LITERATURA DE PREGUIÇOSO
Tenho o prazer de poder repartir com os leitores o nascimento de mais um cronista
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Acho que foi o Luis Fernando Veríssimo que declarou outro dia aqui mesmo no JT, numa deliciosa matéria sobre o tipo de trabalho que procuramos apresentar nesta coluna: ‘Crônica é literatura de preguiçoso’. Pode até ser verdade, mas garanto que o motivo que me leva sob licença a reproduzir o artigo de autoria de Fernando Andrade, não é a preguiça, mas o prazer de poder repartir com os leitores o nascimento de mais um cronista, seja ele preguiçoso ou não. Fernando tem 18 anos, é estudante de Administração de Empresas e filho do jornalista Mario de Andrade (de saudosa memória), o que reforça as suspeitas de que certas virtudes são transmitidas pelo código genético.
VOCÊ E O TIRADENTES
No mínimo, fale inglês fluente. Saiba tudo sobre a Internet. Leia dois jornais por dia, faça MBA no exterior, recicle-se. Essa é a tônica dos conselhos dados para quem quer fazer sucesso com terno e gravata. Ela faz parte de uma cultura disseminada pela imprensa, pelas escolas e por palestrantes em geral que dizem algo como: ‘O grande satã vêm aí; prepare-se!.’
Ele não é americano, japonês ou russo, mas, sim, um misto disso tudo: a competitividade. Vira e mexe, aparece mais uma matéria nova em alguma capa de revista com conselhos novos de como se dar bem: estude naquele país, fale tantos idiomas, saiba X de informática que o seu salário se multiplicará por Y.
A partir daí, quem está preocupado com o futuro começa uma corrida rumo à frustração: corre pra um curso do tipo tortura inglesa, vai para o cursinho estudar para entrar em uma faculdade e por aí afora. Como diria a revista Trip, em uma foto com um cara pendurado por anzóis: ‘PRA QUE ISSO?’
Para ganhar dinheiro, é claro. Ok, mas para gastar quando? Com 40, 50, 60 anos? Tudo bem que ‘a vida começa aos 40’, mas, em uma previsão otimista, se vivermos 80 anos, quer dizer que deveremos purgar 40 para gozar – com viagra – os outros 40. Parece até aquela promessa de ir para o céu, se você não pecar. Ou seja, você passa ½ da sua vida preparando-se. Preparando-se pra quem? Para você, sua empresa, mas nunca para nada além de um punhado de umbigos.
Não se discute o fato de aprender inglês, informática ou qualquer outra coisa, mas o como e o quando se aprende.
Uma das cenas mas freqüentes e frustrantes da vida de todo estudante brasileiro – inclusive da minha – é quando ele vai tirar uma dúvida de determinada matéria com os pais, independentemente das credenciais deles, e eles respondem: ‘Não lembro.’ Não lembram porque o tempo se encarregou de mostrar que aquele conhecimento era inútil. Não lembram porque o ensino de ciências no Brasil é uma piada, ou ainda porque a História do Brasil, ensinada nas escolas regulares, é um monte de besteiras. Um exemplo é a estória do Tiradentes, que foi desenterrada -e recriada- por alguns militares de acordo com as suas necessidades de arranjar um herói para o Brasil. Não existe sequer registro da imagem do dentista, por isso colocaram a foto de Jesus para representá-lo.
Surge ainda outro problema: antigamente o que se aprendia na escola era o básico, um apanhado do que se sabia no mundo. Só que hoje se sabe demais, e os educadores não foram capazes de ‘resselecionar’ o que ensinam. É como querer conhecer a Internet pesquisando por ordem alfabética.
Por exemplo, geralmente nas aulas de História do Brasil, o período da ditadura é ministrado no final do curso, ao passo que o tempo dedicado às capitanias hereditárias ou a revoluções inócuas é imenso. Que é mais importante para um cidadão: saber quem se comportou e de que modo, num passado recente, ou o enredo da história da descoberta do Brasil?
Pior ainda: para pleitear uma vaga em uma universidade como a USP, você é obrigado a evacuar uma série de fórmulas inúteis e ler vários resumos de vários livros, violentando obras literárias ao máximo.
Vencida a corrida, o sujeito embarca no universo brasileiro de negócios, que nada parece com aquele apreendido, a não ser se combinado com outro curso de política.
As revistas dirigidas a executivos mostram bem o terror de quem trabalha ou quer trabalhar com empresas. A única diferença dessas publicações em relação às revistinhas de meninas é que a primeira menstruação foi trocada pelo primeiro MBA, mas a linha auto-ajuda permanece. A impressão que se tem ao ler a revista, recheada daqueles conselhos, é de que se precisa correr atrás do prejuízo. É o que se faz no decorrer da vida, ao se aprender inglês e adquirir outros conhecimentos que as escolas não ensinam ou ensinam mal. É o que o Brasil faz com relação ao seu ensino.
O mais intrigante nessa revista é que todo os ‘conselhos’ orbitam em torno do ‘eu’. É o que o Brasil faz mais uma vez. Do modo como as coisas andam, uma dessas revistas cujo título traz o final em S.A. – Sociedade Anônima – vai ser o mais fiel retrato da próxima geração do empresariado brasileiro: uma sociedade de anônimos. Anônimos incapazes de se diferenciarem uns dos outros, formados precariamente por cursos ‘band-aid’ que só olham para o eu.
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