Nada se cria, tudo se transforma

Tudo em nós é processo que só cessa com a morte

Parece que tudo quer se ultrapassar, ir além de si para algo maior, melhor, mas sem se transformar em nada diferente de si mesmo. Tudo parece querer conservar sua originalidade e individualidade, embora continue avançando em seu desenvolvimento. Acho que é “porque nada será igual ao que já foi um dia, tudo muda o tempo todo no mundo...”, como queria o filósofo Lulu Santos.

O barro ultrapassa sua forma pastosa e vira tijolo, mas ele ainda é a composição do tijolo. A areia, a pedra, a cal e o cimento unidos à água nas mãos humanas formam as grandes edificações. Mas nas demolições a poeira dos destroços é composta de areia, pedras, cimento, cal e acho que a água é a única que evapora.

A flor anseia por asas e patas de insetos para ser fecundada e se ultrapassar na semente. Essa, por sua vez, se desespera por se esparramar ao húmus no chão, receber a chuva, criar, fincar suas raízes e se fazer planta. O vegetal, se desenvolve em galhos e folhas para produzir as flores e o fruto, voltando à sua necessidade dos insetos para continuar o processo de sua existência. O frágil carvão está embaixo da rocha mais pesada, que vai comprimi-lo por milênios para chegar à sua forma mais compacta e pura: o diamante.

O espermatozóide disputa com milhares de outros uma corrida alucinante para atingir o óvulo, penetrá-lo e então se transformar em feto. O feto gruda com todas as suas forças no útero materno para desenvolver o bebê. O nenê assimila o mundo como um radar para chegar a ser criança. A criança se desenvolve na adolescência e então surge o jovem. Depois o adulto, que envelhecerá e será o ápice dessa corrida humana pela ultrapassagem. O velho se separa desta vida para o mistério da morte, a experiência mais radical que o ser humano vai vivenciar, depois do nascimento.

Nada se transforma em nada diferente. Por isso desconfio que a morte não seja tão horrível assim. Somos os construtores e o material com que construímos a nós mesmos. O estudo da história demonstra que na vida tudo é paulatino. Tudo trabalha como um recife de coral: sedimentando, acumulando em camadas sobrepostas. Somos memória e vivemos envoltos em lembranças. Tudo o que se fizer (ou deixar de fazer), aprender, sofrer ou ser feliz constituirá a base da estrutura de nosso vir a ser.

Somos transcendentes, inquietos, insatisfeitos e incompletos. Caminhamos impacientes, mesmo sem saber ao certo para que lado estamos indo. A nossa história vem da acumulação. Mentiras, verdades, tudo o que vivemos, deixamos de viver e pensamos em viver nos construiu. Tudo é processo que só cessa com a morte. Mesmo submetidos a esse limite extremo, provavelmente encontraremos nele outra forma inédita de ultrapassagem.

AQUI E AGORA

Nada é instantâneo ou fruto de autossugestão. Tudo se concretiza e substancializa pelo processo de que se lançou mão para se chegar onde se está. Os fins já não são mais determinantes como no século passado. Hoje sabemos que tudo o que temos é o aqui e o agora. O antes já era e o depois se perde nas infinitas possibilidades da existência. Os meios tornaram-se muito mais importantes que os fins porque se referem ao processo. E descobrimos hoje que o processo existencial é quase tudo na vida. O que estamos fazendo é o que importa e não o que fizeram de nós ou o que faremos.

Na edificação estão o barro, o tijolo, a areia e a pedra. Na planta, as flores, o pólen e os insetos. No diamante, o carvão, a rocha e a pressão compactante. No velho estão suas vivências, construções e experiências. Tudo transcende ao ser ultrapassado, sem deixar de ser si mesmo de uma outra maneira.

 

*Luiz Alberto Mendes, 60, é autor de Memórias de um sobrevivente. Seu e-mail é lmendesjunior@gmail.com

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