por Arthur Veríssimo
Trip #173

Arthur se embrenha no Himalaia numa aventura mística e revela os segredos do monte Kailash

Quando comecei a ver da janela do avião o majestoso relevo dos picos nevados do Himalaia, o coração disparou. O comandante da aeronave direcionava nossos olhares indicando a presença do exuberante Everest, com seus 8.848 m de altura. Contemplando de cima o Himalaia, consegui como por milagre tranqüilizar minha mente. Havia passado dias de sufoco em Katmandu aguardando o visto e uma miríade de autorizações do consulado chinês para viajar a Lhasa e outras regiões do Tibete.

Desde o início de 2008, muitas manifestações pró-autonomia do Tibete terminaram em violência e centenas de mortos. Ápice de uma situação que começou em 1950, com a ocupação chinesa no país. Em 1959, o atual XIV dalai-lama Tenzin Gyatso e milhares de tibetanos conseguiram se exilar na Índia, escapando da esmagadora invasão. Mais de 1 milhão de tibetanos foram mortos, e 6.200 mosteiros, completamente destruídos. A população vive acuada e ninguém comenta sobre assuntos políticos. É igualzinho à lei do silêncio que impera nas favelas brasileiras.

A grande maioria dos tibetanos vive marginalizada diante do monumental boom econômico que borbulha por todos os cantos da cidade de Lhasa. Segundo as autoridades chinesas, foram investidos US$ 15 bilhões em infra-estrutura. As melhorias são perceptíveis, como a qualidade das estradas, transportes públicos, habitações populares, pontes, represas e aeroporto. Aquela cidade misteriosa e romântica dos filmes e livros passa por uma transformação alucinante. A “nova Lhasa” é um emaranhado de edifícios, lojas de grife, concessionárias de veículos e uma infinidade de produtos que encontramos nos shoppings bacanudos das metrópoles brasileiras.

Circum-ambulação
Os dias se arrastavam lentamente. Tudo era difícil: respirar, andar, dormir e pensar. Não adiantava acelerar. Passava por um período de aclimatação. Lhasa está a 3.600 m de altitude e muitos viajantes sofrem do mal das alturas: dor de cabeça, náusea, falta de apetite, insônia e dificuldade respiratória. A maioria dos ocidentais se previne tomando Acetazolamida em doses diárias de 500 mg para suportar as agruras do mal das montanhas. Mas eu aproveitei o ensejo e fui fazer uma consulta no Instituto de Medicina Tradicional Tibetana. Saí do local com preciosas poções mágicas para a altitude. Nas duas semanas seguintes iríamos explorar e percorrer o platô tibetano em uma altura média de 4.000 m. Nosso destino, uma remota e inóspita área no oeste tibetano, a 1.200 km de Lhasa. A montanha mais sagrada de toda a Ásia para bilhões de pessoas: o monte Kailash.


O símbolo mítico
O monte Meru aparece no coração da cosmologia religiosa asiática e está em diversas crenças e religiões. É o pivô central, enquanto a criação acontece em seu entorno. Para bilhões de crentes – hinduístas, budistas, jainistas e bonpas –, a montanha é o pilar do mundo. O monte Meru está inserido em diversos mitos e escrituras sagradas como sendo o Kailash. Uma descrição espetacular no Vishnu Purana, texto hindu de 200 a.C., diz que “a montanha cósmica nasce a altura de 84 mil léguas no centro do universo, circundada por anéis concêntricos dos sete continentes e dos sete oceanos. As quatro faces da montanha são orientadas para as quatro direções. O leste é de cristal, o oeste de rubi, o sul é de lápis-lazúli e o norte é de ouro. O Sol, a Lua e as estrelas seguem seu curso a partir desse estonteante pivô central e suas múltiplas camadas de reinos do céu, terra e mundo subterrâneo que se espalham ao seu redor. De seu topo, o sagrado rio Ganges cai do céu e se divide em quatro grandes rios que despejam água nos quatro cantos da Terra”. A visão da montanha universal se espalhou por toda a Ásia, inspirando séculos de arte, arquitetura e literatura.


A equipe de nossa expedição era composta de dois motoristas, Tenzin e Kalu, o guia Mia, o cozinheiro Lobsang, meu compadre André Meyer e este escriba oxigenado. Viajamos em dois veículos: um Toyota Land-cruiser e um caminhão repleto de víveres, garrafas de água mineral, tubos de oxigênio, barracas e apetrechos para cozinhar. Saímos de Lhasa de acordo com o planejamento. Nossa intenção seria caminhar ao redor da montanha sagrada na lua cheia. Essa volta ao redor da montanha é chamada de circum-ambulação, uma perambulação em círculo e a pé. Os hindus chamam essa volta de “parikrama”. Os tibetanos se referem a ela como “kora”. E, para os hindus, o Kailash é a morada mítica do Deus Shiva e de sua esposa Parvati, enquanto, para os tibetanos, é o aposento de Demchog. Sua consorte, Vajra Varahi, está agarrada a ele em união sexual. Ao redor do Kailash encontram-se outras entidades sentadas em filas circulares. São no total 990 filas com 500 entidades em cada uma. Para a religião jainista, fundada 600 anos a.C., a montanha é chamada de Ashtapada e seu fundador Rishabanatha vive em seu cume em estado de meditação. E, finalmente, para os bon-pos, antiga religião pré-budismo tibetano, a montanha é a alma mística da região e é chamada de montanha da suástica. Segundo o venerável lama Anagarika Govinda, “aquele que realizar o ritual de circundar o Kailash, com uma mente perfeitamente concentrada e devota, passará por um ciclo de vida e morte”.

A primeira parada depois de 8 horas de viagem foi a cidade Gyantse distante 250 km de Lhasa. Na manhã seguinte, visitamos o monastério Pelkor Chode. Fundado em 1418, é constituído de três diferentes ordens do budismo tibetano. O complexo comporta as seitas Gelupa, Sakyapa e Kagyupa. Nos fundos de um dos mosteiros Kagyupa, entramos em um setor deveras sinistro. Era uma sala repleta de tankas e estátuas de divindades iradas. Na escuridão do local detecto duas imagens que conheço das antigas: Yamantaka e Mahakala. Dois monges enormes aparecem como por encanto de uma quebrada da sala e, com um sorriso de outras esferas, perguntam se desejo fazer alguma oferenda. Saúdo e me reverencio a Mahakala. Percebo ao lado da estátua alguns ossos recém-destrinchados e um punhado de pele e gordura animal. Minha dedução é que os monges haviam feito um despacho da pesada e eu estava ali como intruso. Para quem pensa que o budismo tibetano é paz, amor e não-violência, fique sabendo que a relação com as trevas é bastante aquecida. Deixa quieto.

Estava ansioso para chegar o quanto antes ao Kailash. Quando faltavam duas horas para Darchen, finalmente vislumbramos o maravilhoso cume prateado da montanha mítica, resplandecendo na imensidão do horizonte. As estradas por onde passávamos são obras recentes do governo chinês. Há séculos os peregrinos chegavam a essa remota região viajando a pé ou a cavalo. Levavam meses, às vezes anos, caminhando de pontos longínquos da Índia e do Tibete. O poder da montanha é inexplicável. O potencial da viagem espiritual não diminui o prazer da aventura. A peregrinação é um momento de alegria e celebração, uma quebra na rotina diária em que o mundano e o divino caminham lado a lado. Os peregrinos aceitam os obstáculos e as dificuldades sem reclamações. Mesmo a morte não os assusta, pois, se ocorrer, é motivo de grande mérito. A circum-ambulação é a lapidação de um novo ser.

Antes dos primeiros raios de sol fizemos nossos preparativos e partimos para o início da circum-ambulação (parikrama, kora, trekking) do Kailash. O circuito é de 52 km e o recomendado para os peregrinos é realizá-lo em três dias. Alguns tibetanos turbinados fazem o circuito entre 16h e 19h. É dito que uma volta completa apaga todos os pecados e mazelas desta vida; dez, os atos maléficos de várias encarnações; e 108 garantem o nirvana. Encontramos um senhor de meia-idade, empresário indonesiano que havia terminado naquele instante o circuito. No maior alto-astral, ele nos falou: “Esta é a quarta vez que realizo o kora. Não faço parte de nenhum grupo religioso, sou um free thinker [livre-pensador]. A primeira vez que realizei o trekking, estava quase na falência. Na segunda, a prosperidade já havia retornado para os meus negócios e vida. A partir de então venho para esta montanha para andar e meditar. Sempre trago um conhecido para este território mágico. Desta vez trouxe meu sobrinho, que ainda não apareceu. Cada centímetro da rota está repleto de poderoso simbolismo”, diz ele antes de arrematar: “Podemos sentir e admirar o Kailash por todos os ângulos, lados e direções. Cada aspecto tem um significado para decifrarmos. Você vai experimentar. A lua estará cheia nesta noite. Boa fortuna”.

A idéia era caminhar 20 km até a entrada do mosteiro de Dirapuk. Nosso primeiro pitstop foi em Tarboche. Nesse local ocorre, na lua cheia de maio, um dos mais importantes festivais no Tibete: o Saga Dawa, celebração da iluminação do Buda Sakyamuni. Imensos mastros cobertos por bandeirolas de rezas e fitas coloridas espalham-se por toda a entrada do vale. Espremido por dois imensos paredões, caminhávamos por um deserto de cascalhos. Meus pés marchavam em um ritmo seco e uniforme. Os pensamentos se misturavam com o uivo constante do vento.

Ponto nevrálgico
O sol ainda irradiava seus raios na face norte do Kailash quando chegamos à porta de entrada do monastério Dirapuk. Uma senhora surgiu e nos acomodou em um quarto logo abaixo do salão principal do monastério. Acordei por volta das duas da madrugada e fui contemplar a lua cheia. Após um tempo de meditação, o abade do mosteiro apareceu e nos convidou para tomarmos um Bo-cha. Essa bebida tem um gosto amargo e os tibetanos a bebem diariamente. Seus ingredientes são: leite e manteiga de iaque, sal e chá verde concentrado. A bebida auxiliava a manter o corpo aquecido e alimentado, pois a temperatura extrapolava os -5 °C.

Antes do amanhecer já estávamos prontos para o dia mais desgastante de todos. Iríamos subir até o Drolma-la, a parte mais alta da rota, a 5.630 m de altitude, e dormir no Zutulpuk, monastério distante 18 km do nosso ponto de partida. Quando estavámos a 5.330 m, chegamos a um ponto nevrálgico da caminhada, Shiva-tsal, que representa, no rito de passagem, o momento da mortificação. Roupas, objetos, chumaços de cabelo dos peregrinos são deixados para trás. Já o renascimento aconteceria um pouco mais acima, no Drolma-la. 


Pioneiros
O Kailash e o lago Manasarovar permaneceram desconhecidos para o mundo ocidental durante séculos. Os primeiros europeus que passaram pela região foram os missionários jesuítas padre Ippolito Desideri e Manuel Freyre. No inverno de 1715, eles cruzaram o oeste tibetano, seguindo o curso do rio Tsangpo (Brahmaputra) até Lhasa. No caminho, passaram pelo lago Manasarovar e uma enigmática montanha escondida sob as nuvens. A montanha era o Kailash. Um século depois, o monte se tornou a peça-chave de um quebra-cabeça geográfico, que intrigava exploradores europeus. No começo de 1812, uma grande expedição do inglês William Moorcroft despertou o interesse dos britânicos pela região. Desde então, aventureiros, caçadores de tesouros e amantes da natureza percorrem o Tibete à procura de mistérios entre vales, montanhas e nascentes de rios.


Caminhava com uma energia fenomenal. Fazer o kora é como passar por uma máquina de lavar espiritual. Um verdadeiro trabalho de cura operava no meu corpo e espírito. No fim da tarde, chegamos ao monastério Zutulpuk (caverna dos milagres) e caímos no sono. Na terceira e derradeira etapa, as dificuldades haviam se dissipado e descemos flutuando pela trilha. A atmosfera irradiava uma força tão benéfica que problemas outrora considerados insuperáveis se dissolviam a cada respiração.

Finalizamos a romaria na belvedere dos Deuses, com o lago Manasarovar e o Gurla Mandata, com seus 7.694 m de altitude. Naquele ponto percebi a transparência da natureza, e conscientemente me beneficiava dos maravilhosos efeitos da atmosfera, pelo simples fato de estar lá, em paz. Qual é o segredo do Kailash? A razão de toda essa ligação entre o ser humano e a montanha? Afinal, o Kailash não é mais sagrado que nenhum outro lugar do mundo. Somos nós que o fazemos assim. Como um espelho, a montanha reflete de volta a divindade que temos em nossa alma. Reaprendemos a andar, olhar, escutar, respirar e se conectar. Essa sensação de liberdade sem fronteiras é um presente enigmático do Kailash, pois quem espera encontrar o sagrado no meio do nada, em um lugar tão alto?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LIVRE PARA SER DIFERENTE
Por Lia Diskin*

Paciência tem limites – mesmo a do dalai-lama. Em 27 de outubro passado, seu secretário particular, Tenzin Taklha, informou à imprensa internacional: “O dalai-lama perdeu a esperança de encontrar uma solução com o atual governo chinês, que, pura e simplesmente, não deseja resolver a questão do Tibete”. Após décadas de negociações diplomáticas nas Nações Unidas, e ao cabo de seis encontros oficiais entre representantes do dalai-lama e autoridades governamentais de Pequim, os tibetanos continuam sendo cidadãos de segunda classe na sua própria terra natal, cujo meio ambiente se vê ameaçado pela crescente indústria de mineração, contínua transferência de população chinesa de outras regiões e políticas públicas que não levam em consideração o frágil ecossistema do Himalaia.

Esses encontros entre ambas as partes foram iniciados em 2002, com a proposta da “abordagem do caminho do meio” oferecida pelo dalai-lama, pela qual os tibetanos teriam garantias de proteção e preservação de sua cultura, religião e identidade nacional; os chineses, a segurança e integridade territorial do país; e os países vizinhos, fronteiras e relações internacionais pacíficas. Portanto, o que se pleiteia é autonomia no exercício do direito básico de viver a própria identidade – questão esta que ninguém põe em dúvida, visto que o Tibete abriga uma etnia singular, com língua, escrita, cultura e religiosidade próprias. Esse direito inalienável foi violado em setembro de 1949, quando a China ocupou o leste do país. O governo do Tibete manifestou protesto às Nações Unidas, todavia, a Assembléia Geral protelou sua decisão, atendendo a pedidos de nações-membro.

Em março de 1959, o décimo quarto dalai-lama, Tenzin Gyatso, com pouco mais de 23 anos, abandonou Lhasa e pediu asilo na Índia. Foi acompanhado por mais de 80 mil tibetanos. Jawaharlal Nehru, então primeiro-ministro da Índia, o recebeu sem reservas. A tragédia no Tibete ainda estava para começar... Em 25 de agosto de 1966 a assim chamada Revolução Cultural chegou ao Tibete: 1 milhão de tibetanos morreram vítimas de fome, lutas, torturas, trabalhos forçados e execuções. Seis mil mosteiros e templos foram devastados, convertidos em estábulos, acampamentos militares, banheiros públicos e depósitos de mercadorias. Florestas inteiras derrubadas, queimadas. Lagos sagrados foram poluídos. Objetos de arte e de culto foram roubados, vendidos no mercado internacional ou destruídos. Tudo que fosse referência e sustentáculo da identidade tibetana foi deliberadamente profanado com o claro propósito de apagar quaisquer vestígios das tradições milenares alimentadas por um povo sem exército formalmente equipado ou treinado.

A frustração e o ressentimento acumulados nos últimos 50 anos levaram às manifestações pacíficas de 10 de março passado, quando mais de 500 monges dos mosteiros de Drepung e Sera demandaram respeito e liberdade de culto em caminhada silenciosa. Os protestos e as marchas reivindicatórias irromperam de maneira progressiva em mais de 170 localidades do Tibete e das áreas tibetanas incorporadas às províncias de Sichuan, Gansu, Qinghai e Yunnan, com a participação de mais de 30 mil tibetanos. Essa onda de protestos diários e inéditos na história recente do Tibetee se estendeu até 25 de abril, deixando um saldo dramático de 203 mortos, mais de mil feridos e, até o momento, 5.715 detentos que estão sendo “julgados” com penas que vão de três anos de reclusão até prisão perpétua – o custo de exercer a liberdade de expressão na República Popular da China!

A inquietação da juventude tibetana – tanto a que vive no País das Neves quanto a que foi educada no exílio – e os levantes ocorridos recentemente motivaram a reunião do dalai-lama com lideranças religiosas e civis tibetanas no exílio, ocorrida em Dharamsala (Índia) de 17 a 22 de novembro passado, quando foi discutida a necessidade de implementar novos mecanismos que possam garantir a preservação da singularidade de uma cultura que já ofereceu demonstrações inequívocas de compromisso com a não-violência, a compaixão e o cultivo da simplicidade que permite admirar as coisas essenciais da existência. O mundo todo aguarda as conclusões desse encontro, em que estão em jogo não só as liberdades do povo tibetano mas o próprio coração dos Direitos Humanos Universais.

* Lia Diskin é jornalista, co-fundadora da Associação Palas Athena, responsável pelas três visitas do dalai-lama ao Brasil, em 1992, 1999 e 2006. É criadora de dezenas de programas culturais e socioeducativos e coordenadora do Comitê Paulista para a Década de Paz – um programa da Unesco.

Agradecimentos:

 

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