por Nathalia Zaccaro

BijaRi celebra 20 anos com retrospectiva; coletivo usa a arte para provocar reflexões sobre o modo como nos relacionamos com as cidades

Em 2002, um coletivo de arte urbana soltou uma galinha no efervescente Largo da Batata e gravou a reação de quem estava por ali. Em seguida, andaram alguns quarteirões e a mesma galinha ciscou em frente ao luxuoso Shopping Iguatemi. Se na primeira parada a interação aconteceu de forma lúdica, na segunda ela simplesmente não aconteceu. No Largo da Batata, a galinha fugiu de quem tentava a agarrar, no Iguatemi foi ignorada até que um segurança chegou avisando que ela tinha que se retirar imediatamente.

Será que galinha não tem direito ao espaço público? Ou será que a calçada do shopping não é um espaço tão público assim? “A gente queria encontrar um elemento analisador que pudesse revelar contextos sociais não visíveis de imediato, algo que pudesse romper esse ruído não exposto”, conta Mauricio Brandão, integrante do coletivo de arte BijaRi, responsável pela ida da ave ao shopping.

A vontade de provocar discussões a respeito da cidade e de como a ocupamos, que inspirou a ação Galinha, marca os trabalhos do BijaRi, que este ano completa duas décadas de existência e celebra o aniversário com uma retrospectiva de seus principais trabalhos na exposição Arquivo BijaRi 1997-2017, que fica até fevereiro em exposição no próprio estúdio do coletivo.  “A arte é uma forma de desensevolver novos entendimentos de dinâmicas sociais de poder que acontecem na cidade”, diz Brandão.

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O coletivo é formado pelos arquitetos Gustavo Godoy, Mauricio Brandão, Olavo Ekman, Rodrigo Araújo, Geandre Tomazoni e o publicitário João Rocha. Em 1997 eles decidiram alugar uma casa que servisse de espaço de trabalho, festa e criação, sem pretensão de montar nada oficial. Escolheram uma casa no Butantã, na Rua Bijari, que, meses depois, batizaria o estúdio que naturalmente surgiria ali. “Começamos a trabalhar juntos, fazíamos muito cenário para shows, videoclipe e, em 1998, compramos nosso primeiro computador e começamos a explorar web arte e manipulação em tempo real de vídeo”, relembra.

No começo, o BijaRi ficou conhecido como um coletivo de VJs. Faziam projeções em shows pequenos e rapidamente chegaram aos palcos do Sonar e do Skol Beats. A conversa mudou em 2002, quando a galinha de Pinheiros deixou claro para os artistas que a discussão que mais os interessava estava ligada as raízes acadêmicas do grupo: o urbanismo e arte pública.  

O que sustenta o trabalho artístico e crítico do BijaRi é o estúdio de design de mesmo nome em que atendem clientes como Ford, Claro, Bradesco e Gafisa. O equilíbrio delicado entre os interesses dos clientes e as diretrizes do coletivo é conquistado as custas de muita conversa entre os seis. “Tem altos paus. Já aconteceu de a gente fazer um trabalho e depois achar que aquilo estava em desacordo com nossa visão de cidade. Estamos sempre pensando nisso, avaliando o que rola e o que não rola. Mas desse jeito temos a chance de contaminar um pouco essas empresas com nossas ideias, não estamos fora do sistema, pelo contrário”, explica.

Um dos trabalhos mais icônicos do BijaRi é a ação Natureza Urbana, que o grupo desenvolve desde 2007. Eles se apropriam de estruturas urbanas em desuso, como carros abandonados, e os reconstituem como fragmentos da natureza, construindo organismos vivos e sincréticos que questionam a degradação da relação entre o urbano e o ecológico.  

Em Contando com Nosotros, de 2011, os brasileiros foram à Colômbia, na periferia de Medellín, onde investigaram como a instalação de teleféricos, e consequentemente a visita de turistas à região, estava impactando a vida dos moradores locais. “As pessoas passavam ali voando sobre os tetos de um jeito muito distanciado e queríamos reforçar a existência de uma narrativa de baixo pra cima”. Conversaram com quem nasceu ali, transformaram os pensamentos dessas pessoas em imensos tecidos pintados que foram instalados sobre as casas da comunidade. Quem voava ali de teleférico lia nos tetos das casas a história do lugar.

A íntima conexão entre a cidade e seus habitantes é tema constante na obra do grupo. Em 2007 eles se aproximaram dos moradores da ocupação Prestes Maia, no centro de São Paulo, e fizeram ali uma oficina de lambe-lambe em que desenvolveram cartazes que explicavam o conceito de gentrificação. As obras, que diziam “GENTRIFICAÇÃO: Processo de restauração e/ou melhoria de propriedade urbana deteriorada REALIZADO PELA CLASSE MEDIA OU EMERGENTE geralmente resultando na remoção de população de baixa renda”, foram coladas nas fechadas de prédios ocupados e escancaravam as mazelas da especulação imobiliária para a polícia, imprensa e quem mais passassem por ali.  “Pensando em arte política, a gente sempre reflete sobre como deve se dar essa colaboração entre o artista e o cara que está ali cedendo sua imagem, seu contexto. Não queremos ir lá, capturar a imagem de um cara que está mal e soltar isso em um circuito de arte sem que aquilo se reverta em um conhecimento coletivo que seja em benefício da pessoa também e não só nosso”, diz Maurício.

 As tentativas do BijaRi de reconquistar o espaço urbano e construir uma cidade mais democrática encontraram ressonância em diversos movimentos populares que ganharam muita força desde 1997, quando o coletivo começou. “Somos parte dessa engrenagem que foi tomando forma e lutou pela ocupação de espaços como o centro da cidade, a criação de festivais e as próprias manifestações de 2013 que lutavam pelo preço da passagem de ônibus. São questões para as quais estávamos chamando atenção”, diz.

Como parte das celebrações pelos 20 anos do coletivo, eles se preparam para inaugurar a própria galeria de arte, que sediará a exposição de aniversário. Instalada dentro do estúdio do grupo, a galeria Anti-Pop vai abrir espaço para artistas de fora do circuito tradicional e sediar debates sobre arte urbana.

“A ideia é que seja mais voltado para formatos artísticos digitais. Estamos ainda entendendo como tudo vai funcionar, mas muito felizes com essa novidade. Sempre fomos nosso próprio instituto de arte, sempre bancamos nossos projetos, então faz todo sentido termos nosso próprio espaço de divulgação”, conta Maurício. A inauguração será no dia 2 de dezembro, com direito a obras inéditas e venda de lambe-lambes do BijaRi. 

Vai lá:

Exposição “Arquivo Bijari 1997- 2017” – Galeria Anti-Pop
Local: Galeria Anti-Pop – Rua Padre João Gonçalves, 81, Pinheiros– (11) 3815-7729
Abertura: 2 de dezembro, sábado, meio-dia
Período expositivo: de 2 de dezembro a 3 de fevereiro de 2018
Horário: de segunda a sexta-feira, das 11 às 18 horas, e aos sábados das 12 às 19 horas (é necessário tocar o interfone para atendimento). A galeria estará fechada para visitação entre os dias 23 de dezembro e 2 de janeiro de 2018 
Entrada gratuita.

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