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JUCA KFOURI E O HOMEM DE MARLBORO

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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O alazão negro reluz no meio da cena num final de tarde de calendário japonês. A fogueira pipoca no chão suas labaredas altas. O vaqueiro, com o rosto marcado pelo tempo, deixa o chapéu cair, revelando sua vasta cabeleira cor de mel. O cavalo abaixa o pescoço e pega o chapéu com o canto da boca, sorrindo para a câmera ao som de uma sinfonia de exaltação com graves e agudos equalizados milimetricamente. Uma voz de cachê milionário afirma com charme e autoridade: ‘Venha para o mundo de Marlboro…’, o final apoteótico vem com a advertência do Ministério da Saúde. O frame azul da advertência logo dá lugar ao excelente clip da banda Fugees, recriando ‘Killing Me Softly’, que, segundo consta, seria a retribuição de Carly Simon à música ‘Your Song’, que lhe foi dedicada por James Taylor em pleno processo de separação do casal nos anos 70.
Tudo estaria lindo, se o tal comercial não estivesse enfiado no meio da programação da MTV, a mesma emissora que há alguns anos tornou público o motivo da demissão da VJ Daniela Barbieri: sua participação num comercial de cigarros contrariava as leis da emissora.
Policy internacional? Só as deveríamos aceitar se realmente concordássemos com elas, correto? Uma coisa é o editorial, outra é o comercial? Esta idéia é mais ultrapassada que Chico Anísio. Além do mais, sempre caberá a pergunta: ‘Por que o cigarro prejudicaria a imagem da VJ se é bom o suficiente para ser oferecido à audiência?’
Lembro-me de ter recebido há dois ou três anos um belo material de divulgação do novo posicionamento da revista Capricho. No folder, colorido e bem paginado, a revista assumia posições definidas e cheias de personalidade. Dali por diante, entre outras coisas, não veicularia mais anúncios de cigarros e bebidas alcoólicas. Brilhante. No próprio editorial, a publicação passaria a desencorajar o uso de substâncias prejudiciais à saúde como estas. Isto seria personalidade, opinião e coerência, não fosse por um pequeno detalhe. Na porta ao lado, os colegas da redação de Playboy preparavam seus testes anuais de degustação de cerveja, uísque e vodka, e reservavam a quarta capa para a publicidade dos cigarros Camel.
Lembro-me da revolta de gente séria como Francisco Madia de Souza e Juca Kfouri ao se depararem com a edição da revista da TVA, que enaltecia as maravilhas do campeonato de futebol organizado pela batuta do cartola Farah, apenas algumas semanas depois de Veja São Paulo tê-lo desmascarado, apontando-o como um dos maiores tumores do esporte nacional. ‘Por acaso’, a TVA acabara de negociar os direitos daquele campeonato com o dito cujo.
A revista Veja gasta mais de 1 milhão de capas para mostrar o absurdo da distribuição de renda no país, revelando mansões de milhões de dólares encrustadas no país dos gabirus. Se fechassem os focos de suas objetivas, quando fotografavam os tais palácios, os fotógrafos de Veja correriam o risco de flagrar seus colegas de ‘Caras’, em pleno trabalho, registrando coleções de tapetes persa, casais gordos em jacuzzis ou andando desajeitados à beira das piscinas, encolhendo as barrigas.
Independência editorial? Ou, como diria a mãe de um amigo do alto de sua família quatrocentona decadente, ‘o mais puro jogo de interésses’ (com assento no ‘e’ do meio)?
Se há algo claro nas tendências para a virada de milênio, é o óbvio refinamento e a nítida evolução da consciência da parte bem alimentada da população. Não será mais tão fácil enganá-la. Opinião e atitude clara serão cobradas de quaisquer empresas, pessoas físicas ou entidades.
Quem não disser exatamente a que veio e não reafirmar esta crença em TUDO QUE FAZ, TODO TEMPO, terá aos poucos que repensar seus métodos e rever estratégias, sob pena de se tornar uma gorda e assustadora estatística.

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