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No mesmo barco

Ao descobrir que, extra-oficialmente, ainda vivemos em um país escravocrata, Duran relembra do navio que o trouxe ao Brasil

No mesmo barco

em 16 de novembro de 2006

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Posso dizer, se alguém quer saber, que pus os pés no Brasil, pela primeira vez, no dia 3 de janeiro de 1970. Foi no cais do porto de Santos. Era uma manhã úmida de verão. Com direito a céu nublado e a camisa empapada no corpo pelo suor que o calor tropical provoca, quase instantaneamente, em qualquer imigrante que tenha passado os últimos 15 dias embalado pelo ar-condicionado de um transatlântico. Naquela época não existiam os navios de cruzeiro, de hoje em dia, que parecem shopping centers flutuantes com piscinas.

Naquela época eram, apenas, navios de passageiros. O Cabo San Roque era um deles e era, também, orgulho da marinha civil espanhola, o que na verdade não quer dizer muita coisa.

Bem. Dois meses depois eu estava sentado no banco da escola, no primeiro ano do ensino médio, em São Paulo. Sem falar uma palavra de português (o que proporcionou o efeito imediato de ser reprovado no fim do semestre e a conseqüente repetição do ano). Enfim, isso não é o importante. O importante é que das poucas coisas que lembro de ter aproveitado, desses primeiros tempos na escola, para compensar minha falta de familiaridade com a língua, foi a descoberta da literatura portuguesa. Um universo até então totalmente desconhecido por mim. Machado de Assis e Eça de Queiroz foram tiro e queda.

Me fascinaram, também, os poetas Castro Alves, Fagundes Varela e Álvares de Azevedo, que, fiéis aos costumes românticos da época, formaram sem querer, de acordo com Carlos Drumond de Andrade, a Escola de Morrer Cedo.

À deriva
Entre os escritos de Castro Alves, me impressionou muito o poema “O Navio Negreiro”. Não que minha experiência cruzando o Atlântico a bordo do Cabo San Roque tivesse sido traumatizante (ao contrário, foram os 15 dias mais raros e aventureiros de minha vida), mas o fato de ter estado tanto tempo rodeado pelo mar fez com que percebesse, talvez de uma maneira diferente, os versos do poema. Além do mais, “O Navio Negreiro” mostra os horrores da escravidão de modo impressionante.

O tempo passa, o mundo gira e a Lusitana roda. Descubro outro dia, lendo o jornal, que, apesar de a escravidão no Brasil ter sido abolida há mais de um século, nos últimos dez anos foram descobertas (e liberadas) no país quase 18 mil pessoas que viviam em situação de escravidão. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) calcula que possam existir, ainda, 25 mil pessoas submetidas em condições análogas ao trabalho escravo. O barulho que você acabou de ouvir foi o do meu queixo caindo até o chão.

As linhas abaixo pertencem ao terceiro movimento de “O Navio Negreiro”, de Castro Alves.

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais, inda mais… não pode o olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador.
Mas que vejo eu aí… que quadro de amarguras!
É canto funeral!… Que tétricas figuras!…
Que cena infame e vil!… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

*J. R. Duran, 54, fotógrafo, adora viagens, cais, portos: publicou as novelas Lisboa e Santos. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br

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