Milly Lacombe: Por que sou a favor do tratamento precoce

por Milly Lacombe

”Um tipo de tratamento que podemos fazer: um pacto de entendimento de que o capitalismo não vai dar conta de nos tirar dessa situação”

Eu não tenho muito problema em afirmar que tratamento precoce contra a Covid-19 existe e funciona. Acho, aliás, que todos nós deveríamos estar fazendo esse tratamento e me causa enorme tristeza saber que apenas alguns têm acesso a ele. Tratamento precoce contra a Covid-19 envolve, pra início de conversa, comer e dormir bem. Mas à maioria de nós não é dado esse privilégio.

Estamos comendo cada vez pior e dormindo cada vez menos. Numa sociedade orientada exclusivamente para o trabalho remunerado, e, ainda assim, incapaz de oferecer trabalho remunerado a todos, seremos úteis e valorizados enquanto pudermos produzir. Depois disso, estamos prontos para o descarte. 

Quem tem um trabalho fora de casa normalmente passa o dia inteiro nessa função, chega tarde, precisa seguir trabalhando porque preparar o jantar, cuidar de filho, lavar e pendurar a roupa, arrumar a cozinha e esfregar o banheiro são atos que constituem trabalho. Não remunerado, claro, mas também trabalho.

Mesmo aos felizardos trabalhadores que podem pagar para que alguém execute essas tarefas domésticas não está garantida uma gorda noite de sono. Contas atrasadas, preocupações com os preços do supermercado que não param de aumentar, com o salário que não para de perder poder de compra, apreensão de ser demitido: tudo colabora para que a gente durma pouco e durma mal.

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Aos que têm dinheiro para fazer um supermercado decente também não está garantida a compra de produtos de qualidade: sem adição de açúcares, sem agrotóxicos, sem gorduras saturadas ou trans. Aqueles que têm a consciência alimentar e sabem que boa parte da comida que existe nas prateleiras do supermercado está injetada de veneno nem sempre possuem dinheiro para comprar comidas saudáveis e alimentos orgânicos. Não existe sistema imunológico que fique forte diante dessas combinações.

Já aqueles entre nós que estão se tratando precocemente têm tempo para dormir, não têm contas atrasadas nem dívidas impagáveis, conseguem meditar diariamente, fazem exercícios físicos, podem tomar suplementos como vitamina D, própolis e outros mimos, conseguem prestar atenção no que comem e ingerem em boa parte apenas o que é saudável. Visitam médicos regularmente e, se por acaso ainda assim tiverem seu sistema imunológico invadido, recorrem aos melhores recursos para alcançar a cura.

São pessoas que têm a possibilidade de estarem no exercício de suas criatividades – um direito que deveria ser de todos porque se houver uma natureza humana ela passa pela capacidade que temos de ser criativos. Todos nós temos talentos, mas nem todos podem se dar ao luxo de buscar saber que talento é esse porque estão preocupados apenas em sobreviver.

Tem ainda um outro tipo de tratamento precoce que podemos fazer enquanto sociedade: um pacto de entendimento de que o atual sistema econômico, chamado capitalismo, não vai dar conta de nos tirar dessa situação, até porque foi ele que nos trouxe até aqui.

A desenfreada exploração do planeta em busca de combustíveis fósseis e o desmatamento de nossas florestas para que a pecuária se desenvolva e a soja seja plantada para então virar ração animal são causas de pandemias na medida em que, ao deteriorarem um ecossistema, provocam a migração de espécies que, fora de seu habitat, interagem com o ser humano e fazem nascer novos vírus.

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A Covid-19 não é a primeira e não será a última pandemia. Antes dela houve outras mais letais – o Ebola, por exemplo – e outras mais contagiosas, como o sarampo. Da próxima vez talvez a gente não tenha tanta sorte e precise lidar com um vírus que seja tão contagioso quanto o sarampo e tão mortal quando o Ebola. 

Vírus estão nesse planeta bem antes da gente e mantêm com nosso organismo uma relação de parceria. Microorganismos formam mais da metade do nosso corpo e é esse microbioma que, uma vez em equilíbrio, nos mantêm sãos.

A gente divide esse planeta com uma infinidade de outros seres vivos e seria importante que entendêssemos que não somos os protagonistas dessa história. Se a gente deixar de existir amanhã, todo o sistema Terra floresce. Se os insetos deixarem de existir amanhã, não duraremos mais 50 anos.

Ainda assim, uma inexplicável dose de autoestima combinada com arrogância faz com que a gente se sinta a espécie mais inteligente e poderosa. Não somos. E se conseguirmos a façanha de nos auto-extinguir estaremos certamente entre as espécies mais estúpidas que já passaram por esse planeta tão lindo e gentil.

O sistema econômico, as relações de produção, o dinheiro, o capital, o lucro, a propriedade privada, o complexo sistema financeiro que faz com que os ricos fiquem muito mais ricos através de transações complicadíssimas não são leis da natureza. Eles foram criados por alguns homens – portanto, pela raça humana – e podem ser destruídos.

Tente, por alguns minutos, imaginar um mundo sem propriedade privada. É uma tarefa bastante difícil, não é? Isso mostra apenas que nossa imaginação está profundamente bloqueada.

É razoável supor que se tudo – absolutamente tudo – o que a gente fez de bom até aqui foi através da solidariedade e da comunidade, da troca de conhecimento e de experiências passando de geração para geração, então o espaço do comum deveria ser mais fértil às nossas imaginações.

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Nossa espécie se desenvolveu porque é capaz de atuar de forma colaborativa. Essa é a melhor explicação para o nosso – até aqui – sucesso evolutivo. Mas o acúmulo de riqueza, e portanto de poder, está criando a ilusão de que existimos separadamente.

Jeff Bezos não criou a Amazon sozinho. Steve Jobs não criou a Apple sozinho. Bill Gates não criou a Microsoft sozinho. Todas essas criações têm, na origem, investimento público e conhecimento compartilhado. Mas o sistema é perverso e atua de modo a esconder nossa participação no sucesso ilusoriamente individual de alguns.

Aí, para criar o mito do homem que se fez por conta própria, essa história é contada e recontada, riquezas imorais são acumuladas, metade da população do planeta vive miseravelmente e a jornada do herói é construída de modo a colocar na sua cabeça que, com esforço, você chega lá.

As pessoas mais esforçadas que já conheci na vida não tinham dinheiro para muita coisa; e algumas das mais preguiçosas são imoralmente ricas e nunca se esforçaram para nada. Está na hora de a gente acabar com essas ficções e reivindicar nossa história, nossos poderes, direitos e riquezas. 

A luta, a grande luta que temos que lutar, é para destravar nossa imaginação e assim sermos capazes de imaginar uma forma de superar o sistema capitalista, superar as atuais relações de produção que dilaceram o planeta e as relações de trabalho que exploram e oprimem. Pensar criativamente em formas de existência que expandam o comum e limitem o privado.

O fato é que já sabemos que, sozinhos, não vamos sobreviver, ainda que meia dúzia de famílias consigam realizar o sonho já iniciado de, em algumas décadas, colonizar Marte. Nossas chances de sobrevivência reside na nossa capacidade de colaborar; como comunidade ainda temos uma chance. A hora é agora. E nem um minuto depois disso.

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