Febre Amarela
Documentário sobre a visita dos jogadores da seleção ao Haiti mostra a recepção dos jogadores, recebidos como deuses no país

Por Cassiano Elek Machado
Um grito. Do meio de uma montoeira de pessoas, quase todos negros, quase todos pingando sob um sol alto e mole, sai um grito: “Ronaldo, eu morreria por você”. A declaração de amor emerge de uma multidão, braços e pernas, que se reúne em Porto Príncipe, capital do Haiti, para ver um furacão passar. O Katrina atendia pelo nome de Seleção Brasileira de Futebol. Era um agosto fervilhante, o de 2004, e os canarinhos baixavam no país mais pobre das Américas. Raro episódio de diplomacia futebolística explícita, a expedição dos Ronaldos ganha agora um retrato cinematográfico. Ele atende por O Dia em que o Brasil Esteve Aqui, documentário de Caíto Ortiz e João Dornelas que será exibido pela primeira vez durante a 29º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (21/10 a 3/11).
Com pouco mais de uma hora, a produção vai muito além dos gols que o guarda-metas Fénelon Gabart teve de engolir. O Dia em que o Brasil Esteve Aqui se esmera nos preparativos da população local para receber os jogadores amarelos. Escutam desde anônimos, como o rapaz que afirma que foi Deus quem mandou o escrete a Porto Príncipe (e no Haiti, aprende-se com o filme, a seleção canarinho vive no Reino do Senhor), até o então “bem na fita” presidente Lula, que dispara um “O futebol brasileiro é uma água benta”. Ele não foi o único abalado pelo ufanismo haitiano. “Essa alegria, o olhar, o sorriso, o coração eu só vi nos momentos em que a seleção foi campeã do mundo”, afirma Parreira em preleção no vestiário do jogo. Oba-obas à parte, O Dia em que o Brasil Esteve Aqui encontra fôlego para exibir o olhar crítico de alguns intelectuais do país caribenho à presença verde-amarela em suas terras (que começou com a chefia da delegação da ONU presente no país). Vem de um cronista esportivo de lá o golpe mais contundente, uma patada à “Roberto Carlos”. “Existe o hard-power [modelo expansionista americano] e o soft-power. O Brasil simboliza o soft-power. O Brasil é a potência mais perigosa do mundo porque ela é capaz de aprisionar um país por meio do soft-power”, diz Patrice Dumont. E assim foi. Soft, soft. Brasil 6×0 Haiti.
Na foto acima, um tap-tap, tipo de ônibus comum no Haiti, decorado com imagem de Don Dodô, como Ronaldo Fenômeno é conhecido no país, que visitou com a Seleção Brasileira, tema de O Dia em que o Brasil Esteve Aqui
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