Trabalho que liberta
Nosso colunista e ex-presidiário faz hora extra e dedica seu tempo livre a revelar

Trabalho na prisão tem seu sentido fecundado pela impossibilidade de outros. Penso que o homem é uma liberdade a realizar-se, como queriam os existencialistas. Prisão é a contraposição. Realiza seu sentido quando extingue toda liberdade possível. O homem e a prisão. Pólos antagônicos que se entrechocam vorazmente desde que o mundo é mundo.
Se o trabalho remunerado é a libertação do homem da escravidão, na prisão o traba-lho tem o sentido de forçar a expansão dos espaços; aumentar número e qualidade de relações; manter a mente ativa; aproximar-se dos setores da prisão ligados aos interesses de cada um (sempre trabalhei em setores envolvidos com educação, primeiro como faxineiro, depois escriturário, professor, bi-bliotecário e, por fim, coordenador de monitores); comércio; negócios (e até de drogas, que é o mais importante e é impossível negar); troca de informações e influências.
Por exemplo, “muamba”. Significa contravenção; proibido mas tolerável. Há uma lei absurda na prisão que diz que tudo pode e nada pode. É a relatividade levada ao extremo. Nas oficinas, companheiros mais habilidosos manufaturam, nas horas vagas, artesanatos da mais fina sensibilidade artística. A matéria-prima, às vezes, tem procedência questionável. Essas peças (cinzeiros, abajures, porta-jóias, quadros, miniaturas de navios ou casas, esculturas de madeira e papel machê, invenções a partir da escassez de matéria-prima) são levadas pelos fami-liares para que sejam comercializadas. É mais uma colaboração no orçamento familiar. Isso é “muamba”; só possível, na prisão, a quem trabalha.
A faxina e a distribuição da alimentação somam a maior parte dos trabalhos de uma prisão. São setores dominantes que quase sempre têm função de liderança em caso de movimentos internos. Higiene e respeito são fundamentais para a saúde e convivência pacífica, quando somos amontoados. Depois vêm as oficinas. Grandes galpões pré-moldados onde algumas empresas, da região onde estão as penitenciárias, levam alguma espécie de trabalho ao preso.
Existem profissionais como marceneiros, encanadores, pintores, escritores, alfaiates, mecânicos, garçons, digitadores. Esses, geralmente, trabalham para a “Casa”. Mas a maioria costura bolas de couro, ajusta conectores, monta brinquedos e executam pequenos serviços de caráter mecânico, cuja remuneração é exígua. Ocupações que não visam ensinar profissões razoáveis para quem retornará ao mercado de trabalho. Na verdade, é trabalho que ninguém mais quer. Marcuse, quando afirmou que “o trabalho não dignifica o homem; antes, danifica”, devia estar se referindo a esse tipo de trabalho.
SALÁRIOS DE ATÉ 20 REAIS
Todos querem trabalhar. Além de ser meio de vida (o preso precisa comprar seu material de higiene, por exemplo), trabalho na prisão, conforme já exposto, é liberdade dentro do espaço possível. Quem não trabalha fica trancado nos pavilhões, impedido de qualquer movimento. E há uma existência a ser vivida, mesmo que na prisão. Cada qual deve ocupar o espaço que cria para si.
Há uma estratificação social e cada qual deve definir sua posição. O preso que não se destacar, infelizmente, continuará apenas respondendo pela sua matrícula na hora das contagens.
O sentenciado, ao chegar ao presídio, é apenas mais um preso. Nem nome, como o escravo, tem. Recebe um número à chegada, é sua matrícula para o resto do tempo em que estiver preso. Se experiente, procura uma ocupação. Ajuda a varrer pátio, lavar a prisão (vocês não imaginam a paranóia como é tratada a questão de higiene e limpeza) e está sempre disposto. Logo já encontra os caminhos para as oficinas, cozinha, padaria, sala dos advogados, descobre quais os dias que o diretor atende, envolve-se no contexto da prisão.
De repente, não é mais apenas o “preso matrícula tal”. Torna-se o cozinheiro, o alfaiate, o pintor, o escritor, o professor, o encanador, o técnico em televisores e rádios, o barbeiro e outras profissões. Adquire identidade, torna-se alguém e constrói uma personalidade no ambiente. O trabalho também tem esse contexto.
Infelizmente trabalho na prisão, parecido com o que é o emprego aqui fora, não é para todos. Com a vantagem de que aqui fora é só esforçar-se e correr atrás, cavar seu espaço; e lá, muitas vezes, não há para onde correr. Cerca de 40% dos presos no Estado de São Paulo não traba-lham. Não existe ocupação para todos. Já 50% dos que trabalham ganham menos de 20 reais por mês. Apenas 2% dos presos que trabalham, quase todos em regime semi-aberto de cumprimento de pena, ga-nham acima de 200 reais mensais. Essas condições somente desvalorizam o traba-lho aos olhos do preso. Sente-se explorado ou submetido ao nada fazer – pior de todos os males. A ociosidade obrigatória é violência inominável cometida às já precárias condições psicológicas da criatura humana aprisionada. Não ensinam a importância de ser produtivo, de estar inserido, participando e em constante relação de troca.
MÃO-DE-OBRA ALGEMADA
Durante os anos de 1995 a 2001, estive preso na extinta Casa de Detenção de São Paulo. Uma cidade com quase 8000 homens. Dei aulas por cinco anos e fui monitor-coordenador da escola toda, por um ano. Foi ali que aprendi o prazer de ensinar, capítulo que considero especial em minha vida.
Ao iniciar novas turmas, eu passava um documentário sobre o livro O Povo Brasileiro, de Darci Ribeiro, e fazia uma única pergunta: de onde provinham? Procurava a rapaziada que, como eu, havia sido criada na Febem e nas ruas da cidade; os meninos de rua. Queria saber se sentiam a vida com o rigor com que eu a senti à minha época.
Surpresa enorme: a maioria de meus alunos trabalhou grande parte de suas vidas. Acabaram escorregando por ambição, falta de paciência. Alguns se perderam nas prestações, grande parte por conta das drogas e por aí vai. Mas quase todos, antes da queda, trabalharam muitos anos. Alguns desde crianças. Aliás, apenas 14% dos presidiários do Estado tiveram passagem pela Febem. Havia até aqueles que foram abordados pela polícia dentro do próprio local de trabalho.
A conclusão, generalizando, é que presidiários já foram trabalhadores. A despesa do INSS tem aumentado consideravelmente. Por lei, a Previdência Social é obrigada a pagar auxílio-reclusão a quem estiver preso e já tenha sido contribuinte. Nada mais justo, eu creio.
Trabalhei quase o tempo todo que estive preso. Primeiro, pelos motivos acima expostos, depois porque gostei. Gostei de sentir que executava, fazia, interferia, produzia efeito e beleza. Pegar uma classe de homens embrutecidos e analfabetos, e ao fim do ano observá-los a caçar palavras no dicionário para escrever emocionantes cartas familiares, é gratificante demais. Ao fim, é a nossa utilidade enquanto pessoa que dá sentido a quase tudo em nossas vidas.
Hoje trabalho com prazer. Gosto de ler, aprender, escrever e, principalmente, observar. E isso é quase tudo na profissão que escolhi. Uma pena a remuneração não acompanhar. Então seria perfeito. Mas há de haver o elemento de contradição, afinal não estamos no melhor dos mundos.
*LUIZ ALBERTO MENDES, 53, É AUTOR DE MEMÓRIAS DE UM SOBREVIVENTE (CIA DAS LETRAS) E CUMPRIU 31 ANOS E 10 MESES DE RECLUSÃO. NESTE MÊS ELE COMPLETA EXATOS QUATRO ANOS DE TRABALHOS NA TRIP. SEU EMAIL É: LMENDES@TRIP.COM.BR
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