por Guilherme Henrique

Depois da turnê cantando Cartola, a carioca Teresa Cristina volta aos anos 30 para exaltar a obra de Noel Rosa, na turnê “Batuque é um Privilégio”

É impossível prever o que Noel Rosa (1910 -1937) poderia ter feito se tivesse vivido mais do que os 26 anos distribuídos entre os bares da Lapa, copos bem servidos, amores pungentes e sambas inesquecíveis. Talvez aprimorasse a linguagem do malandro que ele tão bem conhecia, que de voz macia cantava um Brasil que dançava o foxtrote norte-americano e acompanhava as primeiras exibições do cinema falado, como ele diz em “Último Desejo”, um de seus clássicos. 

Efêmera como seus amores, a carreira de Noel Rosa esbarrou nos problemas de saúde e nos excessos que a boemia lhe apresentava todas as noites. Ainda assim, entre 1930 e 1937, ano de sua morte, o compositor de Vila Isabel soube descrever os signos da realidade modernizante do Rio de Janeiro como nenhum outro fez naquele período, parodiando imagens precisas e declamando alta poesia, em mais de 200 composições, fruto de parcerias com Oswaldo de Almeida Gogliano, o Vadico (1910-1962), Ismael Silva (1905-1978), entre outros.

Pela segunda vez na carreira, Teresa Cristina abriu mão de seu álbum solo para reinterpretar a obra de outro gigante do samba nacional. “Eu gosto de pesquisar, de me aprofundar na obra de um artista”, confessa à Trip. Com direção musical de Caetano Veloso e Carlinhos Sete Cordas ao violão, a turnê Teresa Cristina canta Noel: Batuque é um privilégio, que estreou em março no Rio de Janeiro e em São Paulo, chega em Porto Alegre no próximo dia 15 e de lá segue para Recife, Natal e Fortaleza.

O show, que tem no repertório clássicos como "Não tem tradução" e "Filosofia", é também um álbum, já disponível em todas as plataformas digitais.  “Noel nunca foi tão atual. Muitas pessoas criticavam os sambistas da Lapa, da minha geração, dizendo que nós só cantávamos coisa velha, músicas datadas. Não há nada datado”, comenta. 

Entre 2016 e 2017, Teresa rodou o país homenageando outro ícone da música nacional na turnê Teresa Cristina canta Cartola, que acabou se tornando Caetano apresenta Teresa, quando o baiano passou a fazer parte do espetáculo. 

Entre considerações políticas e análises musicais, Teresa Cristina falou à Trip sobre os tempos de movimento estudantil no Rio de Janeiro, o gosto pelo rock norte-americano e o reencontro tardio com a cultura brasileira.

Trip. Imagino que você já conhecesse a obra do Noel, mas como surgiu a ideia de fazer esse show?       

Teresa Cristina. Noel é um sujeito emblemático para qualquer sambista. Ele tem uma obra muito forte e atemporal. A gente está andando para trás em tantos aspectos, que estamos voltando para o tempo dele, um Brasil dos anos 20 e 30... Tudo que ele falava sobre o político demagogo, corrupto, do governante aproveitador, das pessoas sem caráter, dos imbecis, está aí, sambando na nossa cara.  Noel nunca foi tão atual. Muitas pessoas criticavam os sambistas da Lapa, da minha geração, por exemplo, dizendo que nós só cantávamos coisa velha, músicas datadas. Não há nada datado. 

Durante uma entrevista sobre a turnê Teresa canta Cartola, você disse que a obra dele insistia em ser atual. Com Noel, que nasceu na mesma época, mas fez sucesso bem antes, a situação parece ser a mesma: músicas antigas que ainda fazem sentido. Por exemplo: ‘Seja Breve’. Essa música é um recado para o Temer. Eu gravei pensando naquela cara feia dele. Não que o Noel tenha feito a música pensando no Temer, óbvio, mas em alguém desagradável, que a gente não quer ter perto. Tem ‘Onde está a honestidade?’, que não dá para citar apenas um, porque serve para muita gente. Olha isso: “o seu dinheiro nasce de repente”. Eu sempre identifiquei muito o Noel com o Lamartine [Babo, sambista carioca, autor de marchinhas e hinos de futebol], até achei que fossem a mesma pessoa uma época. Eles dois carregam uma coisa genial: a letra debochada e o timbre da voz sempre estão no lugar certo. Noel tem um jeito de cantar que faz a melodia brilhar.

Como foi feita a escolha do repertório? O Caetano, que é diretor musical do show, ajudou nisso? Nós conversamos ainda durante a turnê do Cartola, quando estávamos juntos. Eu já tinha falado sobre o desejo de cantar Noel, e o Caetano conhece muito a história e a obra dele. Ele (Caetano) entrou em tudo, para dizer a verdade. Até dicas de harmonização deu. O Caetano ganha pelo detalhe, porque tudo o que faz é pensado, planejado. Ele me chamou a atenção para a prosódia do Noel. É o rei da rima rica. Em ‘Gago Apaixonado’, por exemplo, a gagueira tem melodia certa. Eu fico muito incomodada quando ouço uma gravação e as pessoas acham que, para cantar essa musica, é só ficar gaguejando. Não! A gagueira tem melodia certa. É “Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago”. Tem um raciocínio. Isso acontece muito com Noel: você acha que o samba foi feito de qualquer jeito, mas, ao olhar com calma, vê que está alinhado, com figuras de linguagem no lugar correto. Não foi fácil, mas as conversas com Caetano me ajudaram a definir o repertório.

Imagino, sobretudo com Noel, que possui mais de 200 composições... Pois é! Para o show do Cartola já foi difícil, porque acabo me apegando ao artista. Sou cantora da noite, tenho o repertório grande, então selecionar algumas músicas para um show me dá uma dorzinha de cabeça. O Noel Rosa é um artista de muitas facetas. Ao mesmo tempo em que nós falamos do Noel debochado, que faz críticas sociais intensas, também há um lirismo muito forte quando quer falar de amor. Ele tem um olhar sobre a mulher que é bem curioso, e aí eu tive o cuidado de escolher canções em que a mulher não seja tratada de uma maneira ruim. O samba, que é composto e cantado na maioria das vezes por homens, sempre coloca a mulher como a culpada das dores, que não tem coração, que não tem caráter ou palavra. O Noel teve muitas mulheres e foi um apaixonado. Tem uma canção, que estará no show, que é o resultado da polêmica com o Wilson Batista (sambista carioca da década de 30). O Wilson fez uma música tirando sarro do Noel, do aspecto físico dele, chamando-o de várias coisas. Uma letra horrorosa, mas com melodia lindíssima. Tempos depois o Noel fez uma música usando essa melodia em homenagem à Ceci, seu grande amor. Uma ofensa virou música de amor.

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Você falou do Noel compositor, com várias facetas. Ele foi um dos primeiros letristas a extrapolar o limite da canção popular, colocando outros elementos, como em "Conversa de Botequim", por exemplo. E olha só quem foi o Noel: um cara de classe média, aluno de medicina, branco e que fez um caminho no samba. Criou um estilo e passou a ser respeitado. Ninguém poderia dizer que o Noel não foi sambista por ser branco.  O ambiente em que ele vivia era de prostituição, na Lapa. Um cara da rua mesmo. Ao mesmo tempo, ele inaugura muitas coisas. Mais tarde nós tivemos os sambas de contestação, com Zé Keti, que cantou muito esse estilo, mas o Noel, lá atrás, já tirava sarro desse Brasil que quer ser francês, sofisticado. Ele já enxergava isso: um país que queria ser sofisticado, mas que possui uma malandragem, um pé no povão, que não se pode jogar fora. Ele diz isso na música ‘Não tem tradução’. É lírico, bonito. Ele abriu essa porta da crítica social e várias pessoas pegaram esse mote.

Sobre a questão da representação da mulher, no show sobre Cartola você cantou “Tive Sim” de uma perspectiva feminina. Você fez isso para alguma canção do Noel Rosa? Não, porque tem muito assunto. Tem alguns versos que ele usa para cutucar a mulher: “Pra que mentir/ se tu ainda não tens/ esse dom de saber iludir” . É lindíssima. Linda e cruel. Eu acabo fazendo uma resposta para essa música... Brinco com esses versos. Você citou “Conversa de Botequim”, que possui um verso atualíssimo: “Feche a porta da direita com muito cuidado”. Ele nem sabia que esse verso ia estar tão em voga...

Você sempre se posiciona politicamente, estudou na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), fez parte do centro estudantil. Como foi sua formação social? A UERJ me moldou como cidadã. Todo o meu pensamento crítico e político veio de lá. Se fez isso comigo, fez com outras pessoas. Não é à toa que existe um projeto político para acabar com ela. Eu era completamente inocente quando entrei na faculdade, em todos os sentidos. O primeiro curso que fiz foi língua portuguesa/literatura e cultura inglesa. Eu estudava inglês em casa, ouvindo música e nunca havia frequentado uma escola de línguas. Quando cheguei à faculdade, muita gente já tinha o conhecimento do inglês. A partir daí eu comecei a tirar notas baixas nas aulas de gramática e conversação, porque não tinha prática, e fiquei chateada. Eu sempre fui boa aluna, inclusive na escola. Lembro de incomodar muita gente por ser negra e tirar notas mais altas que os brancos. No 2º ano da universidade abandonei meu trabalho de vendedora e fui ser secretária no DCE (Diretório Central de Estudantes). Não teve jeito: entrei para o movimento estudantil e comecei a ter consciência política sobre tudo.

Em “Feitio de Oração”, Noel que diz que “ninguém aprende samba no colégio”. Com certeza você não aprendeu samba na UERJ... Com oito anos de idade eu ouvia Candeia, mas aquilo não me dizia nada. Eu era completamente influenciada pela cultura norte-americana. Nasci em 1968 e acompanhei os anos 70 na íntegra, ouvindo Diana Ross, Michael Jackson, Evelyn “Champagne” King. Aos 15 anos comecei a ouvir rock, como Iron Maiden e Van Halen. O meu sonho, quando entrei na UERJ, em 1988, era fazer literatura inglesa, depois pós-graduação de tradutora e intérprete, e quando esses grupos estivessem no Brasil, queria ser a tradutora deles. Por isso digo que a UERJ me transformou completamente. As pessoas da minha sala iam pra Orlando nas férias, e aquilo não tinha nada a ver comigo. Fui ficando triste, deprimida. Até que um amigo me alertou sobre a possibilidade de estudar literatura brasileira. Fiz o vestibular pela 2ª vez e, em 1994, comecei o curso que mudou a minha vida. Li Machado de Assis, Gilberto Freyre, José Saramago. Minha cabeça explodiu. Reencontrei a obra do Candeia em um momento que ela fazia sentindo para mim. Fiquei maravilhada com a beleza daquilo e espantada de como eu não senti nada quando a ouvi na primeira vez. O Candeia fala de negritude, canta para o povo negro. Eu sofri muito bullying na escola com atitudes racistas. Eu me sentia feia e achava que ser negra era quase uma punição. Quando me deparei com a obra do Candeia, reencontrei a minha beleza, me senti mais forte e entendi o samba como uma arma contra tudo que a gente não gosta e vê de errado. O samba me deu uma força que eu achei que não tinha. Tudo aconteceu de uma vez: reencontrei a obra do Candeia, me redescobri mulher e negra, e a rotina na UERJ, onde eu tinha, inclusive, uma rádio pirata sobre música brasileira. Hoje, ao olhar para a pessoa que eu era quando entrei na universidade, não me reconheço em nada.

Recentemente, você disse que às vezes tratam o samba como algo menor. Por que isso acontece? Acredito que por ser tão popular, por ter vindo de onde veio. O samba já nasceu quebrando todas as regras. Um gênero que veio pela mão feminina, das tias da Praça Onze. No quintal delas tinha o samba, o candomblé e a cultura negra, tratada de maneira digna e respeitosa, mas sempre ligado à humildade. Você vê as velhas guardas, que não tiveram estudo, mas que fazem músicas belíssimas e que se formaram na universidade da vida. Começaram a identificar o samba como gênero de gente que não tem dinheiro e alcance social. Durante o show sobre Cartola, pessoas que gostam do meu trabalho diziam “poxa, Teresa, você parou de cantar em bar, em boteco. Você só quer saber de cantar em teatro”. Quando o Cartola e Carlos Cachaça falaram, de maneira orgulhosa, que o samba conseguiu penetrar no Theatro Municipal depois de percorrer o universo, é porque o samba tem nobreza e dignidade, e merece estar no teatro também. Não é só a música pop ou a MPB. O samba também merece ser ouvido com um som de qualidade, o sambista precisa tocar um bom instrumento. Isso é uma coisa conquistada e não dá para voltar atrás. O samba continua sendo tocado na rua, na noite, na Lapa, mas também existe o samba no teatro, para quem quer ficar sentado, ouvir a harmonia, sem barulho de conversa ou gente comendo do seu lado. Uma coisa não precisa negar a outra.

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