Eu, a maconha e o Elieser
Nosso colunista relembra medos, delírios e o triste fim de um valentão filho de rabino

O Elieser era filho do rabino Pinchas e morava na rua Newton Prado, no bairro do Bom Retiro. O Elieser era mais velho e eu tinha uns 15 anos quando fomos juntos comprar um fumo na boca do Risadinha, um negão banguela que de tanto servir judeu maconheiro sabia até falar ídiche.
O Elieser era um mito no Bom Retiro. Ele era forte e bom de briga. Andava com um chaco na mão e era o único judeu enturmado com os malacas não judeus da rua Barra do Tibaji. Na Hebraica diziam até que ele tinha revólver. Apesar de me sentir um cuzão ao seu lado, a figura dele me fascinava e eu sempre fiz de tudo para ser seu amigo.
Compramos um tijolo de maconha paraguaia, um quilo de manga-rosa, que dividimos em bolsinhas de galo (que valiam 50 contos), gambia (100 contos) e duque (200 contos). Meu negócio não era a grana, era só revender pros amigos, fumar de graça e poder contar que eu andava com o Elieser, na vã esperança de ter um mínimo de status com a turma dos mais velhos.
Ficou decidido que eu guardaria o bagulho. Mocosei o lance no meu armário, na gaveta onde eu escondia as revistas pornográficas e os meus tfilim*. Uns dias depois, volto pra casa da aula de inglês e vejo a minha mãe jogando o fumo na lixeira do prédio. Consternada, ela gritava: “Você é completamente podre!”. Eu, que já era considerado um rapaz problemático, virei um caso médico. Fui levado para uma terapia de grupo. Era uma babaquice que andava na moda nos anos 70 chamada “análise transacional”.
O meu grupo era formado por um contador anoréxico, uma dona de casa recentemente traída pelo marido, uma lésbica palmeirense, um dono de frota de táxi maníaco-depressivo e daí por diante. A tal da terapia era o seguinte: alguém que estava mal sentava no meio de uma roda e cada um dos membros do grupo era encorajado pelo terapeuta a elogiar a pessoa.
Eu adorava quando era a minha vez de ficar lá no meio do grupo, ouvindo que eu era precoce, simpático e inteligente. Mas quando chegava a minha vez de elogiar os outros eu não conseguia. Era um bando de fodidos, não tinha nada de positivo a dizer a respeito deles. E o meu maior problema nem Freud poderia resolver: o Elieser estava me ameaçando. Ele me esperava fora da escola, querendo dar porrada caso eu não devolvesse o fumo ou a grana.
Passei a ter medo da minha própria sombra. Parei de ir ao treino de futebol de salão no Clube Macabi e não ia mais em baile aos sábados. De noite me torturava com pesadelos sempre estrelados pelo Elieser. No meu desespero recorri a Deus. Abria a Bíblia e olhava para o céu rogando a Deus que me salvasse da ira do Elieser.
SOCO NO KIBE
Eu estava na esfiharia na esquina da rua Prates com a Três Rios e o Elieser me pegou por trás. Esmagou o meu kibe com um soco na mesa e deu uma joelhada no meu saco. Foi o Garrinchinha, o garçom da esfiharia que tinha moral com os malucos, quem me salvou, afastando o Elieser. Ele saiu da esfiharia ameaçando: “Se não pagar até a semana que vem aí, sim, é que vai chover porrada”.
Mas Deus ouviu as minhas preces. Naquela mesma semana correu um boato pelas ruas do Bom Retiro: o Elieser tinha sido preso. Depois soube-se que o Fleury, que era chefe da Polícia Militar, tinha um cunhado judeu. Esse tal cunhado freqüentava a sinagoga do rabino Pinchas, pai do Elieser. Soube-se depois que o rabino tirou o Elieser do xilindró e levou-o direto para o aeroporto de Viracopos, de onde o Elieser foi mandado para Israel.
Uns 15 anos depois, fui almoçar com a minha família num domingo no restaurante Ganz, na rua Guarany. Lá eles serviam comida ídiche e o proprietário era da mesma aldeia de onde os meus avôs vieram, na Polônia.
De repente vejo o Elieser com os seus pais entrando no restaurante. O rabino Pinchas veio à nossa mesa cumprimentar meus avôs. Enquanto as famílias conversavam, o Elieser ficou me encarando. E eu, mesmo depois de tantos anos, senti aquele mesmo tremor nas minhas pernas, o velho pavor e a imensa vontade de escorrer por um ralo.
Nunca mais vi o Elieser. Soube que ele foi pras cabeças, virou bandidaço aí pelo mundo, traficando. Eu me lembrei disso tudo porque semana passada me disseram que o Elieser foi assassinado no México.
* Tfilim é uma caixinha que contém textos sagrados do Velho Testamento que os judeus observantes amarram na cabeça e no braço para rezar diariamente.
*HENRIQUE GOLDMAN, 44, CINEASTA, NUNCA MAIS COMEU UM KIBE SEM OLHAR PARA TRÁS. SEU E-MAIL É: hgoldman@trip.com.br
ILUSTRAÇÃO JULIANA RUSSO
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