por Arthur Guimarães
Trip #218

Quatro anos depois da 1ª UPP, favelas são descobertas por turistas, atores e publicitários

 

Rio de Janeiro nunca tinha visto coisa igual. Vestidos para festa, artistas do calibre de Christiane Torloni, Fabio Assunção e Renata Sorrah subiram a favela preparados para pisar no tapete vermelho. Era uma quarta-feira, 18 de abril de 2001. Naquele tempo, a bala corria no Morro do Vidigal, comunidade erguida em uma encosta radicalmente íngreme da zona sul – e zelosamente dominada por criminosos. O adensamento de casas improvisadas se deu, barraco a barraco, até invadir, na marra, o fundo dos cartões-postais mais vendidos nas bancas do Leblon. As lajes de cimento eram o terraço dos traficantes. As miras dos fuzis eram os binóculos para uma vista arrebatadora – inclusive contra quem ousasse botar o pé ali sem autorização, como a polícia. Eram tempos de divisão social escabrosa, apartheid social entre morro e asfalto. Mas o ator Caio Blat recebia, tranquilão, seus colegas famosos para a estreia de sua peça Êxtase, montada em um casarão do grupo teatral Nós do Morro. No meio do gueto, à noite, em uma região que escapava entre os dedos do poder público.

O bas-fond chamou a atenção. Os bandidos foram avisados. “Eles gostaram”, lembra Blat, aos risos, mais de uma década depois. “Tanto que foram receber o pessoal de fuzil na mão. Fizeram escolta armada, como batedores, para as vans que aluguei para trazer amigos”, conta o Fernando da novela Lado a lado.

Ao levar a peça (e os colegas) para o morro, o paulistano Blat acabou se transformando numa espécie de precursor de um movimento que, espera-se, costure décadas de fissura entre classes sociais no Rio de Janeiro. Atualmente, uma maré sem data para secar varre as comunidades, impulsionada pela força policial que, dentro do projeto de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), expulsou delas os vendedores de drogas e seus armamentos de guerra contrabandeados. Com essa nova sensação de segurança, as empresas começam a subir as escadarias labirínticas para conhecer consumidores até então isolados. Os caminhões de coleta de lixo já podem entrar para limpar os espaços. Os gatos de luz e água estão sendo erradicados. Até os médicos conseguem chegar aos postos de saúde sem o risco iminente de cruzar com uma bala perdida.

“Queremos fazer coquetéis na laje, levar atores bombados e a imprensa, acabar com essa história de só fazer lançamento na Barra”, diz Caio Blat

O maior estandarte desse processo é o chamado teleférico do Complexo do Alemão, antigo QG do Comando Vermelho. É um marco porque foi a primeira obra de infraestrutura que o governo fez chegar até o povo carente. Por R$ 1, qualquer cidadão circula por cima de 13 favelas. O meio de transporte foi fundamental para ajudar moradores e interessados a chegar de forma menos insalubre aos becos, antes acessíveis somente após longas e suadas caminhadas. O projeto, inspirado na experiência de Medellín, na Colômbia, virou programa turístico. Estrangeiros cruzam a periferia para ver de perto, e do alto, um mar de casas irregulares.

O arquiteto das favelas

Numa coincidência pitoresca, a obra foi desenhada por um dos grandes amigos de Blat, o argentino Jorge Mario Jáuregui. Conhecido como “o arquiteto das favelas”, por ser autor de vários projetos urbanísticos em comunidades cariocas, ele é outro personagem importante desse processo de aproximação morro-asfalto. Conheceu o ator quando Caio tentava achar alguém intrépido o suficiente para projetar uma casa para ele em um paredão verde em Itanhangá. “Esperava ouvir que meu sonho era impossível, mas acabei encontrando um maluco que se apaixonou pela empreitada e me proibiu de desistir da obra. E fez a casa em que moro hoje”, conta o ator.

Para Jáuregui, o Rio de Janeiro vive um momento ímpar: o desarmamento, acredita, ampliou os limites da cidade, jogando comunidades inteiras no colo dos governantes e obrigando-os a começar a trabalhar por sua urbanização: “O teleférico, por exemplo, não pode ser pensado fora de uma política de urbanização geral, uma reorganização social. Isso inclui aspectos físicos, sociais, ecológicos, de segurança comunitária, além da problemática do cidadão contemporâneo, como relações de trabalho, amor e família”, afirma.

Atualmente, Caio e Jáuregui estão unidos em uma nova aventura. Decidiram montar um cinema na Rocinha. Já têm apoio da prefeitura e de patrocinadores, mas querem montar uma unidade que se banque, cobrando preços populares. Vão emprestar a ideia de Adailton Medeiros, criador do Ponto Cine, em Guadalupe, sala igualmente instalada num bolsão de pobreza, na zona norte, mas que hoje recebe prêmios por ter a maior taxa de ocupação do cinema nacional. “É um negócio, precisa ser sustentável. Eu entro com a parte artística, e o Jorge sobe as paredes”, conta Caio. “Vamos montar um espaço intermediário, que o pessoal do asfalto e do morro possa frequentar. Queremos fazer coquetéis na laje, levar atores bombados e a imprensa. Queremos acabar com essa história de só fazer pré-estreia na Barra.”

Be Bope

Outro protagonista dessa remixagem antropológica que ecoa pelo Rio é Bob Nadkarni. Formado em belas-artes em Londres, ele trabalhou como escultor dos cenários de 2001, uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, antes de cansar da vida na Inglaterra e pegar uma embarcação para o Equador, em 1972. O navio quebrou, e Nadkarni parou em Salvador. Era o primeiro dia de Carnaval. Desceu do barco sem saber direito onde estava. Em 25 minutos, começou a namorar uma mulata. Perdeu o embarque – e as roupas. Tempos depois, chegou ao Rio, mas, ilegal, acabou deportado em meados da década de 1970. Iniciou a carreira jornalística na Inglaterra, estratégia para regressar ao Rio. Deu certo.

Nadkarni se instalou no Morro Tavares Bastos, no Catete, em 1981, quando o terreno ainda era uma fazenda com 400 pessoas. Usou sua influência como correspondente da UPI e da BBC para convencer o governo a abrir o primeiro e atual QG do Bope, a temida tropa de elite fluminense, num antigo esqueleto de um cassino da família Guinle, no pé do morro. Na base da conversa, pacificou a primeira favela da cidade, bem antes das UPPs. “Nunca tive medo de traficantes”, garante. “São covardes. Passam o dia paquerando e moram na casa da mamãe.”

Nas noites de jazz do The Maze, a cena impressiona: gringos e playboys se enfileiram para subir um morro que, há alguns anos, era frequentado apenas por moradores e viciados

Hoje, ele é dono do The Maze, misto de ateliê, boate e pousada que ocupa uma casa de três andares no mirante da favela. Já recebeu como hóspedes altas personalidades internacionais, como a atriz Charlotte Rampling e o cineasta Alan Parker. Mas sua maior cria foi a festa Jazz at The Maze, festa que toda primeira sexta-feira do mês leva um séquito de turistas e locais para shows de jazz na casa. Logo na entrada do morro, a cena impressiona. Europeus e playboys se enfileiram para subir uma comunidade que, até há pouco, era frequentada apenas por moradores e viciados. Pelas vielas, os cabelos louros das europeias escapavam dos capacetes dos mototáxis. Na edição em que a Trip esteve presente, no começo deste ano, a balada registrou recorde de público: 800 pessoas. “Fiz apenas o básico. Ignorei os bandidos, abri um negócio e hoje vejo minha festa citada como um dos mais interessantes pontos de jazz do mundo”, orgulha-se Nadkarni.

Capitalismo-favela

“As UPPs não significam uma cura radical, mas um grande começo”, acredita a atriz Mariana Ximenes, velha frequentadora do morro. “Agora vêm as medidas de integração social. Investimento em saúde, cultura e educação.” O coordenador da ONG O Rio Pede Paz, Cacau de Brito, concorda com a atriz: “É porque o problema dos morros não se resume às questões de segurança pública. Tudo melhorou, é verdade, mas ainda falta emprego, saneamento, muita coisa a ser resolvida. Há corrupção policial mesmo em morro pacificado. E o tráfico vai continuar, menos chamativo, claro, enquanto houver demanda. São questões maiores, mundiais. Há um problema sério, em Jacarepaguá e no Campo Grande, são as milícias que tomaram conta do espaço deixado pelos traficantes. E surgem denúncias da ligação dos milicianos com políticos”.

Uma experiência muito interessante de levar a economia ao morro ocorre em Santa Marta, Botafogo. Em meio aos barracos erguidos uns em cima dos outros, fica uma sucursal da modernosa agência de publicidade NBS (No Bullshit ou “sem papo-furado”). Lá, em uma sala alugada e decorada como um escritório em Ipanema, uma equipe de jovens publicitários iniciou um trabalho para tentar ensinar grandes empresas a investir nas favelas. Tudo começou quando uma pesquisa corriqueira, tradicional nesse ramo, apontou uma revelação curiosa. Ao perguntarem aos cariocas qual sua maior fonte de otimismo, a pacificação superou todas as respostas – ultrapassando itens como o pré-sal ou a própria beleza da Cidade Maravilhosa. Naquele momento, um sinal de alerta disparou.

“Descobrimos que havia uma revolução acontecendo. Uma grande transformação. E que precisaríamos agir”, explica André Lima, diretor responsável pela empreitada. Desde então, ele passou a levar clientes para mesasredondas em várias comunidades pacificadas. O grupo participou de reuniões de capitães de UPPs, e abriu o salão no morro para os moradores fazerem suas reuniões. “Fomos escutar o que toda essa gente tinha a dizer.”

Foi assim que, em 2012, a agência conseguiu apoio para o baile anual de debutantes do Morro da Providência, que havia sido criado pelo comandante da UPP dois anos antes. Uma edição da festa chegou a ser organizada no Museu Histórico Nacional, com direito a carruagem com cavalos para trazer as garotas – que dançaram valsa com policiais com farda de gala. Manchada pela chaga da gravidez precoce e da violência doméstica, a favela foi usada por anos como moradia de segundas famílias de muitos homens, trabalhadores que passavam pela vizinha Central do Brasil – e criavam lares paralelos. “É uma situação muito dramática”, resume o diretor da NBS.

A ideia do baile “diferente” veio da agência, em resposta a uma demanda dos jovens da comunidade, que sentiam falta de sair para dançar desde que os bailes funk irregulares foram proibidos pela polícia. “Hoje, aquelas garotas têm os policiais como ídolos, e não os traficantes armados”, diz o publicitário. “Hoje, o sofisticado é o simples. Para uma marca se diferenciar, ela tem que promover transformações. É isso que estamos tentando fazer, em nome do Rio.”

Falta muito
O projeto das UPPs não terá futuro se as instituições policiais não forem refundadas

Por Luiz Eduardo Soares *

As relações entre “asfalto” e “favelas” no Rio de Janeiro sempre foram ambíguas e contraditórias. Trata-se de uma longa e penosa história de amor e ódio, admiração e discriminação, idealização e rejeição. Desde a reforma urbana de Pereira Passos, no começo do século passado, na qual modernização rimava com remoção de cortiços e segregação higienista dos pobres, até as remoções promovidas pelo governo Lacerda, no início dos anos 1960, passando por momentos de assistencialismo autoritário e integração ambivalente do clientelismo, as favelas foram definidas como problema social, fonte de ameaça e risco, violência e contágio, desordem e caos.

Por outro lado, atravessaram o século 20 vistas como centros geradores de arte, núcleos dinâmicos da cultura popular, sobretudo nos campos da música e da religiosidade. Chegaram a ser idealizadas como espaços de vida autêntica e fraterna, abençoados pela beleza, promotores potenciais de transformações políticas e sociais. A imagem da favela oscilou entre promessa utópica (”Quando derem vez ao morro toda a cidade vai cantar”) e origem do grande medo da classe média: “Nós vamos invadir sua praia”. Lado A e lado B dessa valorização ambivalente revelavam-se nas visitas de grandes artistas às favelas, ao longo das décadas, assim como na distância da classe média. Nos fins de semana, jovens do asfalto iam aos morros sambar. Outros evitavam o contato. Com o funk, a história se repetiu: playboys e patricinhas enchiam as quadras das favelas, contra a vontade dos pais.

Essa longa trajetória de ambivalências sociais acabou levando às favelas benefícios infraestruturais e conquistas sociais, ainda que parciais e insuficientes, porque o preconceito e a desigualdade de tratamento por parte do Estado prevaleceram. As ambiguidades traduziam a dubiedade prática: esses “lugares indesejados das gentes” reduziam o valor dos imóveis vizinhos, mas garantiam a provisão da força de trabalho barata para os serviços domésticos da classe média e das elites cariocas.

A única área em que praticamente nunca houve oscilação e ambivalência foi a segurança pública. Salvo em alguns momentos históricos, as favelas foram palco da violência policial, inclusive da brutalidade letal, praticada em incursões policiais bélicas e genocidas. Considerando-se esse painel, compreende-se a importância das UPPs, concebidas para substituir as invasões bélicas, nas quais morriam inocentes, suspeitos e até policiais. As incursões espalhavam o terror e mostravam que o Estado tratava as comunidades como “inimigas” ou aliadas dos “inimigos”, e não como conjuntos de cidadãos, destinatários do serviço. Prendiam-se alguns traficantes (substituídos de imediato como peças de reposição), apreendiam-se armas e drogas e os resultados eram apenas negativos. Com a implantação de uma UPP, o Estado afirma que a comunidade deve ser tratada como os residentes dos bairros nobres. Não há invasão policial de Ipanema. O serviço policial ali é prestado dia e noite. Essa presença contínua nas favelas inibe o domínio territorial despótico por grupos de traficantes ou milicianos. O objetivo é suprimir o controle territorial exercido por grupos criminosos. Mas essa liberação deve ser acompanhada pela provisão dos demais serviços públicos. Além disso, a cultura policial tem de ser transformada. Caso contrário, a liberação vai se degradar em novo despotismo e a pacificação será o nome fantasia do arbítrio. O projeto das UPPs não terá futuro nem poderá expandir-se (hoje atende a menos de 30 favelas) se as instituições policiais não forem refundadas. Enquanto as mudanças não chegam, chegam às favelas os novos visitantes, os vizinhos do asfalto que antes temiam esse grande Outro, esse enclave enigmático e perturbador, espelho de nossas divisões e da despudorada desigualdade brasileira.

* Luiz Eduardo Soares é antropólogo e escritor, especialista em segurança pública. Foi homenageado no Prêmio Trip Transformadores 2012.

Vá sem medo

Habitués dos morros cariocas indicam o melhor da programação cultural das comunidades

Mariana Ximenes, atriz
Central Única de Favelas - Cidade de Deus: Rua José de Arimateia, 90, Cidade de Deus. 

Pastoril da Matriz - Rua da Matriz, 80, Botafogo. 

Jorge Jáuregui, arquiteto
Pizzaria Lit - Estrada da Gávea, 523, Rocinha.

Teleférico do Alemão
Partida: Estação Bonsucesso (Pça. das Nações, s/n, Bonsucesso) 

Caio Blat, ator
Ponto Cine Guadalupe (Guadalupe Shopping) - Estrada Gamboatá, 2300 Guadalupe. 

Teatro Nós do Morro - Rua Dr. Olinto de Magalhães, 54, Vidigal.

 

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