por alexandre matias
Trip #239

”Estou encantado com o lançamento do filme. Como disse o Cacá Diegues, quando viu o material bruto: É o último filme tropicalista do cinema brasileiro”

Aos 47 anos, Guilherme Fontes garante que a hora chegou: ainda em 2015 vai finalmente lançar seu Chatô, o Rei do Brasil. Acusado de desvio de verba pública para realização do filme (em produção desde 1995), o ator vem sofrendo seguidas derrotas judiciais - a última e mais grave, há menos de um mês. Mas não joga a toalha. Na entrevista a seguir, fontes fala da luta quixotesca que vem travando para conseguir botar na rua um filme que já é capítulo incontornável da história do cinema nacional. Se nas histórias de aventura, o xis marca o lugar onde se deve cavar, Guilherme diz sentir-se "um náufrago que, depois de anos e grandes tempestades, chega à costa carregando o seu tesouro".
 

De cartola, fraque e cuecas, o olhar azul calmo, Guilherme Fontes diz estar cansado. No dia anterior a esta entrevista, o ator teve mais um recurso negado pelo Tribunal de Contas da União e teria de pagar aos cofres públicos a soma astronômica de R$ 83.060.215,13. Trata-se de uma versão corrigida dos R$ 8,6 milhões que captou no fim dos anos 90 para realizar sua estreia como diretor e produtor: o filme Chatô, o rei do Brasil.

A história que envolve o projeto é, por si só, um épico. Faz pensar em sagas como a dos filmes inacabados de Orson Welles (caso de The Other Side Of The Wind, rodado entre 1970 e 76, e nunca lançado). Ou na amalucada adaptação de Dom Quixote que o britânico Terry Gilliam tenta levar a cabo há 25 anos – suas idas e vindas renderam até um documentário, Lost in La Mancha, dirigido por Keith Fulton e Louis Pepe.

A verdade é que Chatô se tornou uma obsessão para Fontes. O ator, que voltou à TV Globo e hoje vive o personagem Mario na novela Boogie Oogie, passou os últimos 20 anos tentando trazer seu filme à luz. De nome ascendente no show business brasileiro, se viu transformado numa espécie de pária do desvio de dinheiro público. "Fui perseguido", diz, e garante (uma vez mais): Chatô está pronto e deve ser lançado no início de 2015. "Eu me sinto como um náufrago que, depois de anos e grandes tempestades, chega à costa carregando o seu tesouro", diz, enquanto ajeita o fraque, que teima em entortar.

Galã da geração 80, Guilherme Fontes fez sua estreia em Ti ti ti (1985), telenovela de Cassiano Gabus Mendes. Na sequência, veio o cinema, com A cor do seu destino (1986), de Jorge Duran, e dois longas dirigidos por Cacá Diegues, Um trem para as estrelas (1987) e Dedé Mamata (1988). Mas foi com Bebê a bordo (1988), telenovela de Carlos Lombardi, que conheceu o sucesso – consolidado com o papel de Dilermando de Assis, o assassino do escritor Euclides da Cunha, na minissérie Desejo (1990) e com o personagem Alexandre da telenovela A viagem (1994).

Apesar do início bem-sucedido, Guilherme queria estar atrás das câmeras. Em 1994, leu a biografia do jornalista e empresário das comunicações Assis Chateaubriand, o Chatô, escrita por Fernando Morais, e ficou alucinado. Apaixonado por Fellini, Polanski, Scorsese e companhia, decidiu que transformaria aquela história num filme – mas não sabia que, a partir dali, era sua vida que seria transformada.

HERZOG ANIMADO

Foi o início de uma trajetória de emoções e tensões, movida a acusações e gestos icônicos, como convidar Francis Ford Coppola para a direção do filme. E, segundo Guilherme, foi também o início de uma campanha de difamação, uma verdadeira "tortura social", uma "conspiração dos tubarões do cinema nacional contra um estreante atrevido". Ele é categórico ao reforçar que foi vítima, listando pareceres e auditorias, dando nome aos bois e assumindo os próprios erros. E diz estar certo de que suas contas estão corretas e que só falta achar um distribuidor para, finalmente, tornar o filme público e encerrar esse capítulo de sua trajetória – que é também um dos mais intrigantes da história do cinema brasileiro dos últimos 50 anos.

Pouca gente até agora teve acesso a Chatô dirigido por Fontes. O documentarista João Moreira Salles foi um deles. "Assisti há um tempo, não era uma versão final, faltavam algumas sequências que o Guilherme esperava filmar assim que conseguisse captar novos recursos. Não sei se ele conseguiu. Para fazer um juízo, precisaria ver de novo", comenta Salles. "O que posso dizer é que o dinheiro captado parecia estar todo na tela. O filme me pareceu interessante na medida em que expressava uma obsessão, a dele, com esse projeto. Era altissonante, bombástico, caótico e maluco – os adjetivos vão usados no melhor dos sentidos. De uma ambição que deixaria Herzog animado", fala, referindo-se ao autor do épico Fitzcarraldo.

Chatô se tornou uma obsessão para Fontes, que passou os últimos 20 anos tentando trazer seu filme à luz

Na entrevista a seguir, Guilherme repassou o longo percurso feito pelo seu filme – que tem no elenco nomes como Andrea Beltrão, Paulo Betti, Leandra Leal, Eliane Giardini, Gabriel Braga Nunes, além de Marco Ricca, que vive o personagem principal. A compra dos direitos, a pré-produção, os subprodutos do projeto (que incluem até um sitcom), os detalhes da captação, o início das filmagens, o linchamento moral e os quase 15 anos para encerrar um projeto que começou a ser rodado em 1999 – Guilherme falou sobre tudo isso, vez ou outra interrompido por telefonemas de seus advogados.

A cartola nas mãos, o fraque descansando na cadeira. Chatô, ele diz, terá dez pré-estreias para convidados em dez cidades diferentes, "para ver como o público reage". Depois serão mais dez sessões para os patrocinadores, até, finalmente, ser lançado comercialmente.

Ao final da conversa, acompanho-o no carro até o aeroporto de Congonhas. Logo que saímos em direção à avenida Brasil, seu celular toca mais uma vez. "Não, mãe", responde, "cabe recurso, sim, não vou ter que pagar isso." Desliga o celular, e não esmorece. "Sou carne de pescoço", diz.

Trip. E aí, no olho do furacão? Guilherme Fontes. É, né? Pra variar.

Pra variar ou esse é um momento mais tenso? É mais tenso, não só por conta da inconveniência desse assunto aí [a decisão judicial que o condena a pagar cerca de R$ 83 milhões, por ter captado dinheiro para um filme nunca lançado], mas porque finalmente vou botar o filme na rua.

Você tem como pagar essa dívida? Eu captei 8, 6 milhões para o filme, em recurso público. E comprovei 11,7. Ou seja, coloquei, em recursos próprios, cerca de R$3 milhões a mais. Esse afã da imprensa em forjar contra minha honra é, entre outras coisas, porque estou fazendo um filme em que o personagem principal, um jornalista, forja contra a honra de muitos ilustres, por muitas décadas no Brasil. Só pode. Gente louca, invejosa, criminosa, covarde. Eu não sou dono de jornal, rádio ou TV, nem de agência de notícias. Vivo somente com o que produzo como artista. Sou pessoa física, pago impostos sobre o que produzo. Não devo nada a ninguém.

Mas a dívida existe, como vai ser? Em 2001, todo recurso investido no projeto foi checado, conferido, nota fiscal por nota fiscal, por uns quatro ou cinco órgãos federais de controle interno e externo. Tudo de forma truculenta, ilegal, deliberada e negligente pelo Ministério da Cultura e pela Comissão de Valores Monetários da época. Durante três anos, proibiram o filme de seguir captando. Mesmo tendo recebido pareceres do Tribunal de Contas da União e da Advocacia Geral da União para continuar, com a difamação pública perdi contratos, clientes, patrocínios. Fechei quatro empresas, uma calamidade. Em 2008, um novo processo foi criado, maldosamente, pela Ancine do Manoel Rangel, através de outro órgão de controle interno. Induzida a erro pela Ancine, a Controladoria Geral da União levou novamente o caso adiante, o Tribunal de Contas julgou sem se ater ao primeiro processo. Já entramos com embargos cabíveis e está em andamento.

A alegação é a de que o filme não existe. E, portanto, você tem que devolver o que captou, com juros e correções. A Ancine, nas mãos do Manoel Rangel, por longos 12 anos nada fez para que se restaurasse a verdade sobre o projeto. Sabendo que apresentei a obra e recebi o Certificado de Produto Brasileiro da prórpria Ancine em 2010, criou esta panaceia jurídica para confundir a todos. O intuito era claramente me prejudicar. Mas eu não sou idiota, nem amador. Muito menos sou um derrotado. Eu sou carne de pescoço, como se diz por aí. Sou de Capricórnio, sou da terra. Em três anos produzi 24 documentários, 13 debates, uma minissérie para TV, instalei no Rio uma empresa de finalização desenhada pelo Francis Ford Coppola. Desenvolvemos o roteiro daquele que talvez seja, modestamente, o filme mais falado, aguardado e comentado de todos os tempos da história do cinema brasileiro. Eu me sinto como um náufrago que, depois de anos e grandes tempestades, chega à costa carregando seu tesouro.

Que dia estreia o filme, comercialmente? Não tenho data, mas queria o quanto antes.

Você ainda vai mexer? Versão do diretor... Não, não! Não tem versão do diretor! Acabou, chega! Eu estou legal. Já foi. Gastei muito da minha vida nesse negócio. Porra, 20 anos! É um exagero, nem sei como esse tempo passou, nem vi esse tempo passar. Eu estava preparado para um ano sabático em 2000, 2001, porque eu ia acabar o filme em 2000! Vou tentar agora. Quero lançar o filme.

Quem já viu o filme? Mostrei para o Cacá Diegues, que ficava sempre reclamando que eu não mostrava para ele e me escreveu uma carta linda. Depois eu mostrei para o João Moreira Salles, que queria que eu mostrasse pro Mario Sergio Conti. Mostrei para o Coppola também, que fez resenha, comentário, me mandou corrigir isso, não esquecer daquilo, as passagens de tempo e que tudo tinha de ser bem claro. Ele não entendeu direito essa coisa do Brasil de ter esses personagens meio escrotinhos, a gente endeusava os escrotinhos. Acho que fiz um roteiro legal, diferente, a forma de contar é diferente.

"Eu era o bom aluno da família. No mais, muita praia, Maracanã – sou flamenguista –, futebol na rua, na escola, na praça"

Vamos voltar na história: quem são seus pais? O que eles faziam da vida? Minha mãe cresceu numa fazenda em São Fidélis e foi do Colégio Sion. Casou com meu pai aos 17 anos e em dez anos fez sete filhos. Sou o sétimo filho. Ela é a segunda de três filhas, de um par de avós que foram nossos verdadeiros pais quando minha mãe se separou. Ela tinha 28 anos, estava divorciada com sete filhos. Sempre teve cara de princesa e um humor fantástico. Depois, viveu por 24 anos com outro homem, médico, amigo de todas as horas lá em casa. Meu pai é filho único de uma família tradicional de Petrópolis. Fez mais três filhos em outro casamento. Meu bisavô paterno era um cientista famoso. Vai ver daí vem a minha inquietude.

Em que bairro você cresceu? Sou do Jardim Botânico, zona sul do Rio. Um lugar provinciano, perto de uma praça. Minha vida foi estudar dois anos em escola pública e depois oito anos como bolsista semi-interno no São Bento. Era o bom aluno da família. No mais, muita praia, Maracanã – sou flamenguista –, futebol na rua, na escola, na praça. E também gostava de namorar pelos prédios do bairro. Ali entrei pro Teatro Tablado, depois pro cinema, depois pra Globo. Adoro a área, continuo no mesmo lugar há 47 anos.

E como surgiu o interesse pela carreira de ator? Comecei a me interessar por teatro ainda no São Bento. Meu irmão me levou para assistir a um curso de teatro, eu gostei e entrei. Em 82 eu já estava no mundo. Entrei para o Tablado, fiz peças infantis com meu grupo, muitos deles estão aí até hoje: Marcello Novaes, Malu Mader, Mauricio Mattar... Em 86, fiz meu primeiro longa-metragem [A cor do seu destino], dirigido pelo Jorge Duran. O filme foi montado na produtora do Cacá Diegues, que me chamou para um teste e eu passei.

Você não tinha feito TV. Não tinha. Só uma figuração, em 85, na novela Ti ti ti. Depois voltei com [a minissérie] O pagador de promessas, em 87, e fiz mais um filme com Cacá (Dedé Mamata, de 88), quando fui pra Cannes. Foi o máximo esse ano. Em 88, estreei Bebê a bordo, e o personagem, que era uma frase na sinopse, explodiu. Depois fiz um personagem muito interessante e que me deu muito prestigio também, na minissérie Desejo, da Gloria Perez, sobre o Euclides da Cunha. Mas eu queria produzir, sempre quis produzir e ser diretor de cinema.

E no auge da fama você casou com a Claudia Abreu. É, a gente tinha 21 anos, foi demais. A gente ficou cinco anos juntos; muitas festas, muita diversão, muita coisa.

Você viveu o auge da sua fama no auge da cocaína no Rio de Janeiro. Teve envolvimento com drogas? Nunca tive problemas. E sou a favor da descriminalização de todas as drogas. Com o Estado tomando conta de tudo e controlando a produção e os usuários, em parceria com a iniciativa privada.

A saga do Chatô começou depois da separação? Mais ou menos essa época. Antes eu fiz uma peça no teatro chamada Eu odeio Hamlet, como produtor. Uma turnê gigante, 20 cidades. José Wilker era o diretor, tinha o Luis Gustavo, um monte de gente legal, o Jonas Bloch... Depois, em 92, produzi a peça Desejo, com a Vera Fischer e o Juca de Oliveira, uma experiência fabulosa. Eu era sócio da Vera na produção, mas era eu quem fazia tudo. A gente viajou, ganhei um excelente dinheiro. Foi nessa época da minha separação, me lembro que comecei a ler o Chatô. E fiquei muito impressionado, muito. Com a radiografia do caráter do Brasil.

O que você conhecia daquela história? Nada, zero. Sabia da TV Tupi, mas não sobre o Chatô. Fiquei chocado, impressionado, fascinado. No meio da leitura, eu pensei: "Caralho, é isso!". Aí, estou sentado ali no Plataforma [restaurante no Rio] com dois amigos, de repente um deles me cutuca, o Eric Nepomuceno, escritor, que eu tinha conhecido em Cuba.

Quando você foi a Cuba? Em 87, foi meu primeiro momento político profundo. Passei 20 dias no festival de cinema lá, conheci o Fidel, foi incrível. Vi que Cuba era um país feliz e o Brasil, alegre. Eles não são tão alegres e a gente não é tão feliz. Bom, o Eric me cutucou e disse: olha quem está ali. Era o Fernando Morais. Levantei e falei: "Que livro! Fiquei muito impressionado". Conversamos um pouco e então ele se despediu e foi sentar numa mesa próxima, onde estava o Barretão [Luiz Carlos Barreto, produtor de cinema]. Falei: "Puta que pariu. O Barreto vai comprar a porra dos direitos do livro e, mais uma vez, vai fazer um filme chato". Levantei, inquieto, fui até a mesa deles e disse: "Fernando, me dá seu telefone, queria muito conversar com você".

Na frente do Barretão. Na frente do Barretão. Fui pra casa, vi o quanto tinha e quanto a Globo pagava pra um grande autor. E disse ao Fernando Morais: "Olha, não sei exatamente o que vou fazer, pretendo fazer um longa-metragem. Não sei que empresa vou criar, não tenho ideia. Mas eu preciso começar com seu livro. Se a Globo paga X, eu vou te pagar 2 X. E você, por favor, se aceitar, pede pro Barretão parar de falar no jornal que comprou o livro".

Isso foi em que ano? 1994. Fiz tudo direitinho: peguei, comprei, analisei, estudei, comecei a resumir o livro inteiro. E passei o ano de 95 inteiro bolando o projeto. Criei o projeto que seria a base de tudo que me fez captar o dinheiro. Eu dizia que o Brasil pesquisa mal, pré-produz um pouquinho melhor, filma bem, finaliza mal e lança pior ainda. Uma curva totalmente equivocada. O projeto que eu es- tava inventando previa dividir o processo nessas cinco fases e cada uma delas geraria um subproduto que geraria uma mídia e essa mídia levaria ao segundo milhão. Foi perfeito. Ninguém nesse país conseguia captar nem 2 milhões em um ano e eu fui dobrando: um, dois, quatro, oito. Nesse meio-tempo os projetos foram saindo, os documentários pro GNT. Chatô é um projeto multimídia, nunca foi só um longa-metragem. O jornal ficou enganando todo mundo quando dizia que eu não tinha feito nada, que sumi com o dinheiro. Pô, não fiz nada pra quem? Eles não têm TV a cabo?

Não sabia nada sobre o Chatô. Fiquei chocado, impressionado, fascinado. No meio da leitura, eu pensei: "Caralho, é isso!"

O que foi exatamente para o GNT? Os primeiros sete capítulos do Chatô em documentário (Dossiê Chatô). O Walter Lima dirigiu, eu produzi, depois fiz mais cinco capítulos sobre Getúlio Vargas, cinco dias que abalaram o Brasil. Um ano depois abri outro projeto que era uma continuidade, sobre a história do Brasil. Chamava-se 500 anos de história do Brasil. Então eram dois projetos: um era o projeto modelo, o Chatô, e o outro era o 500 anos, uma multiplicação do Chatô por 50. Uma coisa pra vida toda. Pega a história real, produz o documentário, estuda-se bem, financia-se o roteiro com esse dinheiro, aí o tema vira pano de fundo para um sitcom na TV, uma espécie de docudrama. Não existe uma videoteca sequencial sobre história do Brasil. Conseguimos produzir 12. Chatô nunca foi um filme só, sempre gerou mais de um produto.

Você fala em uma campanha contra você, contra a sua honra. De quem? Por quê? Tenho dito sempre isso, o crime não foi tributário. Não existe crime tributário, de desvio, de nada. Existem crimes passionais, vários. Eu sei muito bem quem são e por que fizeram...

Explica isso. O que eu posso dizer é isso. Os amores da vida que você vai largando, perdendo, deixando, esquecendo, não olhando, não percebendo. Incrível como isso tem uma influência definitiva na sua vida. As paixões que você deixou...

Você ter conseguido tanto dinheiro despertou inimigos? Em 1997 já havia uma inquietação com meu êxito de captação. Eu estava captando muito rápido e com muita eficiência. E isso criou um constrangimento nas pessoas que iam pedir dinheiro. Aí em 97 eu resolvo montar uma empresa de finalização e entra o grande X do lance, o que matou a oposição de inveja, fulminante, barra-pesada. Foi quando resolvi montar a empresa com o Coppola, a ZoeBra, uma filial brasileira da empresa que eles têm em São Francisco [Zoetrope]. Fiz um contrato com ele em que 80% daquela grana era para a empresa. Porque os filmes passam, a empresa fica. Eu quis que ele dirigisse o filme, mas ele queria fazer um filme de US$50 milhões e eu não tinha tempo para esperar.

Como você conheceu ele? Eles vieram fazer uma palestra no Brasil, na Finep [Financiadora de Estudos e Projetos], e fui assistir. Na verdade veio o vice-presidente da empresa [a Zoetrope]. Fiquei muito impressionado. Acabou o seminário, eu virei pra ele e disse: "Quer montar uma empresa no Brasil?" E ele: "Você vai pagar, financiar?". "Tá legal, eu monto." Nem a Finep, nem os agentes imaginavam que eu fosse realmente conseguir. O fato é que em janeiro eu o trouxe pro Brasil, ele veio com a família, ficaram comigo 20 dias. E a mídia caindo em cima. O que deveria ser bom, criou um problema. No dia em que contratei o Coppola, encontrei a Marluce [Dias da Silva, diretora geral da Rede Globo entre 1998 e 2002] e contei a novidade. Ela me demitiu 30 dias depois. Fui demitido com um mês de contrato da Globo, que eu tinha acabado de renovar por três anos.

Mas por que você foi demitido? Queriam me demitir por justa causa. Disseram: "Você não está aceitando fazer novela". "Que novela?" "Novela tal." "Novela tal? Não fui convidado para essa novela." Houve um constrangimento e fui demitido. Sem justa causa, pagaram o resto do contrato inteiro até 99. Entre 97 e 99 instalei a empresa do Coppola; em seis meses, trouxe 2 toneladas de equipamentos novos, de avião. E a imprensa dizendo que eu tinha comprado equipamento usado, que o cara tinha me enganado.

Nisso você já estava filmando? Não. Em 98 a empresa foi criada e eu ainda fiz os documentários e mais um sitcom, chamado O caudilho e o jagunço , que também deve ir ao ar agora. É sobre uma redação de jornal, um grupo de comunicação local e eles repassam histórias semanais, da vida real. Uma redação dos anos 50 repassando as histórias que eu estava pesquisando como pano de fundo. Mas aí acaba 98 e o ministro da Cultura, Francisco Weffort – ou "Weffraco" –, me diz: "Ou você começa o filme ou eu vou tirar o seu dinheiro". Mas eu ainda tinha que captar 5 milhões. A gente teve essa reunião e eu falei: "Vocês estão ficando malucos? Eu não captei tudo". E eles: "Não, não, Guilherme. Acabou. Ou você filma ou nós vamos tirar o seu dinheiro". Eu já estava preparado para filmar, estava tudo em ordem, só que faltavam 3 milhões para filmar, fora o dinheiro do lançamento, que também estava dentro do orçamento. Faltavam 5,5 milhões. Eles me pararam no meio sem nenhuma justificativa. E aí em 99 estourou o dólar. O país quebrou, Fernando Henrique, diz a lenda, comprou a reeleição, ficou tudo dominado. E o segundo mandato foi o que foi, o horror. Aí eu comecei a rodar em fevereiro.

Quando você decidiu que iria dirigir, e não só produzir? Convidei o Daniel Filho, num encontro em Nova York. Eu disse: "Daniel, vamos lá? O Coppola está esperando a gente". E ele: "Não vou poder, Guilherme. Eu vou dirigir a Globo Filmes". Aí voltei pro Brasil e decidi que ia dirigir eu mesmo. Porque no final das contas eu estava fazendo isso para um dia virar diretor. Chamei o Murilo Salles para ser o meu superassistente de direção, fiz a melhor equipe do Brasil, coloquei os melhores nos melhores lugares e vim dirigindo. Nunca tive um problema no set, nada. Naquele ano fiz 16 cenas do filme. Aí o Brasil quebrou e eu tive de parar. Chegou janeiro de 2000, o Zé Álvaro Moisés [secretário nacional do audiovisual entre 1998 e 2002] fez um documento que não dizia nada com nada, mas que parava o filme, dizia que o filme ia ser entregue a outra produtora. Era uma afronta. A obra audiovisual é minha, o direito autoral é meu, fui eu que fiz. O dinheiro é público, mas a obra é minha.

Mas foram encontradas irregularidades nas contas? Como ele não conseguiu em 99 fazer uma auditoria, mandou a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) fazer. Mandaram os fiscais pra rua, pelos morros cariocas, por todos os lugares onde as empresas que prestavam serviço pro filme tinham sede. E claro que eles encontraram dezenas de assuntos, mas que não tinham a ver comigo. Se o cara me passou uma nota fraudulenta, não é minha responsabilidade. Meu advogado me aconselhou a pegar cinco dessas notas e denunciar pra polícia, pra eu afastar o conluio. Afastei o conluio, aí veio a UnB, que fez uma auditoria gigantesca, e mostrou que eu estava com tudo em cima, tudo certinho. Depois desisti, fui embora, viajei de férias. Fiquei seis meses de férias enquanto o Tribunal de Contas da União fazia a vistoria.

E essa vistoria resultou em quê? Eles encontraram notas inidôneas, menos
de 1% do valor do projeto, e uma transferência de dinheiro para outro projeto, que era o 500 anos. Mas esse valor era excesso de dinheiro que eu tinha colocado no Chatô e estava me ressarcindo, repassando pro outro processo. É dinheiro meu. Nenhum cara desvia dinheiro e depois coloca dinheiro do próprio bolso. Isso não existe! E isso foi o que o Ministério Público do Tribunal de Contas concluiu, contrariando o da Comissão de Valores Monetários, e mandou reabrir minha captação imediatamente.

Não tem versão do diretor! Acabou, chega! Eu estou legal. Já foi. Gastei muito da minha vida nesse negócio. Porra, 20 anos! É um exagero, nem sei como esse tempo passou

E com essa liberação você voltou ao trabalho. Final de 2001, eu tinha perdido dois anos! E em março de 2002 saiu finalmente o certificado. Mas não queriam nem atender a determinação do Tribunal de Contas, foi preciso ligar para três ou quatro políticos influentes. E eu exausto. Aí no final do ano eu consegui que a Petrobras me desse um aditivo para que eu pudesse fazer essas semanas de filmagem que faltavam. Era tão cruel... a turma de baixo da Petrobras ficou com tanto ódio de ter continuado, de eu ter vencido no Tribunal de Contas, de não ser aquele bandido escroto como muita gente queria, que me faziam sair do set todo dia para pegar os cheques pessoalmente na Petrobras. Fui muito humilhado. Lembro de ficar chorando pelos corredores da Petrobras, pela humilhação e pela filmagem parada.

Mas, e aí, você concluiu? Consegui filmar mais uma semana e pouco. Como meu processo de incentivo estava aberto, em 2003 a Petrobras resolveu que não ia pagar o resto do contrato. Não consegui sacar o dinheiro. Alegaram que eu estava no Cadastro de Inadimplentes, não tinha nada a ver. Aí ficaram até 2005 me enrolando, quando a diretoria da Ancine mudou. E eles me cassaram definitivamente a autorização para captar. Mas, quando eu vi que o governo federal ia bloquear a Petrobras, fui em cima do Cesar Maia no Rio de Janeiro. E consegui. Em 2004 consegui que o dinheiro saísse, mas o dinheiro entrava na conta da Rio Filmes e a Rio Filmes devolvia o dinheiro pro tesoureiro, não me dava de volta. Falei: "Caralho, por que vocês estão fazendo isso?". E eles: "Você não precisa mais filmar". Eu disse: "Olha, vou fingir que não estou ouvindo vocês. Vou pra casa. Vocês têm que me pagar. O contrato está assinado".

E o que aconteceu? Fiz dois meses de pré-produção e filmagens, lá no Sul, sem um real. Aí a Rio Filmes vem e coloca como produtora delegada alguém que nunca foi ao meu set de filmagem. Ela nunca apareceu no set. O papel dela era ir no set, conferir a filmagem, chegar em casa e receber minhas notas fiscais, carimbar e mandar. Ela carimbou as notas três meses depois. Mas eu consegui fazer de graça durante dois meses e aí quase consegui acabar o filme em 2004.

Como era a reação das pessoas envolvidas na produção? A equipe? Ninguém entendia nada. Todo mundo recebeu, e muito bem. Eu paguei sempre muito direito porque eu não admitia pagar menos do que o melhor, afinal eu estava fazendo o melhor. As filmagens nunca tiveram nenhum problema. Os problemas aconteceram em 2002 e 2004, quando o dinheiro não chegava. Sempre fiz questão de que nada faltasse a ninguém. Esse não foi o meu erro, foi meu acerto. Não sei fazer diferente.

Mas não houve desconfiança? Claro. Mas eu sou muito franco. Dizia muito claramente: "Ó, é a Mariza Leão, anotem aí o nome dessa mulher, é ela quem não está carimbando as notas. E vou te dizer mais: ela foi paga com um valor que eu não autorizei. Então, se há um desvio no projeto Chatô foi o pagamento dessa senhora". Mas é a Mariza Leão, a moça de sucesso, "a" produtora...

E na sua cabeça, o que se passava? Você pensou em desistir? Eu aguentei, com a consciência tranquila. Mas vi que era tudo uma farsa montada mesmo, para me tirar do jogo da disputa pelo dinheiro público, pelo incentivo. O ator, né? Que é uma peça que já sai na frente por ser conhecido... Que começa a ser encarado pelos outros produtores como uma ameaça. Atores-produtores são muito poderosos em todos os lugares do mundo. Mas eu cansei. Em 2004 eu cansei e voltei pra Globo.

Quando foi o ponto final do filme? Em 2010, quando fiz a cópia pra Ancine. Entre 2007 e 2010 eu fiquei montando. Aí fiz a entrega da cópia em 2010, mas comecei a achar que eu não podia abrir mão das coisas que eu havia planejado, daquelas duas últimas semanas de filmagem que faltavam. Agora sim, vou lançar o filme completo. Eu optei pela parte mais difícil, que foi contar a história toda. Eu não contei um trecho. A versão de 2010 tinha 1 hora e 53 minutos e eu consegui levar para 1 hora e 41. Tô superfeliz, é um épico. E eu consegui.

Você fez essas últimas filmagens que faltavam neste ano? Dei um jeito de fazer, eu precisava daquelas duas últimas semanas no filme. A computação gráfica no ano 2000 era coisa de um US$ 1 milhão, hoje é quase nada. Mas depois que voltei pra Globo não fiz mais filmes, fiz filhos! Minha filha nasceu

em 2005 e meu filho em 2008. E minha cabeça mudou completamente. Eles são muito mais importantes do que qualquer coisa. Sou muito ligado a eles. Apesar de eu ter me separado de novo no ano passado [de Patrícia Lins e Silva]. Os filhos deram nova dimensão para o amor. E amor incondicional é o melhor.

A separação tem a ver com todos esses problemas com o filme? Imagine, claro que não. Estamos evoluindo. Ela casou muito cedo, aos 19 anos. Eu fiquei muito tempo casado. No total são 21 anos de vida conjugal, dos meus 47. Ela viveu 16 anos da vida dela casada. Estamos com filhos maravilhosos, somos uma família. Tudo está na medida do normal.

O filme atrapalhou suas outras relações pessoais, amizades? Quem sempre ficou do seu lado e quem se afastou? Assisti de tudo. Os atores me respeitam e me tratam com muito carinho, somos muito cúmplices. Teve gente sumindo, gente curiosa, os desavisados, gente compadecida, todo tipo. E muita gente má. Vixe, como tem gente má nessa vida, sô! Gosto de dizer que no mundo temos uns 20 % de anjos apenas, o resto se mata por aí se for o caso.

Você tomou remédios ou fez terapia no auge da pior fase com o Chatô? Entrou em depressão? Isso é muito pessoal. Estou indo bem. Resiliente. Me emociono muito fácil, mas não desisto, não.

Você é religioso? Minha religião são três coisas: a ciência, a matemática e os sentimentos.

Uma vez o filme lançado, limpa sua reputação? Será? Não sei. Eu acho que o estrago foi feito. Mas o tempo resolve tudo. Acho que se o filme for legal pra caramba vai ser o maior barato. Mas os porcos continuam soltos, eles e seus filhotes.

Quando Chatô tiver finalmente estreado, quais serão seus próximos passos? Reabrir a minha empresa, ver se vale a pena continuar o projeto original de produção de documentários. E ficar aberto para esse maravilhoso novo mundo de produção independente.

Que grande lição você tirou dessa história toda? Jamais faria um filme sem o dinheiro todo na conta. Foi meu único problema. O dinheiro tem que estar 100% na conta. A lei permite usar mesmo que você não tenha 100%, isso está errado. Sair pra captar é legal e você envolve outros personagens no processo. Por outro lado, você coloca pessoas que não têm nada a ver com o processo pra decidir sobre o negócio. Tudo bem que você precisa de anunciantes, mas não pode condicionar à existência desses patrocinadores a obra cultural do país. As pessoas já estão começando a usar dinheiro próprio e esquecendo do incentivo.

O que podemos esperar de Chatô? Estou encantado com o lançamento do filme. Acho que fizemos um grande trabalho. Como disse o Cacá Diegues, quando viu o material bruto: "É o último filme tropicalista do cinema brasileiro". É uma grande homenagem ao cinema novo, ao modernismo, a tudo que admiro. Ao Fernando Morais pelo grande livro que escreveu. Não sei por que os figurões do cinema vieram me satanizar. Eu sou produtor pra brigar por mais espaços, mais empregos para a nossa classe. Fui até o fundo do poço por esse filme. Mas tinha mola lá embaixo. Valeu a pena.

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