Logo Trip

Louco

Quem seria eu hoje caso não houvesse cometido as loucuras que me condenaram a tantos anos de dor?

em 19 de dezembro de 2005

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

Ao ouvir a "Balada do Louco" com Os Mutantes, fiquei muito comovido. Parece, explicava meus momentos de auto-incompreensão. Porque, para mim, tudo que poderia ter sido ainda é bem possível. Sou tudo o que jamais planejei ser e nada daquilo que supus seria.

Toda verdade sobre mim é que não cheguei nunca a lugar nenhum porque para mim não havia um lugar. Tudo sempre foi invenção e, com certeza, não de minha autoria. A vida caminhou sobre meus passos, sempre à frente. Havia a consciência de não ser "normal", como todos os outros. Parece segui outros tambores sem ao menos perceber onde me levavam.

Até onde errei em ser assim, quero me perguntar. Mas vejo quão absurda é a questão, já que não poderia ser diferente. Apenas seguia e aquele, por pior fosse, era o meu caminho, irreversivelmente. Aos olhos dos que me observavam de camarote (ninguém se arriscou em me seguir), eu sempre fui meio que maluco. Inconseqüente, no mínimo.

Feliz? Nem sei. Segui doendo, sofrendo, aos trancos e barrancos, mas vivo, inteiramente vivo. A normalidade me parecia abjeta, a regularidade me causava náuseas. As pessoas não podiam me acompanhar e desde cedo desisti de ser entendido. Foram poucos os sorrisos e as alegrias, mas sempre apaixonados. Jamais acreditei na felicidade como me falavam. Minha vida sempre esteve totalmente cheia de mim para que pudesse me preocupar com isso. Invadi a vida de minha existência e jamais consegui ser senão eu mesmo.

Tudo era completamente confuso, noite fechada de negro. E de repente ficava claro qual o brilho fresco dos astros. Jamais me bastou a realidade e me doía estar preso ao instante. De todo perdido, mais me perdia a querer entender por que tudo para mim fora tão diferente. Jamais tive pares. Pensei solitário, angustiado e entranhado nessas palavras todas que tento dizer.

Algumas pessoas dizem que perdi mais de trinta anos na prisão. E eu fico me perguntando o que seria ganhá-los. O que seria ter vivido esses anos igual a todos? Seria possível para mim? O que seria eu hoje, caso não houvesse cometido as loucuras que me condenaram a tantos anos de dor? Alguém diferente do que sou? Se fosse, muito obrigado; não quero. Atravessei até o fim o túnel dos esquecimentos e me alimentei de abandonos. Minha cara foi quebrada e os cacos esparramados pelo chão. Estive devastado mas reconstrui minhas chances com minhas próprias mãos.

Quando perguntada sobre qual a qualidade um homem precisava ter para interessá-la, uma grande atriz respondeu que este homem necessitava possuir história. Ou seja: conteúdo, vivência. Talvez isso seja tudo que tenho. Não estou com a alma na cara estampada. Não sou transparente; estou denso, fértil e cheio de palavras para dizer. Enchi minhas horas de substância enquanto me perdia, desencaixado. Nunca consegui ser mais uma engrenagem da máquina, mesmo quando me cercaram quilômetros de silêncio.

Mesmo aqui fora minha vida não é fácil. Luto muito para sobreviver e sustentar os que dependem de mim, ainda. Há sempre uma aflição que me inquieta, uma insegurança enorme quanto ao dia de amanhã. Tenho filhos pequenos e os vivo em mim como a chuva, instantaneamente. Muitas vezes tenho pesadelos que caio em uma queda sem fim, sem chão. Mas já aprendi que o segredo é sempre mais um passo e os estou dando, embora os olhos secos como as pedras do chão.

Ainda contradizendo a norma geral, vivo do que escrevo. Envolto em áspera melancolia, sigo teimosamente enquanto o sol rasga as nuvens com suas asas de fogo. Estou para aquilo que perdura, nesse oco dentro da garganta que faz engolir em seco. Tudo me parece sempre tarde, mas persigo, lanhado de existência, a melhor expressão, não a mais perfeita, mas aquela que possa ser captada de imediato. Uso as palavras como o vento a derrubar as folhas secas, fertilizando.

Procuro pensar e peço desculpas para quem espera de mim uma lucidez contínua. Quem busca conselhos no que escrevo, perdeu tempo em me ler. Mal consigo levar minha vida, refém do dinheiro, carente de afetos e cheio de problemas que parecem maiores que minha capacidade de solucioná-los. Nem sempre consigo ser meu, apenas vou sendo vida que se cumpre, mastigando inquietudes e engolindo ansiedades.

Não, eu não sou feliz, embora não seja normal. Não sou simplista e não aceito maniqueísmos. Não existem normais e loucos, apenas. Somos todos mais ou menos insanos, perdoem-me aqueles que não concordam, mas faz parte da condição humana. Todos os tidos por "normais" surtam às vezes. A própria idéia de normalidade é um enorme contra-senso. E aqueles mais acentuadamente malucos ainda criam, inventam e transformam. Van Gogh; Napoleão; Nietzche; Artaud; entre tantos, são exemplos.

Estou vivo, disposto a produzir e amar. Acho que isso é tudo que um homem pode fazer, em meio a sua insanidade.

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon