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No País das Sombras

Quem não tem algum contrato feito na sombra?

No País das Sombras

em 29 de setembro de 2005

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O colunista se diz um tanto cego pelo excesso de luz que nos traz a onda de escândalos políticos recentes e pergunta: quem não tem algum contrato feito na sombra?

Caro Paulo,

O que você está achando deste show de informação sobre os nossos bastidores políticos e empresariais?

Não estou falando da informação em si porque você é sempre muito bem informado. Falo do espetáculo do bastidor revelado, desse reality show que a vida está se tornando. Quanto à informação, não vejo nada de novo. Coisas como corrupção no Congresso, no governo, sonegação fiscal de empresas não são novidades. Nem o fato de que existam petistas desonestos surpreende [alguns leitores me lembraram das colunas de abril e setembro de 2004 quando o PT começou a perder o controle sobre suas manobras. É divertido e triste reler].

A novidade é a transparência que está se instalando na sociedade como uma característica do ambiente. Claro que transparência é uma coisa boa e desejada. Eu luto por isso e comemoro cada centavo de redução no custo de processamento, armazenamento e transmissão de informação. A informação é como luz que mostra a realidade como ela é. Isso é bom.

Mas o que me preocupa é a quantidade de luz e a velocidade com que ela entra no ambiente. Pode cegar, machucar os olhos, assustar e pode fazer as pessoas preferirem a escuridão.

Lidar com a realidade como ela é, sem bastidores, não é fácil para uma sociedade que viveu até hoje na segurança, nos ganhos e no conforto do on e off. Não existe mais off. Isto é, “tem, mas acabou”. Não há off que não seja revelado mais cedo ou mais tarde. Aliás, cada vez mais cedo.

Sombras e neblinas
Esse processo de mudança – de um ambiente de luz e sombra para um ambiente de luz – é desorganizador da sociedade porque todos os combinados feitos na sombra perdem valor. Pelo contrário, passam a destruir valor quando vem à tona. E quem não tem algum contrato feito na sombra?

Num primeiro momento, o sentimento é de indignação, mas, aos poucos, o medo e a desesperança, alimentados pelo tanto de sombra que existe em cada um de nós, podem tomar conta. Já ouço gente expressando essa desesperança.

Para não perder a esperança, seria bom olhar para esse processo como um momento épico de transformação da sociedade e não como um momento episódico de decepção com alguns mocinhos que se revelam também bandidos ou com alguns símbolos de beleza, luxo e prazer que se revelam também feios, pobres e tensos.

É melhor reconhecer que a mudança é cultural e coletiva, por isso profunda. Que vai ter muito desarranjo e sofrimento antes que surjam claramente os sintomas da saúde dos novos hábitos e costumes. Que vai piorar antes de melhorar.

Sem essa perspectiva de evolução e aprendizado para viver num ambiente com mais luz, o quadro atual é desesperador.

Não gosto quando comparam o Lula com o Collor justamente porque sugere que a história se repete e a gente não evolui. Isso é desanimador.

Prefiro ver uma sociedade amadurecendo e se adaptando para viver num ambiente onde o convite “visite a nossa cozinha” é peça do museu da sociedade industrial. Prefiro investir no futuro da sociedade da informação do que lamentar esses ecos do passado como um presidente autista e ingênuo que não percebe que o mundo está mudando.

Enfim, vamos enfrentar os fatos, mas comemorando o processo. Afinal, é isso que nos leva para frente.

Fique com o abraço do amigo preocupado mas otimista,

Ricardo

*RICARDO GUIMARÃES, 56, É PRESIDENTE DA THYMUS. ESTÁ ENXERGANDO TUDO ESCURO, MAS CARREGA SEMPRE SUA LANTERNINHA PARA FINS DE TÚNEL. SEU E-MAIL É RGUIMARAES@TRIP.COM.BR
Ilustração Eduardo Kerges

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