por Guilherme Henrique

Trocamos uma ideia com Manoel Barenbein, o produtor por trás do disco-manifesto do movimento tropicalista e tantos outros clássicos da MPB

Basta olhar a ficha técnica dos principais discos da MPB nas décadas de 60 e 70 para perceber que Manoel Barenbein exerceu um papel central na indústria fonográfica nacional. “Berimbau”, apelido dado por Chico Buarque, é só uma das nomenclaturas utilizadas para denominar o produtor que participou das gravações de artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, Gal Costa, entre muitos outros.

Vivendo em Israel desde o início do ano, Manoel Barenbein se emociona ao receber a ligação da Trip. “Minha vida está uma bagunça. Preciso falar de outras coisas para distrair um pouco”, confessa. Aos 75 anos, ele abandonou o Brasil para ficar perto dos filhos e dos netos. Relembrar o álbum Tropicália ou Panis et Circenses, que completou 50 anos em 2018, é uma forma de aproximar o antigo produtor da melhor fase de sua carreira no meio musical.

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Distante dos grandes projetos desde os anos 80, Barenbein se orgulha quando enumera os feitos da vida profissional. “Trabalhei no Dois na Bossa, programa de Elis Regina e Jair Rodrigues na TV Record, fui operador de áudio, carregador de cabo, produtor, chefe de divulgação, assistente de direção. Fiz de tudo no ramo”, lembra. Na Phillips (atual Universal Music), ele recorda o estilo de seus antigos diretores: Alan Trosseaut era um francês “culto e politizado”; André Midani, um sujeito “organizado e criativo, que soube organizar uma horta que dava de tudo, desde banana a chuchu”, diz. 

Para além de Caetano, Gil e Tom Zé, Tropicália ou Panis Et Circences é composto pelos arranjos de Rogério Duprat, as letras imagéticas de Capinam e Torquato Neto, a voz doce de Gal Costa e as guitarras d’Os Mutantes. A mistura, característica do movimento de contracultura surgido no bojo da ditadura militar, ainda é fonte de inspiração para músicos da atualidade, garante Barenbein. “As pessoas ainda buscam no manancial que é a Tropicália, que é Gil, Caetano Veloso, os Mutantes, informações e água para beber. Isso não morre”, acredita.

Para além do envolvimento com os Tropicalistas, Barenbein também produziu Erasmo Carlos,  Zimbo Trio e Chico Buarque. O estilo exigente do produtor aparece na biografia de Chico Buarque, Para seguir minha jornada, escrita pela jornalista Regina Zappa. “Chico foi procurado pela PolyGram brasileira com a proposta de gravar um disco. Para isso, recebeu um adiantamento que salvou a pátria e aguentou a presença de seu produtor, Manoel Barenbein, sentado na sala do apartamento em Roma, enquanto ele compunha a toque de caixa”, conta o livro ao recordar a feitura do LP Chico Buarque Nº 4. Questionado sobre ocorrido, Barenbein, rindo, confirma: “Eu tinha liberdade para chegar nele e dizer 'pô, Chico, termina isso aí vai', porque sabia que não estava perturbando ele”, lembra, entre outros casos que você confere na entrevista a seguir.

Trip. Panis et Circenses é o único disco conjunto do movimento Tropicalista. Como era o ambiente no estúdio de gravação, entre os artistas?
Manoel Barenbein. 
Todos nós estávamos emocionados e entusiasmados com aquilo que estava acontecendo. A gente sentiu, antes mesmo de ir para o estúdio gravar, que estávamos fazendo alguma coisa diferente do que existia, diferente do que ocorria na música popular brasileira. Também não havia muito risco naquela invenção. Se desse errado, estava tudo bem. Havia muita confiança no que fazíamos, desde Caetano, Gil, Os Mutantes, Gal, Tom Zé, Torquato, até o Guilherme Araújo, que era a cabeça pensante no processo estrutural e empresarial do grupo.

Você citou algumas pessoas, mas outras, como Capinam, Nara Leão, Rogério Duprat, também contribuíram muito para o disco e talvez não tenham ficado na memória do público com a mesma força. Tecnicamente falando, estavam todos no mesmo nível? Posso dizer como produtor do disco e também como a pessoa que estava olhando para tudo ao mesmo tempo. Naquele momento, todos estavam iguais, contribuindo em momentos diferentes, com ideias, criação, mas todos no mesmo nível. E não estou falando só dos artistas principais: cito os músicos. As pessoas que tocaram ali, gravaram, receberam seu cachê e foram embora, sem saber o que aquilo iria se tornar. Cinquenta anos depois, nós estamos discutindo um trabalho de criação que envolveu um grupo de pessoas, e que é eterno.

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É possível recordar como foi a recepção da imprensa daquele disco, com outra sonoridade, feito de maneira coletiva? Foi um disco que criou uma polemica muito grande. Quando você cria uma polêmica, obriga as pessoas a procurar por que essa polêmica aconteceu. O que não pode deixar de ser levado em consideração é que a música brasileira vinha de final dos anos 40, 50, dentro do processo do romantismo, samba-canção, bolero, um pouco jazzístico, puxando para o Dick Farney no começo dos anos 60, para depois cair na Bossa Nova, tudo dentro de um contexto “tupiniquim”. O que isso significa? “Isso aqui é sagrado, não mexe com isso.”

A recepção no meio musical foi mais conflituosa? Para mim, era muito importante mexer naquilo que estava estagnado, mesmo com a amizade que eu tinha com o pessoal da Bossa Nova. Quando o Caetano mostrou “Alegria, alegria” e disse que gostaria de fazer a música com os Beat Boys, eu caí para trás. Era o que eu queria, o meu sonho. Quando o Gil chegou na casa do Julio Medaglia e mostrou “Domingo no parque”, e ele fala de guitarra elétrica, também estava realizando meu sonho. Tudo isso funcionou como um apelo que todos nós tínhamos. Era uma época de efervescência e a criatividade era tudo que nós tínhamos na mão. Estou com 75 anos e espero comemorar os aniversários desse disco muitas vezes.

É possível encontrar fragmentos desse disco, e do movimento em si, na atual MPB? Não falaríamos desse álbum se ele não estivesse presente de maneira tão significativa na nossa música. Se você observar, tudo que nasceu com a Tropicália foi repercutindo no decorrer dos anos. As pessoas ainda buscam no manancial que é a Tropicália, que é Gil, Caetano Veloso, Os Mutantes, informações e água para beber. Isso não morre. Cada um encontra nesse movimento aquilo que te agrada mais, e música é isso.

Queria aproveitar a conversa para falar sobre o Chico Buarque e uma passagem que consta na biografia dele. No disco gravado na Itália, há um momento que você está na casa dele, esperando as músicas para poder voltar ao Brasil. Como foi isso? Foram duas músicas: “Rosa dos ventos” e “Essa moça tá diferente”. Como produtor musical, convivi com as duas faces da mesma moeda: era responsável por dar tranquilidade e tempo para todos da equipe, mas também era administrador desse tempo. Esse processo de ficar ali, enchendo o saco do Chico, foi algo da função. Eu tive a sorte de ter uma relação de camaradagem com essas pessoas, todos com a mesma idade, vivendo a mesma fase de vida. Eu tinha liberdade para chegar nele e dizer “pô, Chico, termina isso aí vai”, porque sabia que não estava perturbando ele. Sempre houve uma confiança total no trabalho de todos nós.

Créditos

Imagem principal: Hélvio Romero/Estadão Conteúdo

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