Logo Trip

Outras palavras: lindo. leve – e preso

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

Caro Paulo,
Já posso te dizer como estou me sentindo com relação àquele amigo que acha essa nossa conversa um ‘papo chato evangelizador’. Mas antes eu vou te contar o que aconteceu comigo nesta semana que passou: eu tive a melhor e a pior experiência com platéia da minha vida. A primeira foi na FEA (Faculdade de Economia e Administração) – USP e a outra, dois dias depois, na Faculdade de Administração da FAAP. Nas duas eu falei sobre branding para uma platéia de 400 pessoas cada, em cursos especiais de Marketing. Na USP foi genial: sintonia total, eu me diverti, eles se divertiram, trocamos numa ótima. Na FAAP foi um desastre: apesar do interesse de alguns, tinha um terço da platéia conversando o tempo todo. Eu me estressei e eles se aborreceram. Péssimo. Mas por que a diferença? Por que para uns eu podia ficar cinco horas falando numa boa e para outros nem cinco minutos? Tentei descobrir a razão do meu fracasso e achei uma pista: os alunos da FAAP eram obrigados a assistir o curso! Daí aquele percentual barulhento de desinteressados. Óbvio que para eles eu era um chato antes mesmo de abrir a boca. Tirando a falta de educação, o problema não era eu, era o desinteresse deles.

CADA UM, CADA UM
Foi nessa hora que entendi o que o outro quis dizer com ‘chato evangelizador’. ‘Evangelizador’ é o cara que teve uma experiência legal e que gostaria que outros tivessem a mesma satisfação, as mesmas emoções, as mesmas conclusões. Ele quer dividir essa experiência com mais pessoas. Na minha época de jovem a palavra usada era ‘militante’. ‘Chato’ é o cara que fica falando dessa experiência sem ninguém perguntar, isto é, sem que os outros revelem interesse em saber. Então, o meu amigo tem toda razão quanto ao lado ‘evangelizador’ da nossa conversa. Sou crente, praticante e militante de uma nova visão de mundo que é mais integradora e humana. Tenho sido feliz assim. E mais, tenho sorte porque o vento está soprando muito a favor dessa visão, fazendo chover direitinho na minha horta. O aspecto ‘chato’ fica por conta do desinteresse dele, e quanto a isso posso fazer muito pouco. Claro que como um bom crente/militante eu torço para que ele acorde – ‘Aleluia, irmão!’ – e comece a usufruir da outra metade da vida. Exatamente essa metade tradicionalmente considerada chata, desnecessária, desvalorizada e desglamourizada da busca do significado e do real prazer de coisas banais, como trabalho, amizade, comida, esporte, viagem etc. Talvez ele até já tenha sacado tudo isso e só fale essas coisas para encher o saco e marcar presença. Faz tempo que eu só falo do que sei para quem me pergunta. Lembra da minha primeira coluna aqui, na TRIP #60 (A coluna tem o título ‘Caro Paulo’ porque aceitei o convite para escrever para o Paulo Lima, que tinha interesse em me ouvir – e não diretamente para os leitores.) Pois é. Está tudo certo, Paulo. Afinal ‘cada um é um’ como já dizia o Tiago, desde seus dois anos. E mais, devo ficar quieto porque o meu ‘evangelho’ diz que não existe o dono da verdade, isto é, tem mas acabou! Agora cada um tem a sua verdade.

NÁUFRAGOS RASOS
Mas eu queria marcar posição crítica quanto ao compromisso que algumas pessoas assumem com um jeito leve-divertido-e-inconseqüente de ser. São pessoas que decidiram não aprender a nadar em águas profundas e que ficam no raso jogando água nos outros para disfarçar o tédio de não ter nada para fazer. A verdade é que a vida no raso é chata. Ela se repete dia após dia e a única novidade é que se ficou mais velho. Envelhecer no raso é triste porque se tem a sensação de que aquele mundo de possibilidades na sua frente não te serviu de nada a não ser lembrar que você não foi até o fundo e ficou esperando a onda chegar, morrendo na praia, com você, como você. Vejo que alguns contemporâneos meus que fizeram a opção do raso – e que de fato eram leves e divertidos – estão ficando pesados, irônicos e tristes com o tempo. Parece uma maldição tipo Midas que transformava em ouro tudo o que tocava e assim morreu de fome. Esses que tinham o dom de tornar tudo leve e divertido estão sentindo agora a falta de consistência e significado, e estão morrendo de outra fome. Para quem não entendeu ou está com pressa, dou uma dica-conselho: entre o mar e a terra, fique com o céu. Lá as águas profundas se tornam leves e formam nuvens que pesadas caem na terra, sem erro, eternamente. Chega de filosofia, Paulo. O outono de São Paulo está me chamando para uma caminhada pelo bairro com meu velho companheiro Rato, meu leal labrador.

Meu abraço,
Ricardo

PALAVRAS-CHAVE
COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon