Ultrapassagem
?Amei a mim mesmo, pela primeira vez, em meio às coronhadas e pontapés que me cobriam os policiais?
Quando as balas cortavam os carros ao meu redor como manteiga, eram a mim que elas procuravam. Pareceu surpreendente. Minhas balas haviam acabado, não podia prever aquele cerco. Encolhi, querendo entrar para dentro de meus ossos. Mas então senti algo quente escorrendo pelas pernas, a encharcar o sapato. A mão direita parecia estraçalhada e pulsava o sangue que esguichava. Do alto das nádegas uma queimação.
Estava todo baleado e, de repente, percebi que morreria. Eles se aproximavam, atirando com todas armas do mundo. Não havia como evitar. Nada doía ainda. Tudo era adrenalina a envenenar o sangue que me escapava. Eles, finalmente, me matariam.
Não sei de onde, se por dentro ou fora, uma indignação subiu como bomba detonada. Uma defrontação ativa, uma coragem que diria até sensual, me tomou. Haviam sacrificado minha existência desde que nascera, agora me mataria como a um cão sem dono.
“Eles” agora eram meu pai; os comissários de menores; os menores de idade e os policiais que me barbarizaram no Juizado de Menores (hoje Febem); os tiras de todas as delegacias e do Deic que me torturaram desde adolescente; guardas de presídio que me sacanearam e humilharam por décadas; diretores de cadeia com suas leis regidas a canos de ferro; e o mundo todo contra mim naquele e em todos os instantes. Não, não dava para raciocinar e pensar nos que me favoreceram, apoiaram e amaram. Não enquanto morria.
Quis olhar firme e de frente os que me matavam. Ao tempo em que me perguntava de onde provinha aquela força, aquela determinação. Sentia estar enxertado de uma vida maior que minha morte. Fluía pelos meus pés e pulsos a força de todos aqueles que morreram como eu estava morrendo. Nenhuma inquietação, estava sereno, de repente. As balas, o fim de toda aquela angústia e ansiedade que sempre me permearam, me atraíam.
Parecia estar nas entranhas de um cão que latia. Não sabia o que me sustentava e já não morreria como a pedra que tomba. Estava criando em mim o que sempre quis ser. A nobreza poderosa que ninguém mais podia interromper. Joguei fora as armas descarregadas e com imensa dificuldade me coloquei de pé. Aquela era a minha primeira decisão verdadeira, nascida de mim mesmo e não de conseqüência geradas por outras conseqüências.
Algo excedia em mim a cada gesto, era um tempo longo como muitas vidas. Não mais havia sofrimento. Alívio e paz me moviam para a frente, já tombando. Imagino que os policiais se assustaram. No mínimo era inusitado. Apenas um deles correu até mim. Acabou de derrubar, virou-me de bruços e algemou mais rápido que pudesse pensar.
A vida, agora reencontrada, após a aceitação inteira da morte, me soube maravilhosa de ser vivida, mesmo no inferno da prisão em que seria jogado. Mesmo muito ferido, o momento era dourado. Escolhera e encontrara a coragem de morrer de frente aos que me matavam. Eu me ultrapassara e agora encontrava em mim um sentido de viver. Sim, ainda era possível viver.
Amei a mim mesmo, pela primeira vez na vida, em meio à chuva de coronhadas e pontapés que me cobriam os “valentes” policiais.
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