OTIMISTA SIM, IDIOTA NÃO
Se o otimismo é a única alternativa de quem continua por aqui, então onde moram a incredulidade e a desesperança?
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Nesse momento, em que a despedida de Mário Covas
faz o país repensar o que espera daqueles que tem o poder, acho importante lembrar, que a morte de um dos últimos políticos amados pelo povo, pode significar um emblema de uma era na qual de forma clara, o poder migra da mão de ‘escolhidos’, para as dos cidadãos comuns, em velocidade espantosa.
De novo, reproduzo uma das cartas que recebo de
Ricardo Guimarães, que me parece inspiradora:
Caro Paulo,
Aquela conversa sobre a dificuldade de as pessoas,as empresas e a sociedade mudarem de comportamento me deixou incomodado.
Eu sou otimista. Preciso acreditar que a mudança é
possível, Paulo, caso contrário é melhor pegar o boné e pedir transferência para outro planeta.
Eu sei que às vezes parece meio babaca ou ingênuo, mas não tem outro jeito, chamem do que
quiserem.
Albert Camus dizia que ‘uma vez descartada a
hipótese do suicídio, só nos resta o otimismo’.
Se o otimismo é a única alternativa de quem
continua por aqui, então onde moram a incredulidade e a desesperança? Dizem que a diferença entre um
idiota e um otimista é que o idiota coloca um prazo. É por aí. Será que os incrédulos são os idiotas? Eu não sou idiota. E não ponho prazo.
Confio no processo e no potencial humano. Percebo que perco a esperança quando as coisas não aconteceram do jeito que EU queria, no prazo que EU queria.
A nossa descrença e incredulidade moram na expectativa de vermos tudo funcionar como a gente quer, na hora que a gente quer. Como se o simples fato de saber como as coisas deveriam ser fosse suficiente para fazer acontecer. Saber é pouco.
EXPECTATIVA, NÃO: ESPERANÇA
Acredito pouco na razão e na inteligência.
Acredito mais na dor e no prazer. E também no sonho e na paixão. Acredito demais no amor. Mas nada disso tem força se não houver otimismo,fé.
Sem a perspectiva que o otimismo oferece, amor vira apego, paixão vira doença, e sonho, alienação. Parece que não tem dia seguinte.
Tudo vira fuga e refúgio de um mundo absurdo sem
perspectiva nem imaginação. Na prática, é um suicídio inconsciente, uma desistência sem o abandono da luta. Sonâmbulos. Clones. Viramos palhaços sem graça.
Acho que no fundo todo o mundo é otimista, acredita na vida e no aperfeiçoamento. Mas, ao sair do fundo para vir à tona, parece que esse otimismo encontra um obstáculo no meio do
caminho.
Então o que sai da boca das pessoas e aparece
em suas atitudes é uma coisa meio amarga, triste,
descrente e sem vitalidade. Parece que esse obstáculo é uma força que vem de fora para dentro dizendo como a vida deveria ser. Esse ‘dever ser’ impede o otimismo de gostarmos da vida como ela é:
livre, franca e espontânea. Essa força chama-se
expectativa e é ela que destrói a esperança. É
uma
pena porque a vida tem um curso e um ritmo dela, muito maiores do que nossa vontade e nossos planos.
A única coisa que teríamos que fazer é proteger,alimentar e aplaudir este espetáculo.
Coincidências à parte, parei para almoçar,peguei o caderno Mais!, da Folha, e vi uma crônica
sobre ninguém menos que Albert Camus, assinada por Fernando Savater, filósofo espanhol que, depois
de elogiar muito O Homem Revoltado (Ed. Record),
conclui brilhantemente: ‘Os seres humanos só o
são por completo quando se revoltam. Desde que não
dirijam sua revolta contra a própria humanidade
que almejam e que têm de partilhar’
É verdade! Para ser completo, é necessário que
o ser humano não se conforme e se revolte, mas
não a humanidade, como se ela fosse má ou incapaz de melhorar. A revolta deve ser a favor da humanidade. É preciso se revoltar a favor da humanidade, acreditando em seu potencial de ser melhor.
A HUMANIDADE COMEÇA EM VOCÊ
Não temos outra saída, Paulo, e você faz isso
bem.
A edição 85 da TRIP é um manifesto fortíssimo
desse otimismo/revolta. Aliás, quero cumprimentar
publicamente a galera da redação e dizer que
estava difícil de ler a revista com os olhos
marejados pela emoção das histórias e dos
depoimentos. Não podia ter melhor presente de
fim/começo de ano do que mostrar e celebrar a
revolta e o otimismo dos ativistas que se movem
por suas causas. Isso é que é ir à luta.
Acredito muito que, antes de melhorar o mundo,a
revolta, combinada com a ação, melhora o próprio indivíduo, porque ele vê que algo está sendo feito
para mudar a humanidade – que começa nele
mesmo.
Tem desânimo? Claro que tem. Tem dias em que
não vejo razão para sair da cama. Nesses dias, fico
lá até achar razão para me levantar. É melhor do
que cair na vida se fingindo de morto.
Hoje, tenho certeza de que tudo vai dar certo.
Fique com o otimismo compulsivo do amigo,Ricardo.
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