Discussão de relacionamento
Depois de anos preso na gaiola, nosso colaborador reaprende o que é ser social

Nada do que vivi era falso. Porque sempre me levou a constantes aprendizados. Por haver ficado mais de 30 anos preso, pode-se pensar que nada sei sobre relacionamento humano. Na prisão também somos humanos e, como não poderia deixar de ser, nos relacionamos. E a questão do relacionamento na prisão é delicadíssima; a vida depende, muitas vezes, das relações que conquistamos ou das quais nos impregnamos. Estou com 54 anos e vivi grandes emoções com pessoas incríveis. Amei, fui amado e, mesmo preso, fui feliz com isso. É certo que o meu maior problema é a dificuldade que tenho de me relacionar. Mas, diga-me: quem não tem essa dificuldade?
Acredito, sinceramente, que vivemos a protagonizar o que não somos porque não temos coragem nem habilidade para ser o que somos. E isso fica evidente no nosso relacionamento com o outro. O mundo de relações é complicado. Mais da metade dos pais, a estatística mostra, é alcoólatra. Então pai não é pai coisa nenhuma. Assim como ser mãe não torna a mulher diferente do que é. Família não é o que se representa para os outros e, sim, o que se vive no dia-a-dia. E essa não existe mais. A não ser nos anseios e na mente das pessoas. Há muito que deixou de ser o melhor lugar do mundo para a criação e o desenvolvimento de gente. Se é que um dia foi.
Hoje é a televisão e o vídeo quem educa nossos filhos. Lá estão eles: de olhos redondos e vivos de curiosidade, alegria pela surpresa de cada novo conhecimento e prazer na exploração incansável de seu espaço/tempo. Somos transformados em seres sociais. Politicamente corretos, “normopatas”, como querem os psicanalistas. Delineamos espaços e ali fazemos nosso tempo. Nos limitamos e nos voltamos cada vez mais para o individualismo prático, sem ideologias. Compartimentamos sonhos, calculamos prazeres, ficamos incoerentes na base de nosso pensar e, principalmente, não temos mais curiosidade porque nos ensinaram a temer surpresas.
Amor em cadeia
Para mim fica tudo muito claro. Estou ingressando agora no meio social, atento a tudo para fazer o mais certo que puder. Muito jovem, atirei-me à devoção daqueles que amei, a ponto de doer. Ficava grande demais e eu sempre me considerei tão pequeno… Depois fui aprendendo que relacionamento é esforço contínuo e que é de fragilidades que se constrói fortalezas.
Sei que todos somos profundamente carentes de afeto, consideração e respeito. As minhas carências sempre foram infinitas. Às vezes ultrapassava minha capacidade de suportar. Mas sentir a importância que tinha para aqueles que me amavam era luz que lavava a alma de brilho e calor. Enquanto conseguia essa importância, nada mais importava, nem a dor ou a morte. Mas nada é como é para sempre. Aliás, nada é, tudo vai sendo. Tudo vai se transformando independentemente de nossa vontade. É que a vida é uma grande ultrapassagem. Lição das mais duras que ainda estou tentando assimilar.
Tudo fica mais difícil ainda porque está tudo diante de nossos olhos. Enxergamos e sentimos, mas não verbalizamos, nem para nós mesmos. O pragmatismo ocidental vem usando métodos pavlovianos há séculos para nos convencer de que primeiro vem o poder. Ensinam que o caminho é a acumulação econômica a qualquer preço. O método mais baixo é o da corrupção, a pior das modalidades criminosas porque lesa a pátria e rouba de todos. Através de métodos sofisticados, usam do conhecimento acumulado acerca das relações humanas para explorar o trabalho, essa enorme conquista humana.
O que pensar? Relacionamentos assumimos, faz parte da vida e são substanciosos à existência produtiva que todos queremos. Há quem julgue em contrário. Gostaria de conhecer seus argumentos; devem ser bem interessantes. A partir de assumir que é fundamental o relacionamento para o desenvolvimento sadio da pessoa, é preciso assumir também que não sabemos quase nada sobre isso. Nos relacionamos mal e porcamente. Somos medrosos, mentirosos e nem um pouco amorosos. Tratamos os outros como somos tratados, não acrescentamos nada. Ninguém diz tudo o que faz e nem faz tudo o que diz. Conversamos desconversando de modo a estar ausente, porque nada importa além de nós mesmos e nossos problemas.
Não tenho uma solução. Apenas posso afirmar por experiência que o amor não é o principal elemento no sucesso das relações. Ele não se basta e carece de bases seguras para vicejar. E acredito sinceramente que a plataforma mais segura para desenvolver sentimentos, e portanto relações, é o respeito.
*Luiz Alberto Mendes, 54, adora DRs e eventos sociais. Se quiser convidá-lo, seu e-mail é: lmendes@trip.com.br
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