
Por Clarissa Vassimon
Barulho, carros, ônibus, cartazes, outdoors, gente, muita gente, fumaça, trânsito. São Paulo nunca pára. Todos a conhecem como a cidade dos negócios, das oportunidades, da noite pulsante, do consumo desenfreado, dos restaurantes da moda… Porém, é raro ouvir dos paulistanos que há alguma beleza por trás dessa torre de Babel.
No ano passado, uma boa idéia mudou temporariamente a paisagem de alguns pontos da cidade. O artista plástico e publicitário chileno Waldo Bravo, de 45 anos, colou em dez outdoors de 3 x 9 metros uma fotografia que reproduzia exatamente a visão que o pedestre teria caso não houvesse aquele cartaz.
Durante meses, várias fotos montadas digitalmente cobriram cada um dos painéis. Ao se deparar com as intervenções, a pessoa tinha a falsa impressão de que ali não havia imagem alguma, mas somente uma grande moldura vazia. A idéia nasceu a partir da obra “A Condição Humana II”, de René Magritte (1898-1967). Nela, o pintor surrealista questionava a ambigüidade entre a paisagem real e a paisagem representada. Nascia, então, o projeto Recortes Urbanos, que segundo o chileno também poderia chamar-se “A Condição Humana III”, em função do diálogo com Magritte.
Porém, não foi tarefa fácil concretizar essa idéia. Passaram-se quase dois anos de trabalho e muitas negociações até ele conseguir viabilizar permutas e parcerias. Caso tivesse que tirar do próprio bolso, Bravo teria gastado cerca de 80 mil reais. Tudo foi viabilizado mediante apoio cultural de empresas amigas. “Trata-se de um trabalho caro e complexo, o maior e mais ousado que já realizei. Em alguns momentos pensei em desistir, tamanhas eram as dificuldades”, diz.
Durante o processo, o artista contou com a ajuda fundamental de amigos como o fotógrafo publicitário Márcio Sallovicz e sua equipe. “Márcio teve que fazer ginástica subindo em escadas e muros para conseguir os cliques necessários”, ressalta Waldo.
Por enquanto, a mostra só ocorreu na cidade de São Paulo e “de maneira heróica e quixotesca, devido a sua complexidade e característica”, salienta Bravo. Como se trata de algo puramente cultural e sem fins lucrativos, o apoio e o patrocínio são difíceis de ser conseguidos. “É justamente esse o ponto mais complicado para a execução de mostras dessa natureza. No caso de outras cidades, essa negociação à distância com possíveis patrocinadores se tornaria ainda mais complicada.”
Atualmente o artista prepara uma exposição individual para o ano que vem. “Apesar de serem trabalhos menores e mais simples, quis manter o conceito norteador do Recortes Urbanos: obras sem autonomia, mas sempre dependentes da relação com o espectador”, acredita.
Ele já provou que tem talento e sensibilidade. “A peculiaridade do trabalho de Bravo é que, embora o artista lance mão de um vasto leque de recursos, seu conceito principal nunca se perde, seja em produções digitais ou pinturas que remetem à arte primitiva”, opina Orlando Margarido, crítico de artes plásticas da revista Veja São Paulo. Embora o trabalho não tenha sido pouco, o artista já colocou em sua agenda espaço para os Recortes Urbanos 2, ainda sem data de estréia.”Gostaria muito que desta próxima vez fosse apenas… menos difícil.” Tomara!
Para mais informações, acesse www.waldobravo.com.br
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