por Bruna Bittencourt
Trip #274

Neurocientista Fabrício Pamplona defende o potencial da planta e trabalha para que medicamentos à base da erva possam chegar até nós

A primeira vez que Fabrício Pamplona pisou na Europa foi, ironicamente, na Holanda, onde a maconha foi legalizada nos anos 70. Aos 22 anos, estava lá para um congresso científico onde apresentou sua tese de mestrado sobre como os canabinoides (compostos responsáveis pelos efeitos da Cannabis) podem ajudar na superação de traumas. Àquela altura, a pesquisa das propriedades medicinais da planta já desenhava os rumos de sua premiada carreira. “Fiz faculdade de farmácia, tive curiosidade de saber como os medicamentos funcionam e me aprofundei nessa área”, conta o catarinense de 35 anos que estagiou em laboratórios. “Comecei por baixo, no exame de fezes”, ri o hoje doutor em farmacologia, que há alguns anos chapou em um estudo ligado a Cannabis.

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Quando cursava a Universidade Federal de Santa Catarina, em 2000, se deparou com um artigo publicado pela Nature sobre o sistema endocanabinoide (que atua para garantir o equilíbrio do organismo), uma retomada para o estudo do tema. “Literalmente dormia com ele debaixo do travesseiro”, lembra. “Nosso organismo produz substâncias parecidas com os canabinoides da maconha. Achei isso fenomenal, principalmente porque eles estão em metade dos neurônios do nosso cérebro.”

O sistema foi então tema do seu mestrado, vencedor de um prêmio da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento. “Quando todo mundo falava em dependência e prejuízo cognitivo dos canabinoides, fui um dos poucos a defender seus benefícios terapêuticos”, conta. “A Soninha [Francine] havia perdido emprego por ter admitido fumar maconha, o Planet Hemp havia sido preso [acusado de apologia às drogas], mas o professor Elisaldo Carlini [estudioso do tema há mais de meio século], um dos meus mentores, falava disso sem sofrer consequências”, conta. “Levei essa discussão para o mestrado: nós, cientistas que temos idoneidade para falar sobre temas polêmicos, devemos tratar deles. Hoje, estamos saindo do armário.”

A primeira vez

Em 2004, sua tese de mestrado foi selecionada para apresentação em seu primeiro congresso no exterior (aquele na Holanda). Fabrício vendeu seu Corsa para financiar a viagem e aproveitou para esticar até a Alemanha. Bateu na porta do autor do artigo que dormia sob seu travesseiro, no Instituto Max Planck de Psiquiatria (Munique), onde foi descoberto o mal de Alzheimer. Acabou contratado pela instituição, três anos depois, como pesquisador visitante. “Foi lá que ouvi pela primeira vez a palavra startup e vi pessoas fazendo negócio a partir da ciência. No Brasil, achava que ou seria cientista ou teria um emprego, não seria um empreendedor.”

O cenário era bem diferente na volta ao país, em 2009: “Foi o momento mais duro da minha carreira, de voltar à realidade de fazer ciência no país. Praticamente, entrei em depressão”. Fabrício se preparava para participar de um concurso para professor na UFSC, mas no dia da prova não apareceu. Ele já desconfiava que a ciência poderia ser mais útil fora da academia. Entrou como sócio em uma startup, que prospectava projetos na universidade com potencial de gerar produtos para a indústria farmacêutica.

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Acabou saindo da sociedade dois anos depois e recebeu convites para atuar no exterior. Aceitou um em Portugal para uma pesquisa do Departamento de Defesa dos EUA. Mas no dia em que desembarcaria em Lisboa, desceu no Rio de Janeiro para ser o primeiro cientista do Instituto D’Or de Ensino e Pesquisa, onde esteve por quatro anos. Era sua entrada para a iniciativa privada. “Existe vida fora da academia para um cientista.”

Quando realizava um estudo com o objetivo de obter neurônios com carga genética de pacientes que sofrem de epilepsia refratária, passou a analisar remédios à base da erva usados e trazidos por eles. “Era uma retribuição para quem estava me doando células. Estava ajudando-os a entender o que tomavam”, conta. “Vi que o sofrimento era real e as incertezas, muitas. Não posso fazer essa ciência asséptica, preciso fazer algo que importe para as pessoas. Foi aí que comecei a me interessar em trabalhar em uma indústria farmacêutica que tivesse o objetivo de produzir produtos contendo canabinoides.”

Autocultivo

Seguindo esse caminho, desde 2015 ele é diretor de desenvolvimento de produto da Entourage Phytolab, que está criando uma fábrica de medicamentos à base de Cannabis em Valinhos (São Paulo). Ele trabalha no registro do primeiro produto, que tem altos teores de canabidiol (um dos componentes majoritários da Canna-bis que não te deixa chapado e possui propriedades terapêuticas) para o tratamento da epilepsia refratária infantil – a previsão de chegada ao mercado é em 2020. A empresa tem autorização para pesquisa com a planta, mas não para o cultivo. Por isso, importam a matéria-prima da Holanda.

“Não há dúvida de que a planta tem esse poder. A discussão é sobre detalhes. Existem muito mais evidências entre as epilepsias, mas conheço casos de pessoas que sofrem do mal de Parkinson e de Alzheimer, usaram canabinoides e apresentaram melhoras; gente que voltou a falar. É impressionante.”

Ilegal

Desde 2014, a Anvisa autoriza a importação de produtos contendo canabidiol. “O marco é de 2016, quando foram incluídos o THC e flores da Cannabis, que concentram os princípios ativos da planta. O mercado de maconha medicinal se abriu. Desde lá, a única carência são os produtos feitos no Brasil. Os pacientes já podem usar, os médicos já podem prescrever, mas ninguém, salvo raríssimas exceções judicializadas, pode produzir no país. Todo o acesso é via importação, o que é um completo absurdo.” Entre essas exceções, está, por exemplo, a associação Abrace, em João Pessoa, na Paraíba. Fabrício calcula na casa de 3.000 aqueles que têm autorizações individuais para o uso de produtos à base de Cannabis para tratamento de câncer e doenças neurológicas e um número muito superior usando-os de forma ilegal.

São produções caseiras para a manufatura de remédios (e não medicamentos registrados, que têm eficácia e segurança garantidas). “Esses pacientes estão desassistidos e usando produtos incertos. Estamos vendo pais fazendo coisas com as próprias mãos, plantando”, explica, mostrando que para o uso terapêutico ou recreativo, um problema é idêntico: sem regulação, não sabemos o que estamos tomando ou tragando. Hoje só há um medicamento registrado no planeta à base de Cannabis, o Sativex, rebatizado no Brasil de Mevatyl, usado para tratar a esclerose múltipla.

O potencial da indústria, defende Fabrício, é de milhões. Além do desenvolvimento de produtos para doenças neurológicas, a Cannabis pode tratar questões relacionadas ao sono, a dores diversas e à ansiedade. “O que precisamos é de uma regulamentação da Anvisa, prometida para outubro passado pelo presidente.” Ele ecoa uma frase de Carlini: “Não existe nenhum motivo médico ou científico para que a Cannabis seja proibida”.

Créditos

Imagem principal: Alex Batista

Ilustração: Adriana Alves

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