O menino e a música
Conheça Binho Feffer, o homem que cocriou os arranjos sonoros da animação brasileira indicada ao Oscar "O menino e mundo", que tem na trilha um de seus protagonistas
Por Camila Hessel
em 28 de janeiro de 2016
Caçula de quatro irmãos, Ruben Feffer, hoje com 45 anos, sempre foi um garoto tímido, que pouco falava e muito observava. Desde muito pequeno, encontrou sua forma preferida de expressão na música. Quando menino, divertia os familiares ao tocar piano e bateria ao mesmo tempo. Foi no colo do pai, Max Feffer, que teve as primeiras lições, depois complementadas por mestres como Maria Manoela Pagano e Júlio César Figueiredo. E era dedilhando teclas que Binho (como é chamado até hoje pelos amigos e colegas de trabalho) se relacionava com ele e com o avô, Leon, acompanhando-os em sessões musicais registradas em belos retratos de família. Embora tenha começado a compor muito cedo – aos três anos de idade já era autor de composições -, só enveredou pela carreira musical aos 28.

O trabalho de composição de trilhas (para teatro e eventos corporativos) começou nos fundos de casa, enquanto ainda ocupava um cargo executivo na Suzano. Binho conta que trabalhava nesses projetos de madrugada e nos fins de semana quando se deu conta que fazer da música uma carreira era, no fundo, uma questão de inverter prioridades. “Isso não é mais um hobby, dá perfeitamente para ser a minha vida”, lembra ele. Parte da confiança necessária para deixar a empresa da família e começar a construir a sua veio da certeza de que esse processo não precisava ser sinônimo de uma completa ruptura.”Era preciso zelar pela companhia de alguma maneira, acompanhar quem toca o dia a dia”, diz Binho. “O fundamental é que aprendi a não atrapalhar.”
“Era preciso zelar pela companhia de alguma maneira, acompanhar quem toca o dia a dia. O fundamental é que aprendi a não atrapalhar.”
Binho Feffer
Em 1998, ele deixou a Suzano e passou a se dedicar integralmente à música. Curiosamente, fez o caminho inverso do pai que, logo depois da II Guerra Mundial foi estudar na prestigiada Juilliard School, em Nova York – que abandonou para assumir a empresa da família, retornando ao Brasil aos 20 anos. Binho tocou teclado em bandas como Luni (que tinha Marisa Orth no vocal) e, em 2001, criou formalmente a Ultrassom Music Ideas.
Foi nesse processo que conheceu Gustavo Kurlat, que viria a se tornar seu grande parceiro criativo. Kurlat conta que, há pouco mais de 20 anos, foi apresentado a Binho por uma aluna da escola de teatro Célia Helena. Ele tinha de resolver muito rapidamente a gravação da trilha de uma peça. “O Binho fez o que eu precisava numa velocidade absurda, com eficiência. Tudo o que eu pensava era: quero mais!”, diverte-se Kurlat. Em 1999, eles se reencontraram para a gravação de uma rádio-novela e, desde então, engatam um projeto atrás do outro.

Juntos, Kurlat e Binho ganharam uma série de prêmios, tanto por composições para o teatro – como o Prêmio Shell por Pequeno Sonho em Vermelho (2003) – quanto para o cinema – entre eles o do Festival Internacional de Pernambuco para a trilha do primeiro longa de Alê Abreu O Garoto Cósmico (2008). O sucesso da dupla de compositores com o diretor de animações viria a se repetir com O Menino e o Mundo, que concorre ao Oscar 2016 de animação com gigantes como Divertida Mente (da Disney-Pixar) e Anomalisa (dirigido por Charlie Kaufman, de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças).
O filme conta a história do menino Oninem, que mora com a família no campo, mas vai para a cidade em uma carroça em busca do pai, que embarcou em um trem e desapareceu. Lá, ele enfrenta as maravilhas e o progresso assustador das metrópoles cheias de fumaça. A animação, que quase não tem diálogos, tem um rap do Emicida e participações de Naná Vasconcelos na trilha, além de um cuidadoso arranjo cheio de “barulhinhos e sutilezas”, explica Binho.
Divulgação
Binho e Kurlat caracterizam O Menino e o Mundo como “um projeto único”, de envolvimento profundo. Foram dois anos de trabalho. Quando começaram, o roteiro ainda não estava fechado, e eles puderam construir o percurso em conjunto. Kurlat conta que além da música e da supervisão de som, eles colaboraram com elementos fundamentais, como a escolha do uso das palavras em português ditas de trás para a frente como “língua oficial” do filme. “É coisa que se faz uma vez na vida”, afirma Binho. “Algumas músicas foram compostas no ritmo da cena pronta; algumas cenas tiveram a animação ditada pela trilha e alguns trechos dela foram refeitos umas vinte vezes, até que encontrássemos o tom exato.”
Esse modo de criar a portas abertas é uma marca de seu trabalho – e o elemento de seu sucesso. Logo que faz um rascunho, ele gosta de chamar o diretor ao estúdio e, a partir dali, construir em conjunto. “Embora tenha uma visão sobre os caminhos que cada trilha deve seguir, meu trabalho não é de convencimento, mas sim de experimentação”, afirma. “Não gosto de monocultura.”

Binho gosta de incluir toques de pop até mesmo em trabalhos mais eruditos. Musicalmente, seus ídolos são Hans Zimmer – compositor alemão responsável pelas trilhas de filmes como Rain Man, Conduzindo Miss Daisy e O Rei Leão – e Alexandre Desplat, autor da trilha de Grande Hotel Budapest. Para garantir evolução constante, ele usa plataformas como o Spotify para descobrir coisas novas e que gosta de ouvir suas próprias composições em aparelhos de som variados e em contextos diferentes, para perceber o impacto de detalhes.
Kurlat também acredita que essa abertura (que ele chama de “desapego”) é o que torna os trabalhos realizados com Binho tão especiais: “Juntos nos permitimos fazer aquilo que não dominamos porque nos damos retaguarda com saberes complementares. E temos uma tolerância em relação aos nossos pontos fracos que é fundamental: atrasamos uma hora e meia para um encontro e, em vez de ficar resmungando, damos risada.”
“Prometi a mim mesmo que nunca deixaria a criança interior morrer. Acho que esse é o segredo.”
Binho Feffer
O bom uso desses “saberes complementares” também está no centro de outra parceria fundamental na vida de Binho, a com a mulher – e sócia – Flávia Feffer. Eles trabalham juntos na Ultrassom desde 2008. Enquanto ele se dedica à criação, ela toca as questões comerciais. Muitas vezes, passamos o dia todo no mesmo endereço e sequer nos vemos”, diz Flávia, com quem Binho tem um filho de um ano, o pequeno Rodrigo, que parece ter herdado a habilidade do pai para a música. Orgulhoso (e reconhecendo que há boa dose de corujice na afirmação), Binho diz que o bebê toca tambor sem jamais perder o ritmo e que já acompanha o pai com seu mini acordeón. Os filhos de seu primeiro casamento, Natan, de 15 anos, e Max, de 13, também curtem música – o primeiro toca guitarra e o segundo, baixo. Esse contato com os meninos o ajuda a se manter conectado com o fascínio pela exploração, fundamental ao trabalho de composição. “Prometi a mim mesmo que nunca deixaria a criança interior morrer. Acho que esse é o segredo.”

Hoje, sua empresa faz trilhas para longa metragens (Quebrando o Tabu, A Viagem de Yoani, Angie), músicas originais para animações de sucesso (como a sensacional Irmão do Jorel, produção brasileira que é campeã de audiência do Cartoon Network) e toca a distribuição de filmes para a TV e meios digitais. É dele a autoria da trilha do Trip Transformadores, composta em 2014 especialmente para o projeto. Empolgado com a grande exposição trazida pela indicação ao Oscar (e também a três categorias do Annie, o maior prêmio da indústria de animação), Binho sonha com uma maior valorização da música e do som em geral nos trabalhos para o cinema e para a TV. “Não pode ser um detalhe pensado de última hora, um remendo”, diz. “A música também conta a história. É preciso valorizar a função do compositor de trilhas, reconhecê-lo como coautor.”
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
A ressurreição de Grilo
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu