por Manuella Menezes
Trip #169

Sem badalar nas colunas sociais, gaúcho é conhecido na Lapa carioca, onde fotografa boêmios com sua polaroid

POR MANUELLA MENEZES FOTO LEANDRO PAGLIARO

O figurino, terno e gravata-borboleta, está longe de ser comum por ali. A Polaroid pendurada no pescoço causa suspeita. Mas é assim que Sérgio Silveira sai todas as noites pra trabalhar. Pega no batente até as primeiras horas da aurora. Fotógrafo da noite, o senhor bigodudo anda de bar em bar, de mesa em mesa, acompanhando a balada até as cinco da matina. Aos 75 anos, ainda vai e volta de 23 estabelecimentos quase toda noite – domingo e segunda ele decreta sua folga, também é fi lho de Deus. Sombra conhecida nas mal iluminadas ruas da Lapa carioca, Gaúcho exibe sua câmera torcendo pra um ou outro exibicionista posar para a sua lente.

Encontro com Gaúcho no bar Nova Capela, assim como ele um clássico da região. Ali, onde inicia sua ronda noturna, ele já me aguarda com um mapa nas mãos: fez questão de imprimir seu itinerário. O orçamento anda apertado. Mas nos áureos tempos chegava a tirar 600 fotos por mês. Hoje, difi cilmente o número passa de 150, que ele vende a R$ 20 cada. Pra quem julga caro, explica que os fi lmes estão cada vez mais difíceis de achar, e precisa fazer estoque pra quando não forem mais fabricados. Como não dá pra contar só com a aposentadoria de um salário mínimo, ele aposta em nova carreira. Quer publicar o livro Minha história da Lapa, pra contar os muitos causos que já viu e ouviu e mostrar os famosos que já retratou. A lista ostenta nomes como Jamelão, Braguinha e o lendário Madame Satã.

DOR-DE-CORNO
Pergunto o que o encantou na fotografia, pronta pra ouvir dissertações poéticas. Ele corta minha onda no ato. Não vê nada de romântico na função. Foi somente o meio que apareceu pra ganhar a vida, depois de abandonar o lar e o emprego quando descobriu a traição da primeira mulher. Amargando a dor-de-corno, ganhou de um amigo a velha máquina que o acompanha até hoje, esta fiel. Aprendeu o manejo na marra, e contava com a ajuda de um laboratorista, ex-chefe da Kodak em Madri, que fazia a revelação. O romantismo que falta no trabalho ainda está vivo no amor. Espalha por aí que está disponível pra mulheres a partir de 65 anos, que ainda estejam nos “trinques”. Sonha com o casamento nos Arcos da Lapa, se o prefeito permitir, claro.

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