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O milagre da Rua Bruxelas

Clube da Esquina, Tim Maia, Michael Jackson e milhares de LPs abandonados misteriosamente numa rua de São Paulo

O milagre da Rua Bruxelas

Créditos: Creative Commons


Por Peu Araújo

em 6 de julho de 2018

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Passarim, de Tom Jobim, pousa sua bossa no meu 3×1 Gradiente neste momento. Ele foi encontrado em meio a milhares de discos que foram despejados na esquina da Rua Bruxelas com a Rua Capital Federal, no Sumaré, em São Paulo, nesta quarta-feira (4 de julho). Na mochila, capturei ainda uma coletânea Programa Especial Vol. 1, lançada em 1979, com clássicos de Tim Maia, Hyldon, Cassiano e Luiz Melodia, e o álbum Encontros e Despedidas, do Milton Nascimento, de 1985. E mais Maria Bethânia, Leila Pinheiro, Ivan Lins, Adriana Calcanhoto, um disco do ex-lateral esquerdo Júnior e várias trilhas de novelas, num total de 26 LPs que neste momento estão sendo limpos, avaliados e ouvidos.

Foi pelas redes sociais que começaram a pipocar diversas fotos e vídeos com milhares de discos abandonados na rua, sem dono, sem lei, todos à espera de um novo lar. Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo, apenas que eles estavam disponíveis. Teorias começaram a ser construídas. O cara morreu e a família jogou tudo fora. Foi um carroceiro que deixou. Coisa de briga de casal. Entre outros causos foram e continuam a ser ditos. “Parece que a casa foi alugada e o proprietário está se desfazendo das coisas que estavam lá dentro”, conta uma comerciante vizinha ao local. Segundo ela, os LPs e compactos foram deixados na calçada na quarta à tarde, e as sobras foram recolhidas nesta quinta-feira por um caminhão.

A esquina da Rua Bruxelas com a Rua Capital Federal, em São Paulo, virou um mar de discos abandonados / Créditos: Peu Araújo

Muita gente pode não entender, mas é como se estivessem distribuindo dinheiro. Alguns dos LPs largados ali, em bom estado, valem centenas de reais e, depois de uma boa garimpada, era possível encontrá-los. Não demorou muito para os DJs e colecionadores despencarem para o endereço em busca dum disquinho grátis.

Minha vitrolinha reproduz neste momento “Formigueiro”, forró cantado por Tim Maia numa coletânea de 1984 que reúne Ivan Lins, Gilson Peranzetta e Vitor Martins.

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Cheguei por lá umas 22h30 e seguramente não era o primeiro a ter aquela ideia. Os discos, muitos deles já quebrados, destruídos, meio molhados, meio queimados, estavam ali sendo “atacados” como o tradicional bolo do aniversário de São Paulo servido no bairro do Bixiga. Era só preciso um pouco de coragem e um recipiente para desfrutar. O pessoal foi se avisando, encostando com seus cases.

No meio do caos, o músico Márcio Werneck ergue orgulhosamente a mão direita portando o primeiro volume do Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges. O álbum, que aparenta estar em bom estado, custa por aí algumas centenas de reais. “A gente tava falando de discos raros, comentamos do Clube da Esquina e eu achei. Eu dei pulos de alegria na hora”, ele comenta. “Achei ainda o Autobahn, do Kraftwerk.” Com uma visão quase mágica – diria que compartilhada por muitos que presenciaram a cena –, Werneck decreta: “Foi um barato aquela visão. Era como se tivesse rolado uma chuva de vinis, uma coisa maluca que só poderia acontecer num filme”.

O músico Márcio Werneck ficou eufórico de ter encontrado o primeiro volume do Clube da Esquina em meio aos LPs abandonados / Créditos: Peu Araújo

“Quando vi uma foto, corri pra lá”, conta o DJ e vendedor de discos Peba Tropikal, que encontrou, em meio ao caos, dois discos da explosiva parceira de Elizeth Cardoso com o Zimbo Trio, um do Jackson do Pandeiro, entre outras coisas. Ele dá seu atestado sobre o garimpo. “Foi muito divertido ter ido. Acho que foi uma coisa meio verão da lata, coisa que só acontece uma vez a cada tempo”. Os ouros estavam ali. Bastava cavar.

“Magrelinha”, do Luiz Melodia, ganha a sala aqui de casa neste momento. O disco, que tá com uma pontinha levantada e um pouco empenado, roda muito bem obrigado, mas é um dos que precisarão passar pelo departamento médico antes de se juntar com o resto do grupo.

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“Eu peguei uns 100”, diz a DJ e colecionadora Nat Jakovac. Ela, que, como todos que estiveram lá, se emocionou com o garimpo grátis, encontrou uma coletânea com vários hits do Paulo Diniz, Adoniran Barbosa, Marisa Monte, Hermeto Pascoal, Toquinho e Vinícius, Emílio Santiago, Michael Jackson – o clássico Bad –, Supertramp, Aretha Franklin e mais um sem fim de coletâneas. Ela também tem sua teoria sobre o ocorrido. “Pelo fato de ter muita cinza e capa molhada, era evidente que tentaram destruir os discos.” E comemora o bazar beneficente inesperado: “A melhor coisa foi terem colocado eles numa esquina de um bairro [o Sumaré] com muitos músicos e artistas, inclusive perto da antiga MTV, pois, assim, pelo menos muitos discos foram salvos e tiveram um final feliz”.

Termino este texto e vou direto cuidar das novas aquisições. Estou escutando neste momento uma versão meio funk da canção “Fandangueira”, apresentada pelo grupo Pentagrama. É o tipo de coisa mágica que só acontece em garimpos. O disco que tem esta faixa se chama Gauchissimo Nº 2 e tem uma capa que mais parece uma foto de churrascaria. Sem ouvir, sem ter ideia exata do que tem ali, eu jamais traria ele para casa. Que sorte a minha.

No início da madrugada já tinha gente tomando uma brejinha, batendo papo, mas ainda muita gente incrédula com o fato de milhares de discos estarem jogados numa esquina do Sumaré. Os mais jovens talvez nem entendam tal animação, sem problemas. Imagine algo que você goste muito, colecione e tenha muito carinho. E agora imagine isso ao seu alcance de graça.

Deixados durante a tarde na calçada, os discos seguiram sendo explorados até tarde da noite / Créditos: Peu Araújo

É bem verdade que o sentimento de euforia deu seus titubeios. O designer multimídia, filmmaker e MC Oga Mendonça, que foi lá dar um confere na bagunça, deu seu parecer que mistura sensações. “Eu, primeiro, fiquei eufórico. No caminho, fui pensando nos tesouros que eu iria encontrar e tentando entender os motivos da pessoa se desfazer disso tudo, mas chegando e fuçando foi me dando uma tristeza, porque a maioria dos artistas que eu vi lá eram pequenos, pareciam ser independentes, meio desconhecidos… E aí eu fiquei pensando na minha caminhada na música, na caminhada de tanta gente que bota tanto sonho ali e a gente vendo os sonhos dos caras sendo jogados na rua, sendo pisados.”

Foi realmente foda ver Chico Buarque, Ney Matogrosso, Michael Jackson, Yes, Lupicínio Rodrigues, Jacob do Bandolim e outros tantos nomes impossibilitados de resgate, de uma nova chance. Mas, por outro lado, foi incrível acessar discos que ainda não estavam em nossas coleções, e poder compartilhar – mesmo que por poucas horas – música, conhecimento e discos.

Há quem diga que vai rolar uma festa só com os achados da Rua Bruxelas. Há quem tenha voltado pra casa com o porta-malas lotado de música, há quem tenha se divertido e também quem tenha se decepcionado. Houve quem encontrasse por lá um LP que procurava há muito tempo, e quem ficasse surpreso com as coisas que encontrava. Mas há, acima de tudo, uma nova lenda na cidade de São Paulo.

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