria Inês. Uma situação que faz o caseiro pensar na abertura de uma firma e na contratação de ajudantes para dar conta do número de pedidos.

Segurança interna
A verdade é que apenas os barracos erguidos com tábuas de madeira, cada vez mais substituídos pelas casas de alvenaria, parecem escapar do modelo gradeado das construções na periferia. Ainda assim, não é difícil encontrar barracos fechados com correntes e cadeados. Uma imagem que nos faz questionar a tese de que o tráfico garante a segurança dentro da comunidade. Mas isso ainda pode ocorrer em cantos mais isolados da cidade, com difícil acesso para carros, onde os braços do poder público mal conseguem alcançar. “A comunidade procura viver de bem com todos. Não acontecem mais assaltos por aqui”, diz Zailde Santos, moradora do Jardim Monte Verde, também no Grajaú. “Se acontecer, já sabe que depois vai ter que prestar contas, vai ter que devolver”, sentencia. Nas ruas sem asfalto do bairro, que fica à beira da represa Billings e mal aparece no guia da cidade, Zailde (foto na pág. ao lado) acredita ser possível viver sem se fechar em grades. “Quanto à segurança, de entrarem na sua casa, não tem problema. A menos que você tenha algum problema com eles”, conclui.

Quando questionados se é mais seguro viver na periferia ou nos bairros nobres de São Paulo, os moradores – escondidos entre grades ou não – são unânimes em escolher suas casas. Faz sentido. No ano passado foram contabilizados pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo cerca de 4,3 mil roubos e furtos no Grajaú. Nos Jardins, bairro nobre, foram cerca de 14,4 mil. “Não tem por que roubar aqui. Não tem carro de marca, não tem jóia, não tem nada”, diz Zailde. Uma matemática que faz sentido, mas que nas contas da líder comunitária Maria Inês nem sempre tem um resultado exato. “Algumas pessoas não se fecham porque não têm nada para ser roubado. São pessoas que mal têm um fogão. E mesmo assim alguns se trancam com medo de que levem o botijão de gás. Eles têm uma única coisa de valor. Mas já é o suficiente.”


Sob o signo do medo

Já sabemos de cor as lições básicas para passarmos de uma cidade do temor para uma do prazer. Ou nós as colocamos em prática ou continuaremos viajando para ver a bela cidade que os outros fizeram Por Ciro Pirondi*

“Se tudo é humano, então tudo é perigoso”
E. Viveiros

Na arquitetura os elementos de passagem são fundamentais. A janela é a passagem do olhar e da imaginação. A porta é a passagem física, corporal. Uma contempla as possibilidades da imaginação, do horizonte, a outra é seletiva pela sua natureza.

Vivemos em espaço de passagem: uma via, uma calçada são caminhos horizontais, um elevador e uma escada verticalizam nosso caminhar, espaços dinâmicos que nos incitam o percurso, a idéia de tempo e liberdade. Quando a arquitetura perde esses sentidos, fica carente de seu maior atributo.

As cidades contemporâneas, instaladas sob o signo do medo, são imensas massas construídas com quase nenhuma arquitetura. Gradeamos praças, nos isolamos em muros altíssimos em nossas casas e trancamos nosso olhar em janelas que não se abrem para o vento.

Qualquer possibilidade de “espaços vazios” é prontamente negada, quando deveria ser o mais desejado. Amputamos assim qualquer possibilidade de encontro e convivência livre.

Nossos espaços são vigiados eletrônica e fisicamente. Público e privado confundem-se, e a cidade, no entanto, considera-se moderna.

A cidade é um artefato das civilizações. Foi construída pela vontade humana de viver coletivamente. Sua origem remonta o instinto primário de união, convívio e troca.

Isolá-la em aeroportos vigiados, carros blindados, condomínios fechados é asfixiar seu mito de origem. Seu DNA é composto dos genes da liberdade do encontro.

Muros inúteis
A violência urbana tem sua origem na miséria. Não serão muros, repressão ou grades que a solucionarão. Isso apenas acirrará a exclusão. É necessária uma ação educativa transversal, capaz de olhar com generosidade nossas calçadas e ruas e perceber o que está acontecendo.

Inicia-se a construção de um pensamento ecológico-ambiental sobre as cidades. Percebemos que estamos em uma rota de colisão, uma certa guerrilha urbana capaz de inviabilizar sua existência.
Novos desígnios são necessários. Governantes não são gerentes das cidades, governantes devem governar democraticamente, esta é uma dimensão muito maior que a simples gerência. Precisam ser cada vez mais incitados a tomar conta de suas ações e de seus projetos.

Não há motivo para desacreditarmos das cidades e, idilicamente, pensarmos numa volta ao campo. É possível e desejado recuperar os erros cometidos, deixar os rios limpos e livres para o seu curso natural, usá-los como vias de transporte e lazer. Construir mais áreas verdes para o encontro e a contemplação. Ampliar o transporte coletivo.

A lição básica necessária para passarmos de uma cidade do medo para uma cidade de prazer e beleza nós sabemos de cor: basta fazê-la ou continuaremos viajando para ver a bela cidade que os outros fizeram.

* Ciro Pirondi, arquiteto, é diretor da Escola da Cidade – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, em São Paulo

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