por Fernando Poffo

Documentário resgata biografia de Picuruta, o cara que rompeu paradigmas ao provar que era possível viver de surf no Brasil

Picuruta Salazar está acostumado a botar para baixo, sem medo, em qualquer onda, e subir de volta em velocidade incrível, soltando pauladas que costumam jogar muita água no outside. As rasgadas e batidas dele encantam quem o vê da areia. Fora da água, esses altos e baixos se repetem e parecem dar força ao surfista, que, mesmo diante de verdadeiros dramas, sobe novamente em alto astral.

Depois de quase 50 anos sobre a prancha, o carismático e polêmico surfista foi convencido por amigos a mostrar ao mundo em detalhes todos os “causos” de sua já lendária vida no surf. A missão chegou, então, a Alex Miranda, consagrado cineasta com sangue de sal, que não só abraçou a ideia do que viria a ser uma websérie, mas também percebeu ali a possibilidade de produzir um documentário a respeito do atleta: Picuruta - A lenda do Gato.

“Picuruta tem dez anos a mais do que eu e sempre foi um ídolo. Quis contar essa história de drama e superação. Eu já conhecia boa parte [das histórias], mas fomos atrás dos detalhes”, contou Miranda, que viveu o sonho de ser surfista profissional e hoje vê o filho, Ryan Kainalo, se destacar já aos 12 anos, participando - e bem - de disputas contra adultos noWorld Qualifying Series. Um apaixonado pelo surf contando uma história de paixão pelo surf.

O longa, que acaba de chegar aos cinemas, é resultado de três anos de parceria entre Miranda e Picuruta e percorre, além da biografia do surfista, parte importante da história do esporte no Brasil, passando pelos acontecimentos e personagens que ajudaram a sedimentar o caminho que nos traria ao momento atual e aos atletas da chamada Brazilian Storm.

Ao mesmo tempo que apresenta as diferentes facetas do surfista, do guerreiro ao brincalhão, o filme mostra, com imagens espetaculares de surf, que o agora vovô, com 58 anos, segue firme no mar, em diferentes tipos de ondas e pranchas. A jornada completa do filho de um humilde caminhoneiro de Santos, que conseguiu fazer do surf seu trabalho, numa época em que o esporte estava muito distante do profissionalismo.

Para reconstruir essa caminhada, Miranda fez uma extensa pesquisa, em que reuniu cerca de 480 minutos de imagens de arquivos e 140 fotografias. Coletou também depoimentos de gente que acompanha o contexto do surf, como o fundador e editor da Trip, Paulo Lima, e o ator e amigo de Picuruta, Cauã Reymond.

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O Gato tem muita história!

As gravações para Picuruta - A lenda do gato somam 380 horas registradas em 62 diárias que incluíram viagens para cenários marcantes na trajetória do surfista —  Havaí, África do Sul, Espanha e 12 cidades brasileiras estão na lista. Com tanto material, a ideia não é encerrar a produção no filme. O que “sobrou” ainda será usado em uma série que deve ter 12 episódios, que, assim como o doc, trará surfistas, fotógrafos e jornalistas lembrando causos que viveram com o Gato.

A origem do apelido tem duas diferentes versões. A primeira conta que o pai o chamava de cara de gato quando ele ficou com o rosto esfolado depois de levar uma mordida de cachorro,  aos cinco anos. A outra, mais aceita, atribui a alcunha ao fato de ele grudar na prancha e sempre cair em pé. Independentemente do real motivo, ele adotou Gato e incluiu no apelido uma inconfundível imitação que faz do felino, sua marca registrada.

Boa onda

Picuruta, desde a infância, priorizava a praia em vez da escola. Ele e seus irmãos contaram com o apoio do pai, Alexandre Salazar, o Bigode, para levar uma vida considerada, na época, marginalizada, “coisa de bandido”, nos anos 60 e 70. Mais do que apoiar, o pai passou a acompanhar a rotina deles nos campeonatos, viajar junto quando possível e divulgar na imprensa local os feitos dos filhos, algo entre empresário e assessor de imprensa.

A gana por ganhar campeonatos fisgou o caçula Picuruta de tal maneira que hoje ele é recordista absoluto de títulos entre os surfistas brasileiros e provavelmente do mundo: tem 169 conquistas registradas, sendo 10 títulos brasileiros de longboard, mundiais, vices e outras tantas conquistas pelo mundo afora, com recorde de tempo em onda numa pororoca e incontáveis prêmios de surfista do ano.

Picuruta foi ainda o precursor da rivalidade entre paulistas e cariocas, que dominavam o surf e tiveram de engolir o santista que chegou de sola e foi um dos pioneiros na  profissionalização do esporte. São Paulo é hoje o único estado do país que tem dois campeões mundiais da modalidade principal: Gabriel Medina e Adriano de Souza.

O filme mostra o reencontro de Picuruta com lugares em que brilhou como competidor, lembra de como virou lenda na África do Sul e conta até com elogios rasgados do australiano bicampeão mundial Tom Carrol. Nesses picos que revisitou, mesmo com quase 60 anos, Picuruta mostrou que segue com o surf bem afiado.

A boa forma é explicada pela longevidade de Picuruta como competidor. Depois de arrasar com as pranchinhas, ele migrou para o longboard. Mudou a cara da modalidade ao apresentar um surf radical, com batidas e manobras até então exclusivas para as pranchinhas. O estilo implantado por ele está hoje estabelecido e não é mais raro ver surfistas radicalizando com os pranchões.

O filme ajuda a cumprir um desejo do seu Bigode: o de fazer o nome de Picuruta ecoar por 100 anos no mundo do surf. “O gostoso é ser homenageado em vida, como costuma falar o Pelé. Agora estou eternizado”, disse Picuruta, orgulhoso com o resultado do filme e também por ter sido eternizado com a gravação do nome em uma Estrela da Calçada da Fama do Cine Roxy, em Santos, ao lado de santistas consagrados, como o próprio Pelé.

Créditos

Imagem principal: Divulgação

Fotos: Renato Pezzuto/Divulgação

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