por Millos Kaiser
Trip #204

Depois de anos sofrendo com rejeição e o duplo preconceito, os ursos encontraram sua turma

Depois de anos sofrendo com a rejeição e o duplo preconceito – por serem gays e estarem acima do peso –, eles encontraram sua turma: os chamados ursos, o grupo mais próspero, e cada vez mais orgulhoso, do movimento LGBT hoje

Quando chegou a São Paulo vindo do interior e começou a frequentar baladas gays, Guilherme Camargo sempre voltava para casa chorando. “Ninguém me queria”, ele resume. O motivo da rejeição era seu tipo físico: acima do peso, barbudo, peludo – o que destoava dos gays malhados e depilados que formavam a absoluta maioria do público das casas que ele frequentava. “Cheguei a pedir dinheiro aos meus pais para fazer uma plástica”, conta. Mas, por volta de 2007, ele encontrou sua redenção: um amigo lhe falou sobre os ursos, grupo gay com as mesmas características físicas de Guilherme; ele passou a ir aos lugares onde a turma se reunia e nunca mais voltou para casa sem um sorriso no rosto. “Foi um processo de busca de identidade para mim, de querer ser desejado”, afirma o executivo de 23 anos.

Rodrigo Ferrari passou por experiência parecida quando caiu, pela primeira vez, em uma festa repleta de semelhantes: “Fiquei muito impressionado. Parecia uma libertação coletiva. Era como se finalmente aqueles gays tivessem achado um lugar para ser quem eles eram. Sofremos preconceito duplo: somos homossexuais e somos gordinhos”. Habitué há anos de festas bear aqui e fora do país, ele postula algumas particularidades da cena: “Ursos, em geral, são mais moralistas. Não tem dark room [canto escuro onde não há regras para a saliência] nas baladas. Se você beija mais de um na mesma noite, já te chamam de vaca, de vadia”. Drogas, segundo ele, são raridade. “A maioria tem sobrepeso, problemas como diabetes, hipertensão, essas coisas. É até perigoso usar alguma coisa. O povo gosta mesmo é de beber”, explica Rodrigo, que hoje só namora outros ursos.

O boom do bear

Se até alguns anos atrás os ursos tinham dificuldade para encontrar seus pares, hoje eles formam um dos grupos mais prósperos e coesos dentro do movimento LGBT. Há hoje quatro festas dedicadas aos ursos em São Paulo – a recém-criada Bear Cantho, Bear Planet, Bear Delicious e Ursound – e diversas outras espalhadas pelo país. 

A Ursound é a mais tradicional em atividade, angariando cerca de mil pessoas por edição. “Não podíamos perder esse bonde. É um público bacana, bom comercialmente. E eles não param de crescer!”, afirma Vinicius Scippe, sócio-proprietário da Cantho, clube para gays e simpatizantes, até pouco tempo reduto das chamadas barbies, os gays malhados e depilados a que nos referimos no começo do texto. Além de baladas exclusivas, eles ainda contam com publicação (Bear Mais), loja (Urso Urbano), rede social (Bruizr e Ursos.com.br), site de vídeos (Beartube) e até aplicativo para smartphones (Scruff).

"Fiquei muito impressionado. Parecia uma libertação coletiva. Era como se finalmente aqueles gays tivessem achado um lugar para ser quem eles eram"

“Mas o que exatamente define um urso?”, indagaria o leitor pouco inteirado sobre a diversidade dentro do movimento LGBT. A princípio, eles se definem pelo tipo físico mesmo: ursos são gays (há bissexuais também, mas em número reduzido) peludos, barbudos e pesados – e quanto mais peludos, barbudos e pesados melhor. Mas a atitude também conta: é importante exibir uma aparência e uma postura másculas. Gays afeminados inclusive são, geralmente, alvos de desdém. Há várias subdivisões dentro do movimento, devidamente explicadas por um glossário próprio. Há o cub bear (mais jovem), o chubbie (mais gordo), o muscle (mais forte), o polar (de pelos brancos e grisalhos), o black (de pele negra), além dos chasers (caçadores), aqueles que não pertencem à espécie, mas que são apaixonados por ela. “Woof” é a saudação oficial, pouco utilizada por aqui, enquanto “cave” (caverna) designa os lugares prediletos da turma.

Para facilitar e agilizar a paquera virtual, criou-se o “Bear Code”. Peguemos o Papai Noel, por exemplo, um típico B8 d++ f? w++ k --?. “B” é o fator barba, podendo ir de 0 a 9 dependendo do comprimento e do volume. “d”, “f”, “w” e “k” são, respectivamente, os fatores daddy (paizão, protetor), fur (pelos corporais), weight (peso) e kinky (perversão). As características são graduadas com ++, +, nada, - e --, de acordo com a intensidade e a incidência de cada uma delas. Quando falta informação ou a denominação não passa de uma suposição, acrescenta-se o “?”. Ou seja, tudo leva a crer que Papai Noel seja um senhor totalmente família, zero pervertido. Mas isso não passa de uma suposição, por isso o “?”. E há ainda outros fatores como “t” de tall (altura), “g” de grope (toque), “s” de slut (“galinha”) e “m” de muscle (músculos).

Ideário ursinho

Acredita-se que os primeiros seres humanos a se chamarem de ursos tenham vindo de San Francisco, na Califórnia, lá pelos idos da década de 80. Eram homens em sua maioria ligados à cultura da motocicleta e do leather (fetiche por couro), que destoavam do estereótipo do gay bem apessoado, atlético, de corpo liso como um golfinho. Outros adeptos eram os homossexuais oriundos da zona rural do país, que ao migrarem para a cidade grande identificavam-se mais com a imagem do típico americano trabalhador e menos com a dos gays modernos e urbanos (o filme Milk, de Gus Van Sant, representa bem os dois tipos).

Assim como ocorreu com diversas outras subculturas, a internet pulverizou o ideário ursino para todo o resto do mundo, incluindo o Brasil. Há controvérsias, mas crê-se que, por aqui, os primeiros exemplares da espécie começaram a surgir no fim dos anos 90. o polar bear Pedro Junior estava lá. “Os ursos se encontravam via mIRC (programa de bate-papo precursor), era muito mais difícil que hoje em dia. Em 1998, fui em um bearcontro numa galeria no centro da cidade. Mas me senti desconfortável, não conhecia ninguém”, ele rememora. Desde abril último, ele é dono, ao lado do sócio Marcelo Silva (“Ele não é urso, mas está ficando”), do bar Soda Pop. De segunda a segunda, o estabelecimento fica apinhado de ursinhos e ursões de toda sorte – é o QG oficial do bando em São Paulo. “Com os ursos não tem aquela coisa afeminada, de viadinho. Pode até ser preconceito da minha parte, mas não curto homossexual feminilizado. Não acho legal. Tem que ter postura de homem, atitude de homem”, ele acredita.

Outro pioneiro do movimento brasileiro foi Alexandre Bispo, o DJ Bispo. “Conheci a cultura bear por volta de 98 e fui me moldando para o tipo de urso que eu mais gostava: os muscle bears. Entrei na academia e comecei a tomar testosterona para crescer mais pelos”, ele conta. Nessa mesma época, fundou a Woof, primeira festa de ursos do país. De início o que o cativou em ser um urso era justamente o desapego a uma compleição física perfeita. “Mas, engraçado, acabei caindo no mesmo culto ao corpo. As duas tribos acabaram se encontrando”, ele reconhece, fazendo uma comparação com as barbies. Uma grande diferença, porém, persiste. O DJ revela: “Urso que é urso não usa perfume. Eu mesmo só uso em casamentos ou eventos mais fechados. Dependendo da festa, nem desodorante eu uso. A gente gosta é de sentir cheiro de homem!”.

“Se fosse para gostar de um estereótipo feminino, a gente ia comer buceta”, sintetizaram Left e Right, autores do blog Dois Ursos, famoso no meio, que preferiram se manter no anonimato. “Não vamos a festas gays normais, tipo a The Week. Ouvimos falar cada coisa de lá… sem condição. Não vou em lugar onde as pessoas vão ficar olhando a minha roupa, a marca, ou se eu tenho ido à academia”, eles dizem. O casal, junto há uma década, é dono da loja virtual Urso Urbano, onde vendem roupas e acessórios com a imagem do animal, motivos militares e estampas xadrez. Gentilmente, a dupla chegou a oferecer ao repórter tamanho M uma camiseta da marca, mas o menor modelo disponível era G e o maior, o GGGG.

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