por Lino Bocchini
Trip #216

A ONG referência mundial que mantém praias limpas e ajuda as populações locais

O lixo estrangeiro encontrado no litoral baiano inspirou Fabiano Prado Barretto a criar a Global Garbage. Uma década depois, a ONG é referência mundial na preservação das praias e não apenas tem salvado a vida de mamíferos marinhos e mantido areias mais limpas, mas melhorado a vida da população praieira

A visão de embalagens ou garrafas PET na areia é só uma pequena amostra do criminoso e globalizado problema do lixo marinho. Moradores têm sua cota de responsabilidade, é verdade, mas, em boa parte, o lixo encontrado nas praias brasileiras vem de longe. Muitas vezes, trazido por correntes oceânicas, viaja milhares de quilômetros, até aportar por aqui. “A mesma corrente que ajudou Amyr Klink em sua travessia do Atlântico também traz toneladas de lixo para o litoral brasileiro, majoritariamente para a faixa de mar da Bahia”, conta o fotógrafo Fabiano Prado Barretto, que fundou em 2003 a Global Garbage, ONG patrocinada pela Lighthouse Foundation da Alemanha e que hoje mantém uma série de projetos e ações dentro e fora do Brasil, todos voltados para minimizar o impacto do vasto rol de dejetos que é genericamente chamado de lixo marinho.

A sujeira na areia é apenas o mais flagrante entre os danos. O lado mais cruel talvez seja a morte anual de centenas de animais marinhos por conta da ingestão de sacos plásticos ou embalagens confundidas com algas, lulas ou outro alimento. Não há censo oficial dessa carnificina e a real causa da morte só é conhecida por meio de uma autópsia, o que raramente ocorre. Mas, para se ter uma ideia, segue a lista de mortes noticiadas pela imprensa em outubro último e cuja causa tenha sido comprovadamente o lixo marinho: na Praia Grande (SP), dez tartarugas-verdes não resistiram à ingestão de objetos plásticos; duas outras apareceram mortas em João Pessoa (PB) e mais duas em Icapuí (CE); um golfinho surgiu morto no Piauí, com objetos no estômago. E, por muito pouco, 3 tartarugas, 11 pinguins e 4 lobos-marinhos não se foram em Rio Grande (RS) após a ingestão de lixo – foram resgatados agonizando, para serem tratados e devolvidos ao mar dias depois. Em um registro internacional, o corpo de um cachalote de 17 metros de comprimento foi encontrado no mar Egeu, e a autópsia encontrou cem sacolas plásticas em seu aparelho digestivo.

Outra preocupação é o lixo produzido nos navios em viagem. Aí entra o lado político da entidade, um lobby ambiental. Até ano passado não havia legislação detalhada sobre o lixo de barcos e navios. “O correto é a autoridade portuária conferir quanto de lixo foi produzido em cada embarcação, levando em consideração o tempo que o navio ficou no mar e o tamanho da tripulação”, explica Fabiano. A atuação da ONG junto a uma série de agentes (autoridades portuárias, Anvisa, marinha etc), ajudou na formulação da legislação inédita. O lixo produzido em navios, por lei, requer a mesma atenção do lixo hospitalar. “Imagine se um navio asiático traz dejetos contaminados com o vírus da gripe aviária, por exemplo, e esse material vai para um lixão comum. Causaria uma epidemia em poucos dias.”

 

Em 2001, Fabiano fez uma caminhada pelo litoral norte baiano e apanhou e catalogou dezenas de embalagens de 26 países diferentes em uma faixa de apenas 10 km de praia. O trabalho foi parar até no Jornal Nacional e tornou-se a semente da Global Garbage

 

Casado com uma alemã e morando em Hamburgo, Fabiano está preparando um monitoramento internacional do lixo marinho, conectando autoridades e informações da comunidade de países falantes da língua portuguesa. É o tipo de trabalho que foi feito no Brasil e que pode subsidiar legislações e demais atos governamentais de combate aos dejetos jogados ao mar. “Estamos virando referência internacional e levando essa discussão aonde ela não existe, como, por exemplo, Angola.” Nessa mesma frente, a Global Garbage mantém relação próxima com a Unep, órgão das Nações Unidas para a defesa do meio ambiente – Fabiano foi convidado para participar do painel da Unep na Rio+20 e sua ONG traduz livros do órgão da ONU para o português.

Turismo, prostituição e folia

No distante verão de 2001, Fabiano caminhava pelo litoral norte da Bahia e ficou chocado com a quantidade de lixo estrangeiro na areia. Na primeira delas, catou e catalogou dezenas de embalagens de 26 países diferentes em apenas 10 quilômetros de praia. O trabalho foi parar até no Jornal Nacional e tornou-se a semente da Global Garbage, que hoje tem atuação em Hamburgo (onde Fabiano coordena as ações globais) e no litoral baiano, aonde chega a maioria do lixo marinho, trazido pelas correntes. Com uma década de atuação, a ONG desmembrou-se e gerou filhotes como a Capitães de Areia, a Associação de Surf e Salvamento Aquático da Linha Verde e o projeto Lixo Marinho, todos sediados na Bahia.

Muito da atuação desses braços é junto à comunidade local e extrapola a questão do lixo. Lá atrás, logo no começo do seu trabalho, Fabiano percebeu que os moradores e turistas brasileiros não tinham ideia da importância da participação deles nessa cadeia. “Ficavam bravos quando sabiam do lixo que vinha da Europa, mas jogavam uma latinha no mar durante um passeio de ferry boat.” Hoje esse trabalho de conscientização está avançado, chegou às escolas, rendeu frutos e diversificou-se, por exemplo, na forma de cursos de formação da população carente local. “A Onda Verde forma profissionais para o setor de turismo, evitando que esses jovens caiam no tráfico ou na prostituição masculina e feminina, muito forte principalmente perto de resorts.”

Em outro campo de atuação, uma iniciativa pessoal recente de Fabiano que fez barulho foi a Fundo da Folia, em parceria com os também surfistas baianos Bernardo Mussi (campeão brasileiro de longboard em 1993) e Francisco Pedro. Nos últimos três Carnavais, o trio registrou uma montanha de latinhas de cerveja, abadás e outros dejetos que tomavam o fundo de toda a faixa de mar de Salvador nos dias de festa. As imagens correram a internet e chamaram a atenção da Ambev (que já patrocinou o Carnaval por meio da Skol e hoje o faz pela Brahma), que contratou mergulhadores para ajudar na limpeza, instalou pontos de coleta e fez acordos com associações de catadores.

Pranchas na luta

Em meio a essa teia de ativismo, entra o surf. Antes da Global Garbage, Fabiano trabalhou de 1991 a 2000 na União dos Clubes Escolares de Surf, a Uniclubes, que também ajudou a fundar. Lá, conheceu e viu nascer a carreira de grandes nomes do surf nacional, como Danilo Couto, Marcio Freire e Yuri Soledade. Os três moram no Havaí e são conhecidos como mad dogs por serem os pioneiros em pegar no braço ondas gigantes que, até então, eram encaradas apenas no tow-in, ou seja, com o reboque de um jet-ski. Danilo, Marcio e Yuri, além de outros expoentes baianos como Roberto Vieira e Armando Daltro, usam adesivos da Global Garbage de graça em suas pranchas, difundindo a causa. O próprio Fabiano, para combater a abstinência de mar na vida alemã, tem feito remadas cada vez maiores. Empreende longas jornadas de stand up pelo rio Elba e agora prepara-se para travessias maiores, como a entre a ilha francesa da Córsega e a italiana Sardenha. Mas não perde o foco: “Mesmo aqui tem muito lixo no mar e nos rios”.

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