por Paulo Lima
Trip #273

“Tratamos celebridades como gente comum e gente comum como celebridades”

Há uma frase construída ao longo de mais de três décadas na lida com produção de conteúdo por aqui: “Tratamos celebridades como gente comum e gente comum como celebridades”. Se um dia fosse materializado e escrito o guia tácito de jornalismo que, para nosso orgulho, forjou aqui nos corredores da Trip parte significativa dos nomes à frente de grandes jornais, programas de TV, produtoras de audiovisual, revistas e ambientes editoriais digitais no Brasil, é provável que ela merecesse figurar em destaque numa das primeiras páginas.

O momento parece bastante adequado para uma nova visita a esse território. Em um tempo em que o direito à privacidade está frontalmente ameaçado e se torna corriqueiro o uso ilegal de informações privadas por governos, entidades ligadas ao submundo eleitoral, empresas de todos os perfis e até indivíduos que, conforme o dia e o contexto, podem ser qualificados como hackers ou terroristas, talvez haja um aspecto ainda mais sério e preocupante do que tudo isso. Em breve, pode se tornar tecnicamente impossível desfrutar das delícias e da paz de espírito do anonimato.

Como sempre, há uma face colorida e outra sombria. Até algum tempo atrás, um artista talentoso que não tivesse a sorte de nascer num berço favorável corria o risco enorme de perecer sem conseguir colocar sua identidade para o mundo. Hoje, um escritor presenteado por talento muito acima do comum consegue, ainda jovem, ser percebido, lido, visto e ouvido em questão de poucos anos. É o caso de Geovani Martins, um garoto nascido no subúrbio carioca, em Bangu, filho de uma empregada doméstica, que resolveu viver de seus escritos, contra tudo e todos (exceto, claro, sempre, a própria mãe).

Em que pesem a originalidade e a potência de seu texto, capaz de enviar, sem escalas e em segundos, o mais pastel dos alienados direto para o lobo frontal de um habitante do lado pobre do mapa do país, muito rapidamente, Geovani vê seu livro aclamado por entidades da literatura nacional, os direitos para publicação em outras línguas vendidos a jato e seu nome e imagem alçados, via mídia analógica e universo digital, ao panteão da nova literatura brasileira (e, muito provavelmente, para o universo pop daqui e do mundo).

Como é isso?

E como Francisco Bosco, um quase tão jovem filósofo e também escritor nascido do lado rico do mesmo mapa e, ainda por cima, filho de um nome de enorme projeção nas artes nacionais lida com o mesmo contexto, um pouco depois de deixar a considerável zona de conforto da intelectualidade amparada pela erudição, e se joga não apenas num cargo público complexo e de razoável exposição, mas, num programa de debates na TV e ainda em debates menos televisionados, mas não menos quentes, em que posições, opiniões e disparos sobre política, gênero e outros temas hoje quase proibidos entram e saem sem cerimônia.

Crianças e pré-adolescentes que até algum tempo atrás tinham suas vidas apontadas para a diversão descompromissada e os estudos miram, de forma cirúrgica, carreiras profissionais no esporte, com direito a planilhas, perfis em redes, treinamentos, dietas e rituais conduzidos por assessorias de todos os tipos, em busca de projeção pública grande e rápida, patrocínios e metas a serem batidas.

Talvez seja bom, mas há quem acredite que caminhamos para uma situação de caos inadministrável do ponto de vista psicológico, na qual nossos próprios cérebros e corpos serão aniquilados diante da ansiedade em doses industriais que o excesso de exposição e a falta de introspecção, anonimato e de paz carregam sempre em sua pochete.

Vamos ver onde tudo isso vai dar. Por aqui, vamos continuar fazendo as perguntas.

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