Liberdade ainda que tardia
Melhor ter vida longa com liberdades restritas ou morrer cedo tendo vivido intensamente?
FOTO ARQUIVO Marcos Vilas Boas
De volta para casa, aquela que fora de minha mãe e que agora é minha e de meus filhos, esbarrei em um complexo problema de ordem filosófica. Amo cães. Fui criado com uma cachorra que se tornou a maior amiga de minha infância, a Dinda. Idealizei, por décadas, ao sair da prisão, criar cães em um sítio. Ao adentrar no quintal de casa, encontrei um desses mestiços poodle, com a coleira amarrada a uma corrente chumbada na parede. Seus pêlos estavam sujos, emaranhados. Seu olhar era triste. Aquilo me pareceu injusto. Tentei conversar com meus filhos e a mãe deles. Após inflamado discurso libertário, a resposta me surpreendeu.
Também sentiam dó do cãozinho, mas havia dois pro-blemas em deixá-lo solto. Seria necessário tosá-lo e higie-nizá-lo. Depois, seria preciso alimentá-lo com ração e não mais com restos de comida. Não havia dinheiro para tais despesas extras. Pelo menos não até aquele instante. Claro, tirei do que não posso, paguei a tosa e comprei o maior sacão de ração. O cão voltou pelado, cor de rosa e cheirando a talco. O bichinho ficou solto, correndo pelo quintal, enlouquecido de alegria.
Fui passar o fim de semana na casa de minha sobrinha. Quando voltei, a notícia me foi atirada no rosto, qual um crime. O cão havia sido atropelado e morto a alguns me-tros do portão de casa. A liberdade ensandecera o animal. Sempre que se abria o portão, o bichinho escapava correndo ao menor vacilo. Quando me contaram essa característica do cão e o perigo que era a rua de casa, afirmei que seria melhor que morresse mesmo a ficar ali acorrentado na parede. Mas agora, diante de fatos, reflito. Seria mesmo melhor que morresse a ficar ali preso? Não quis que me matassem quando estive condenado a uma centena de anos de prisão. Lutei desesperadamente para sobreviver e consegui. Atravessei o túnel inteiro e estou aqui fora.
O que me fez sobreviver e esperar? Havia uma voracidade de viver que jamais me permitiu acomodações. Sempre tive que enfiar a cara e isso me levou a novas vidas. Tenho livros publicados por grandes editoras e outros a serem editados. Todos escritos na prisão. Mantenho essa coluna há mais de três anos. Fui obrigado a inventar espaços e ocupá-los todos. Caso contrário, a angústia e o desespero me destruiriam.
A comparação não é absurda. O que, exatamente, faz com que minha vida seja mais importante que a daquele cãozinho? Porque possuo razão? Bolas para minha capacidade de raciocinar! A razão, unida à liberdade, tem infeli-citado o homem e está acabando com o planeta. Nesse caso, a liberdade foi fatal para o cãozinho. Se continuasse preso, viveria o resto de sua vida reduzido a dois metros quadrados. Penso que sempre que há vida, há esperança. Sempre poderia escapar se alguém abrisse a corrente. Mas meu coração usa um outro tipo de visão, o da emoção. Não foi melhor morrer assim, livremente? E você, o que acha? Que atitude tomaria?
*Luiz Mendes, 50, há três anos escreve para a TRIP. Mendes cumpriu a pena máxima prevista pela justiça brasileira, 30 anos, por assalto e homicídio, e hoje vive em Barra do Piraí (RJ), ao lado de sua companheira, Oneida Borges. Seu e-mail é: l.mendesjr@ig.com.br
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