apresentado por West Coast

Nos últimos anos, as pranchas de surf feitas em escala industrial foram abrindo espaço para peças criadas de forma artesanal, com materiais naturais e desenhos retrô

Na procura por uma prancha ideal para cair na água, o caminho de escolha mais comum era bem simples: geralmente, bastava ir até uma surf shop e escolher um dos modelos à venda. Embora ainda legítimo, esse processo vem mudando radicalmente. Não raro, o cliente prefere entrar em contato direto com o fabricante, que, por sua vez, o recebe em seu ateliê para uma conversa sem hora para acabar.

É como acontecia nos anos 60 e 70 ou até antes disso, quando o surf dava seus primeiros passos no Brasil. Aos poucos, novamente o fabricante, em vez de uma marca internacional replicada industrialmente, volta a ser o próprio shaper; um artesão profissional que escolheu um estilo de vida autêntico e se permite dedicar o tempo àquilo que mais ama fazer. Ou seja, dar forma aos sonho das pessoas e proporcionar prazer e elevação espiritual através de um dos esportes mais incríveis já criado pelo homem. Do encontro entre shaper e surfista, pranchas fantásticas são criadas e trazem não somente curvas e materiais mais orgânicos, sustentáveis e personalizados, como também uma longa e bela viagem no tempo.

Conheça dois artistas que representam essa saudável e inspiradora onda vintage no surf.

Legado japonês

Aos 15 anos, o paulistano Rodrigo Matsuda já fazia pequenos consertos nas pranchas dos amigos com quem surfava no Guarujá, litoral sul de São Paulo, onde mora há cinco anos. Na adolescência ele trabalhava no ateliê do tio, José Mira, que era ceramista e marceneiro, na capital paulista. “Eu já dava aulas de cerâmica como assistente. Foi aí que comecei a sonhar em trabalhar com surf um dia. Queria aprender a fabricar”, conta. 

Matsuda chegou a cursar um ano de desenho industrial na faculdade Belas Artes de São Paulo, mas trancou o curso para se aventurar no Japão como operário, na região litorânea de Toyohashi. Por lá ficou 11 anos. No meio do caminho, começou a explorar a construção de pranchas de madeira e foi se aperfeiçoando, sozinho, em busca de materiais naturais. “A resina convencional de poliéster me dava crises de bronquite”, lembra.  Foi quando conheceu Yuichi Endo, um dos principais mestres japoneses de produção de Alaias — pranchas finas que os havaianos usavam há um século, sem quilhas —, e aprendeu a técnica, que trouxe ao Brasil no retorno para casa, em 2011.

Hoje, aos 35 anos, à frente da Lasca Surfboards, ele usa a madeira paulownia (kiri japonês) e óleo de tungue natural para selar as pranchas. O capricho de Matsuda já rendeu clientes como os surfistas profissionais  Andrew Serrano, Junior Faria, Claudinha Gonçalves e Camilla Callado, além do canal Off, que  encomendou uma leva de handplanes — pranchas pequenas de bodysurf feitas para pegar jacaré —, outra especialidade do shaper. “Viro amigo dos meus clientes. Explico desde como surfar até a manutenção. Como são poucos os que surfam com alaias e handplanes, acabamos surfando juntos. Cada shape que assino é único.” 

Clássico e sustentável
“Marcenaria sempre foi um hobby, uma válvula de escape para relaxar em casa. Sempre sonhei em ter uma profissão que unisse esse conhecimento com o esporte”, conta o paulistano Marcio Juliasz, 53 anos, especialista em pranchas de bambu que remetem ao surf clássico dos anos 50, 60 e 70. Além de pranchas de surf e stand-up paddle, Marcio desenvolve uma linha de mobiliário com madeiras renováveis e remos de bambu em pequena escala. “Bambu é a madeira do futuro: mais leve, flexível e resistente”, garante ele, que prioriza materiais que não agridem o ambiente, como verniz à base de água e cera de abelha. 

O ofício ele aprendeu aos 7 anos, com o avô, marceneiro. “Fazia meus carrinhos de rolimã, skates e, depois, aeromodelos”, conta. Mas o artista traçou um longo caminho antes de assumir seu lifestyle. Formado em educação física e direito, Juliasz foi diretor de uma metalúrgica química durante 12 anos, além de proprietário de uma produtora de vídeo, com as quais rompeu só nos últimos anos. “Passei a me dedicar somente ao ateliê em janeiro de 2015”, crava.

Sua casa agora parece um clubinho. “Não tenho frescura de horário. Meus clientes e amigos aparecem sem ligar.” Para ele, nada mais natural do que o desejo de ter uma peça única, seja para surfar ou expor em casa, como obra de arte. “Desde detalhes da pintura até o tipo de quilha e tamanho da prancha, quem decide é o proprietário. O shaper a torna funcional. Daí a importância do vínculo entre os dois. Senão vira um mero produto de loja, e não algo extremamente pessoal, feito sob medida, como alfaiataria.”

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